quinta-feira, 31 de março de 2011

Frases lapidares

"Você não sabe o que é a morte, então você não tem de ter medo da morte. Você tem de ter medo é da desonra, dela você tem de ter medo, isso mata você".
José Alencar, ex-vice-presidente da República (do Brasil!)

domingo, 27 de março de 2011

A peãozada deu uma lição aos comissários--Elio GASPARI

Reapareceu no meio da mata amazônica, dentro do canteiro de obras da Camargo Corrêa, o eterno conflito dos trabalhadores da fronteira econômica com as arbitrariedades e tungas a que são submetidos por grandes empreiteiros, pequenos empresários, gatos e vigaristas. Num só dia, incendiaram-se 45 ônibus e um acampamento na obra da hidrelétrica de Jirau, em Rondônia.

Em poucos dias, a peãozada zangou-se também nos canteiros de Santo Antônio (RO), nas obras da Petrobras de Suape (PE) e em Pecem (CE). Ocorreram problemas até em Campinas (SP). Estima-se que entraram em greve 80 mil trabalhadores da construção civil. Esse setor da economia emprega 2,4 milhões de brasileiros.

Do nada (ou do tudo que fica escondido nas relações de trabalho nos acampamentos), estourou um dos maiores movimentos de trabalhadores das últimas décadas. Sem articulação, redes sociais ou ativismo político, apanhou o governo de surpresa. Assustado, ele mandou a tropa da Força Nacional de Segurança. Demorou uma semana para que o Planalto acordasse.

Numa época em que os sindicalistas andam de carro oficial, o representante da CUT foi a Rondônia com um discurso de patrão, dizendo que os trabalhadores não podiam parar uma obra do PAC. (Essa mesma central emitiu uma nota condenando o bombardeio da Líbia.) Paulo Pereira da Silva, marquês da Força Sindical, disse que nenhuma das duas grandes centrais está habituada a lidar com multidões. De fato, nas obras de Jirau e Santo Antônio juntam-se 38 mil trabalhadores. Há sindicatos na área, mas eles mal lidam com as multidões dos associados. Disputam sobretudo o ervanário de R$ 1 milhão anual que rende a coleta do imposto sindical da patuleia.

As lideranças políticas e sindicais nascidas no rastro dos movimentos de operários do final dos anos 70, quando pararam 200 mil trabalhadores no ABC por conta de um barbudo chamado Lula, mudaram de andar. Preocupados com a distribuição de cargos e de Bolsas-Ditadura, esqueceram-se dos sujeitos que precisam da cesta básica. Não perceberam que as mudanças sociais ocorridas no país haveriam de chegar aos alojamentos dos peões das grandes obras.

Ou as grandes empreiteiras se dão conta de que devem zelar pela qualidade e pelo cumprimento de seus contratos trabalhistas, ou marcas como a da Camargo Corrêa, da Odebrecht e da OAS ficarão marcadas pelas patas dos gatos que entram no recrutamento de seus trabalhadores. Entre as reivindicações de Santo Antônio estava a instalação de banheiros exclusivos para mulheres. Alô, doutora Dilma.

Nenhuma dessas empresas foi fundada por um empreendedor genial, nem tentou um empreendimento de ambição comparável à "Fordlândia". Foi na matas da Amazônia que, no século passado, Henry Ford atolou seu projeto de extração e industrialização da borracha. Maus modos, incompreensão e complexo de superioridade resultaram numa revolta que destruiu boa parte das instalações do empreendimento. Isso em dezembro de 1930. (As grandes empreiteiras deveriam obrigar seu diretores a ler "Fordlândia", do professor americano Greg Grandin.)

Felizmente, os tempos mudaram e a Força Nacional de Segurança disparou balas de borracha. Em 1996, diante dos sem-terra de Eldorado dos Carajás, a PM paraense disparou tiros de verdade e matou 19 pessoas.

O cadafalso sob Roger Agnelli




O executivo e seu time transformaram a Vale numa máquina de fazer dinheiro – apenas para perceber que a empresa continua sob o jugo do governo
LEONARDO SOUZA. COM MARCOS CORONATO E LEOPOLDO MATEUS

Uma sequência de desentendimentos tornou indesejado para o governo petista,
Roger Agnelli, o executivo que, num período de dez anos, transformou uma antiga estatal depauperada na segunda maior mineradora do mundo e num dos símbolos da ascensão brasileira nos mercados globais.

O episódio revela como a situação de Agnelli no comando da Vale ficou insustentável. Antes visto como uma espécie de monarca absoluto na condução da mineradora, seu poder vem sendo desafiado seguidamente nos últimos meses por pessoas ligadas ao governo federal. Há pouco mais de uma semana, segundo noticiou o jornal O Estado de S. Paulo, o ministro Guido Mantega, da Fazenda, foi até o Bradesco informar que o Palácio do Planalto pretende substituir Agnelli em breve. Foi o Bradesco que, como acionista, indicou aquele que em 2001 era um de seus executivos mais promissores para presidir a Vale – e, desde então, sempre deu respaldo a sua gestão.

Nos últimos tempos, porém, os sinais que partem do banco não são animadores para Agnelli. Seus constantes choques com o governo Lula e com o PT não foram bem recebidos no Bradesco, onde impera uma cultura de relação discreta com a política. Na última sexta-feira, o jornal O Globo publicou em seu site que o banco já concordara com a saída de Agnelli. Em nota, Agnelli disse que não se envolve em questões políticas: “A decisão sobre a escolha do diretor presidente da Vale compete exclusivamente aos acionistas controladores da empresa. O que tenho feito nos últimos dias é o mesmo que fiz ao longo de toda a minha carreira: trabalhar. Não tenho envolvimento com qualquer questão política relativa a este assunto”. A depender dos planos da presidente Dilma Rousseff, expressos na atitude de Mantega, Agnelli deverá deixar a empresa em maio, ao final de seu mandato.

Se isso acontecer, será o fim daquela que talvez possa ser considerada a mais bem-sucedida gestão de uma estatal privatizada no Brasil. Na era Agnelli, as vendas da Vale foram multiplicadas por dez (de US$ 4 bilhões, em 2001, para US$ 46,4 bilhões, em 2010). A companhia se consolidou como a maior produtora global de minério de ferro e a segunda maior mineradora do mundo. A estratégia de expansão adotada por Agnelli levou a Vale a comprar outras empresas – como a canadense Inco e a Fosfértil – e a entrar em novos países e mercados – de ferrovias ao carvão, do níquel à petroquímica. Ele soube, acima de tudo, tirar proveito da demanda chinesa e adotou uma política agressiva de preços, que estabeleceu um novo patamar no mercado global de ferro. As ações da Vale registraram na gestão Agnelli uma valorização de 1.583%. Quem aplicou 1.000 na Vale na posse de Agnelli, no dia 1º de julho de 2001, tinha na última quarta-feira R$ 16.829.
Reportagem--http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI221341-15223,00-O+CADAFALSO+SOB+ROGER+AGNELLI.html

Lula não sai da raia---Vitor Hugo Soares

Quem estiver angustiado na expectativa de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva desencarne logo do poder, depois da passagem de oito anos no Palácio do Planalto, é bom tratar de achar alguma sinecura ou outro lugar confortável qualquer para enganar o tempo. Caso contrário, o conselho é encontrar um pedaço menos incômodo de calçada em algum lugar com sombra e água fresca, para esperar sentado.

Fatos políticos esta semana mostraram fartamente a gregos e baianos: Lula, além da retórica espírita, não emite nenhum sinal palpável de que pretenda de fato "desencarnar" do poder ou sair da raia política e do foco dos holofotes tão cedo.

Ao contrário: a efusiva e emblemática participação do ex-ocupante do Palácio do Planalto na festança que a comunidade árabe no Brasil lhe ofereceu no Clube Monte Líbano, em São Paulo, na noite de segunda-feira, 21, escancara para quem quiser ver que o ex-presidente pode estar pensando em muita coisa atualmente, menos em vestir um pijama para descansar no apartamento de São Bernardo com a família, ou, de bermuda e sandália japonesa, pegar uma vara de anzol para ir pescar.

Durante a homenagem no clube árabe da capital paulista, Lula deixou inúmeras pistas - algumas nítidas outras meio submersas - de que não só não quer descansar ou desaparecer por vontade própria do noticiário político, mas que já tem praticamente traçada rota e estratégia de seu próximo voo: tentar arrebatar São Paulo do bico dos tucanos e trazer a mais importante cidade da América Latina para garras e órbita de domínio petistas nas eleições municipais de 2012.

Quem prestou atenção ou não fechou os olhos de propósito (pior para o jornalismo) para fazer de conta que não está vendo ou não está nem aí, testemunhou seguramente que Lula raras vezes esteve tão à vontade quanto no Monte Líbano durante a homenagem dos integrantes legítimos (e aderentes de todo tipo) da comunidade árabe no País.

E não era para menos: cerca de duas mil pessoas disputavam um cumprimento ou um aceno, enquanto centenas aplaudiam de pé, segundo registro do repórter Claudio Leal na esclarecedora reportagem publicada na revista digital Terra Magazine sobre o evento.

A conversa com a colunista da Folha de S. Paulo, Mônica Bergamo, e as críticas duras de Lula contra dirigentes da ONU ao protestar contra a invasão da Líbia, em lugar de mandar um negociador ao país em tentativa de paz, não é coisa de quem procura repouso tranquilo.

Além do protesto com vários decibéis de volume acima do esperado pelos ouvidos mais delicados dos conhecedores das etiquetas diplomáticas, contra os "exageros" da segurança norte-americana durante a visita de Barack Obama a Brasília (fez revistas humilhantes até em ministros do governo na casa visitada).

É bom não esquecer: Lula compareceu à reluzente e animada recepção oferecida a ele pela comunidade árabe apenas dois dias depois de recusar convite do Palácio do Planalto para o almoço em Brasília com Barack Obama.

Na Capital Federal, domingo passado, quatro ex-ocupantes do palácio provaram do cardápio oferecido pela presidente Dilma Rousseff ao colega norte-americano, incluindo FHC (PSDB), visto e fotografado em conversa aparentemente nada cômoda com o colega e atual presidente do Congresso, José Sarney (PMDB).

E aqui um rápido corte como nas filmagens cinematográficas, antes do ponto final destas linhas.

A memória é parte essencial do texto e da informação jornalística. Aprendi esta lição em meus anos de Jornal do Brasil, trabalhando com o saudoso Juarez Bahia, ex-editor nacional do então imbatível (qualitativamente falando) diário editado no Rio de Janeiro. Mestre dos maiores que conheci da teoria e da prática do jornalismo no Brasil (sete prêmios Esso na bagagem, conquistados com mérito ao longo da brilhante carreira).

Transmito aqui uma lição básica de Juarez Bahia, ministrada com seu jeito sempre doce e gentil, mas firme, de baiano de Feira de Santana, mesmo quando já era um jornalista de renome nacional e cidadão do mundo: "Quanto sentar diante da máquina na redação de um jornal para produzir um texto, escreva sempre como se estivesse falando do assunto pela primeira vez, mesmo que algum "copy" reclame ou considere repetitivo. Pense no leitor que não tenha nenhuma informação ou referência prévia sobre o tema e cuide bem do enfoque, pois isto é que faz toda diferença na comparação dos jornais, em cujas páginas se publicam todos os dias praticamente as mesmas notícias". Grande Bahia!

"A semana que vem tem mais", como dizia o folclórico prefeito de São Francisco do Conde, petrolífera cidade da Região Metropolitana de Salvador, ao anunciar suas obras na TV. A convite do colega Cavaco e Silva, a presidente Dilma Rousseff inicia na próxima terça-feira sua primeira visita oficial a um país europeu depois da posse.

Vai a Portugal, onde participará na quarta-feira com o chefe de Estado português da cerimônia de entrega do título de Doutor Honoris Causa ao ex-presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva, na Universidade de Coimbra.

Pode até parecer repetitivo, mas, a depender do enfoque, vai dar ainda muito mais o que falar.

Vale repetir:Grande Juarez Bahia!

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@ig.com.br

sexta-feira, 25 de março de 2011

Adeus, Ficha Limpa--Helena Rubinato

* É o Espírito e não a Forma da Lei que mantém a Justiça viva
(Earl Warren - 1891/1974)

Ficha Suja não era seu nome, seu nome é Lei da Ficha Limpa. Foi um dos movimentos populares mais fortes que já vi. Foram milhões de assinaturas e não acredito que algum cidadão correto tenha ficado feliz com sua derrota anteontem.

Vivemos em um país onde o político é protegido contra todos os males e goza de todos os benefícios. Não exigimos dele aquilo que exigimos das outras profissões que lidam com o bem comum, com o bem de uma empresa, com os bens de nossas casas.

Vou arriscar: tenho a impressão que até do apontador do Jogo do Bicho exigimos certos atributos que dos políticos nunca exigimos...

** O candidato que desfila pelo Código Penal com sua biografia não pode ter a ousadia de se candidatar - (...) (ministro Carlos Ayres Brito)

Perfeito: a cara de pau do sujeito que infringiu não sei quantos artigos do Código Penal em buscar votos é fantástica.

Mas quem é o maior culpado de haver no Congresso Nacional, nas Assembléias Estaduais e nas Câmaras de Vereadores o enorme cesto de maçãs podres ali abrigado? Os reincidentes e os novatos que, como a noite segue o dia, poderão se contaminar em breve?

Os candidatos?

Os eleitores?

Ou o partido que os abriga e lhes dá proteção?

*** Justiça adiada é Justiça negada
(William Gladstone - 1809/1898)

A Lei da Ficha Limpa nasceu antes das eleições, não foi feita para castigar ou justiçar os eleitos, mas para impedir que fichas-sujas fossem eleitos!

O STF acaba de adiar seu cumprimento, o que significa que a negou. Ou alguém imagina que nossos políticos vão deixar que 2012 chegue trazendo a Boa Nova? “Seja bem vinda, Ficha Limpa”!

***X- Fica frio, amigo, não foi o brasileiro o inventor da corrupção. Baseado no mais profundo ensinamento da minha religião, a corrupção começou no Princípio dos Princípios, justamente no Jardim do Éden. Quando os dois proto-Safados, corrompidos pela Serpente, desrespeitaram a Lei do Senhor e comeram o Fruto da Ciência do Bem e do Mal, o desrespeito espantoso ficou conhecido como A Queda. Mas não passou assim pelo Todo (como era conhecido o Todo-Poderoso), que condenou os três culpados por uso indevido de bem público e formação de quadrilha. Logo o Anjo Gabriel, executor das ordens do Supremo, expulsou Adão e Eva do Paraíso, obrigando-os a viver na periferia, a leste do Éden. Mas a Serpente, misteriosamente, nunca foi punida.

(Millôr Fernandes - que dispensa apresentações e a quem agradeço aqui por mostrar que nem todo carioca é Fux).

A um passo do linchamento--Sandro Vaia

A lei que alterar o processo eleitoral entrará em vigor na data de sua publicação, não se aplicando à eleição que ocorra até 1 (um) ano da data de sua vigência. ( Artigo 16 da Constituição da República).

Estranho país este.Todo mundo quer ser herói às custas dos outros.Como o povo não tem amadurecimento ou discernimento para escolher candidatos entre quem tem ficha suja ou não, os guardiães da moralidade alheia querem que os tribunais decidam em quem o povo pode votar ou não.

A Lei da Ficha Limpa já é, em si, uma aberração jurídica, política e comportamental.Em qual país sério seria necessário editar uma lei para evitar que o eleitor votasse em candidatos sob suspeita moral?

Em resumo: se a lei não nos proíbe de votar em notórios ladrões, continuaremos votando em notórios ladrões, até que algum tribunal anule nossos votos e com isso aplaque a intimidade de nossa própria consciência.Ufa ! Não votei num ladrão porque a justiça, graças a Deus, decidiu que eu não posso votar num ladrão.

Isso quer dizer: se a lei não me proibisse, eu continuaria votando nele,mas a culpa não é minha. É da lei.

Esse tipo de comportamento, tão arraigado no eleitor brasileiro, faz com que se crie um facilitário moral,uma espécie de tribunal inquisitório onde se divide a humanidade entre os bons e os maus, desde que a sentença condenatória seja assumida por alguém que esteja fora da área da responsabilidade individual.

Existe na nossa narrativa política e no imaginário do eleitor brasileiro, a confortável , indefinível e confortável figura do “eles”- aqueles seres melífluos ,estranhos,misteriosos e sem identificação em quem podemos jogar as responsabilidades que nós mesmos não temos coragem de assumir.Se o Congresso é um lixo, não é culpa de quem o elegeu, mas é culpa “deles”- o ente misterioso que conspira contra nosso edifício ético e moral.

O STF, nesta semana, tomou uma decisão em rigorosa obediência à letra da lei.Dificilmente alguém conseguirá encontrar alguma espécie de dubiedade no artigo 16 da Constituição transcrito acima. Ele é claro como uma aurora: nenhuma lei regulamentando eleições de um determinado ano pode entrar em vigor no mesmo ano.

Cinco dos 11 juizes do Supremo votaram contra o artigo 16 para sair bem na foto. Os 6 que votaram de acordo com a letra da lei sabiam o risco que estavam correndo: o de serem chamados, pela turba, de inimigos da ficha limpa.

Por um voto, um mísero e escasso voto,ganhou o princípio civilizatório do primado da lei, ou seja, da prevalência da civilização sobre a barbárie.Um mísero e escasso voto que significa simplesmente isso: o Estado de Direito está por um fio.

A qualquer momento, a voz rouca das ruas pode prevalecer sobre a lei e como no Velho Oeste vamos linchar primeiro e perguntar depois.

Sandro Vaia é jornalista. Foi repórter, redator e editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, diretor de Informação da Agência Estado e diretor de Redação de “O Estado de S.Paulo”. É autor do livro “A Ilha Roubada”, (editora Barcarolla) sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez.. E.mail: svaia@uol.com.b

terça-feira, 8 de março de 2011

Só Depois do Carnaval, por THEÓFILO SILVA

A noção de quando um Ano – falo do ano civil ou legal – começa e quando ele acaba é relativamente nova, nesses dez mil anos de civilização.
A Europa só passou a adotá-lo em 1º de janeiro de 1600 com exceção da Inglaterra, que só o fez em janeiro de 1752.
Marcar a passagem do tempo sempre foi uma preocupação do homem. Desde o uso de relógios de sol, em que um pedaço de madeira era enfiado num determinado ponto para marcar o avanço da sombra feita pelo sol, até a utilização de areia nas populares ampulhetas do tempo. Os romanos tinham um calendário que usava as fases da lua como base, até que Júlio César mandou modificá-lo. O chamado calendário Juliano perdurou até 1582, quando o papa Gregório III mandou reformá-lo, tornando-o mais preciso. Hoje o calendário Gregoriano é preciso e definitivo.
Mesmo com um calendário oficial, em virtude do grande poder da igreja, as datas eram marcadas seguindo o calendário eclesiástico, a partir da Páscoa (a ressurreição de Jesus Cristo). Seguia-se o calendário cristão em que todo dia é dia santo: a assunção de Maria, o Pentecostes, o Natal. Falava-se que, “a coisa se deu dois dia antes da Páscoa; no dia de Santa Luzia etc.” As pessoas se guiavam pelo calendário de eventos da Igreja.
Foi em torno do ano 1.000 que a igreja católica criou a Semana Santa e a Quaresma, os quarenta dias de jejum que os devotos cristãos teriam que enfrentar. Assim, os dias que antecediam à quarta-feira de cinzas, início da quaresma, estimularam os cristãos a se divertiram bastante antes de encarar a dureza dos dias difíceis que viriam sem carne, bebidas, festas e sexo. Era o “adeus à carne”, logo uma expressão italiana se popularizou, o “carne vale” surgindo daí a palavra Carnaval.
Várias cidades da Europa passaram a ter seu período de festas carnavalescas, sendo as de Veneza, Roma e Paris as mais organizadas. Tão organizadas, que logo foi sugerido a criação da figura de um rei para comandar a folia. Esse rei tinha que ser gordo, para simbolizar o fausto, sinalizando a abstinência que enfrentaria nos quarenta dias por vir.
Foi no Brasil que essa festa pagã, criada pelos cristãos, encontrou sua mais forte expressão ao aliar-se aos ritmos africanos, no Rio de Janeiro e na Bahia, transformando-se num evento mundial. Nenhuma celebração festiva no mundo dura tanto tempo, conta com tanta gente e é tão famosa. E eu acrescentaria: nem mostra com tanta clareza o caráter de um povo como o Carnaval brasileiro.
Esse espírito de passado, e de espera, em que as pessoas se preparavam para começar uma vida de abstinência antes da quaresma, parece ter se impregnado na consciência brasileira; o de que tudo acontece depois do carnaval. Todo brasileiro acha que o Ano no Brasil só começa após o carnaval. Como se trata de uma festa móvel – o domingo de páscoa ocorre obrigatoriamente entre 22 de março e 25 de abril – o Carnaval é marcado quarenta e sete dias antes desse domingo, podendo ocorrer em fevereiro ou março, tanto pior para o país se ele começar só em março.
Esse foi um ano atípico, as eleições de 2010 que elegeram presidente da república, governadores e o novo congresso deram a ilusão de que foi diferente. Mas não foi. As amargas medidas – até necessárias – foram tomadas, levando em conta o nosso espírito de carnaval, enquanto o povo aguardava a chegada da Folia.
Ou seja, o real ficará mesmo para depois do Carnaval, afinal durante os dias de folia tudo será esquecido. O brasileiro não está preparado para pensar antes da festa pagã, aí quando acordar, de ressaca, na quarta-feira de cinzas será tarde demais. A realidade, o Brasil como ele é, será encarado na quaresma. Essa é a tradição!

Theófilo Silva é articulista