sábado, 29 de janeiro de 2011

O Maranhao explica.......

domingo, 23 de janeiro de 2011

Prevenção não ganha eleição---, por Mary Zaidan

Há quatro anos, o governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou investimentos de R$ 115 milhões para a criação de sistemas de alerta capazes de poupar vidas em catástrofes anunciadas. O dinheiro não entrou na primeira versão do PAC; deveria constar no PAC 2, ainda que reduzido a menos de um terço – R$ 36 milhões. Mas nada. Não apareceu em canto algum simplesmente porque prevenção não dá voto.

E isso vale não só para a tragédia da região serrana do Rio, que engoliu quase oito centenas de vidas e deixou outros milhares sem eira ou beira, mas para todas as áreas em que o Estado deveria se apresentar como ente educador e financiador da prevenção. É assim na saúde, na infraestrutura e, claro, na Defesa Civil, primo pobre dos orçamentos oficiais.

Políticos correm para inaugurar novos postos de saúde e hospitais, mas raros são aqueles a investir em água e esgoto tratados, que evitariam uma série de internações, especialmente de crianças, principais vítimas da irresponsabilidade dos governantes. No PAC foram concluídas apenas 8% das obras de saneamento previstas.

Adoram descerrar faixas de novas estradas, 69% delas deficientes, sendo 24% em péssimas condições por falta de manutenção, de acordo com estudo do Ipea/2009. A ponte JK, em Brasília, é um exemplo pronto e acabado disso. Acaba de ser parcialmente interditada porque desde a sua inauguração, em dezembro de 2002, não passou por qualquer tipo de manutenção. O mesmo ocorre com os linhões de energia, que só receberam algum recurso de conservação, ainda assim emergencial, depois dos apagões de novembro de 2009, que, se repetidos, poderiam ser fatais para a campanha de Dilma Rousseff.

A regra, todos sabem. Prevenir é eficiente, basta ver o resultado das polícias comunitárias na capital paulista e das UPPs no Rio. Remediar é infinitamente mais caro. Só para a calamidade serrana o governo federal já liberou mais de R$ 1 bilhão, quase 10 vezes mais do que deveria ter sido gasto em prevenção. Isso sem contar que vidas não têm preço.

Ainda assim, a maior parte dos políticos empurra a prevenção com a barriga. Possivelmente porque em ações preventivas – que muitas vezes não passam de coisas corriqueiras como limpeza de córregos, galerias, tapa-buracos, fiscalização e contenção de encostas -, não há lugar para a placa de bronze com o nome do governante da vez. Não comportam fogos de artifício, muito menos palanques.

Tudo tem um só nome: voto. E para tê-los muitas vezes bastam promessas, mesmo as sem qualquer lastro como as do PAC.


Mary Zaidan é jornalista, trabalhou nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, em Brasília. Foi assessora de imprensa do governador Mario Covas em duas campanhas e ao longo de todo o seu período no Palácio dos Bandeirantes. Há cinco anos coordena o atendimento da área pública da agência 'Lu Fernandes Comunicação e Imprensa, @maryzaidan

As prefeituras não prestam contas........

RIO, JABOATÃO DOS GUARARAPES e SÃO VICENTE FÉRRER - Quem chega ao distrito de Sirigi, em São Vicente Férrer, município a 116 quilômetros de Recife, encontra as tubulações de esgoto destruídas. Próximo ao que sobrou da rede, o esgoto das casas jorra em direção ao rio que dá nome ao local. A ausência de saneamento básico não é por falta de verbas. A prefeitura recebeu cerca de R$ 1,5 milhão para executar a obra. A maior parte dos recursos foi consumida, mas uma inspeção do Tribunal de Contas da União (TCU) descobriu que o trabalho não foi concluído. A realidade é igual à de muitos municípios brasileiros. Das 60 condenações a prefeituras e gestores de verbas aplicadas entre outubro e dezembro de 2010, 25 estão relacionadas a irregularidades na aplicação de recursos para saneamento e abastecimento de água, o grande ralo das verbas públicas indicado pelas inspeções do TCU. Educação e habitação são os demais ralos, respectivamente.

No último trimestre de 2010, o TCU determinou a devolução de um montante de R$ 35 milhões em verbas - valor atualizado, correspondente ao liberado pelo governo federal para obras de saneamento e rede de água. Neste ano, a inspeção feita pelo TCU - realizada por amostragem ´- já condenou o município de Cajazeiras, na Paraíba, a devolver R$ 448 mil à Fundação Nacional de Saúde (Funasa). O contrato para a construção de 161 privadas higiênicas não foi executado. Em Minas Gerais, um caso semelhante: a cidade de Lontra recebeu R$ 223 mil para obras de esgotamento sanitário. O serviço foi pago, mas somente 29% concluídos. Ainda cabem recursos.

Para o pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Administração e Contabilidade da Universidade de Brasília, José Matias Pereira, que estuda administração pública, a falta de transparência nos gastos e a certeza de impunidade, mais acentuada em regiões distantes dos grandes centros, fomentam as irregularidades. A falta da cultura de fiscalização, por parte da população, é outro motivo apontado para o mau uso das verbas federais.

- O grande problema é a transparência. As prefeituras não prestam contas publicamente sobre o uso das verbas e a população não tem como acompanhar. O TCU não possui estrutura para acompanhar os gastos em mais de 5 mil municípios. Mas quando fiscaliza encontra as irregularidades. Parte dos gestores não está preparada para administrar e a população também erra ao não escolher os melhores governantes. Para piorar, em algumas regiões, os moradores imaginam que o prefeito pode tudo e ele acredita que está acima da lei - afirma o pesquisador que arrisca uma previsão pouco animadora: - Será uma tarefa longa mudar esse quadro no país.

As condenações relacionadas a verbas para saneamento básico e abastecimento de água no último trimestre de 2010 puniram gestores e ex-gestores dos municípios de Paula de Olivança, Boa Vista do Ramos e Coari, no Amazonas; Doverlândia, em Goiás; Itabaiana, no Sergipe; Tocantina, no Tocantins; Cantá, em Roraima; Jaboatão do Guararapes, São Vicente Férrer e Flores, em Pernambuco; Rondon, São Miguel do Guamá e Cametá, no Pará; Barra de São Miguel e Picuí, na Paraíba; São Raimundo Nonato, Luiz Correia e Guaribas, no Piauí; Santo Antônio dos Lopes, no Maranhão; Euclides da Cunha, na Bahia; Ji-Paraná, em Rondônia; São Romão, em Mina Gerais e Wenceslau Braz, no Paraná, além do governo de Alagoas. Porto Velho, em Roraima, teve a verba suspensa.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Os idiotas estão por toda parte

Nelson Rodrigues acordou especialmente inspirado em 20 de maio de 1969. “Nada mais XIX que o século XX”, descobriu já na primeira linha da coluna que O Globo publicaria no dia seguinte. Abstraídas “a praia e as medidas masculinas dos quadris femininos”, não havia nada que permitisse distinguir uma época de outra. Em contrapartida, escancaravam-se as incontáveis semelhanças, começando pela consolidação do fenômeno que, segundo o cronista genial, configurou a mais notável singularidade do século XIX: “a ascensão espantosa e fulminante do idiota”.

Até então, os integrantes da tribo se haviam limitado a babar na gravata. “O idiota era apenas o idiota e como tal se comportava”, explicou Nelson Rodrigues. “O primeiro a saber-se idiota era o próprio idiota. Julgando-se um inepto nato e hereditário, jamais se atreveu a mover uma palha, ou tirar uma cadeira do lugar. Nunca um idiota tentou questionar os valores da vida”. Como ocorrera desde o começo dos tempos, decidiam pelos idiotas os que tinham cabeça para pensar e sabiam o que faziam. Os rumos eram ditados pelos melhores.

As coisas mudaram dramaticamente quando a imensidão de cretinos fundamentais se descobriu majoritária. “Houve, por toda parte, a explosão de idiotas”, avisou a crônica que, escrita há quase 42 anos, hoje tem cara de profecia. Neste começo de milênio, a praga que afligiu o século XIX e consolidou-se no século XX assumiu, em território brasileiro, dimensões amazônicas. Em suas infinitas variações ─ o espertalhão, o otário, o vigarista, o fanático, o farsante, o bobo alegre, o cafajeste, o prepotente, o gatuno ─, os idiotas elegem e são eleitos, nomeiam e são nomeados. Estão por toda parte.

No oitavo ano da Era da Mediocridade, a espécie em acelerada expansão é representada no governo e nos partidos da oposição, no Ministério e no segundo escalão, no Congresso, nos tribunais e na imprensa, na plateia que assiste à passagem do cortejo ou nos andores da procissão de espantos que começou há oito anos, não foi interrompida sequer pelas festas de fim de ano e seguiu seu curso no primeiro mês do governo de Dilma Rousseff. O imenso viveiro de cérebros baldios não se assusta com nada.

De saída, Lula apareceu ao lado de caminhões de presentes que não lhe pertencem, passaportes diplomáticos expedidos ilegalmente para alegrar a filharada e um forte do Exército reduzido a pensão de governantes ociosos. De chegada, Dilma montou o ministério mais bisonho de todos os tempos, escalou para gerenciá-lo um estuprador de contas bancárias e recolheu-se ao silêncio de quem não tem nada de aproveitável a dizer nem dispõe de ideias para trocar. Só recuperou a voz depois de surpreendida por uma tragédia anunciada em 2008.

Ao fim do passeio pela Região Serrana do Rio, Dilma prometeu fazer amanhã o que Lula jurou ter feito em 2005, solidarizou-se com as famílias assassinadas pela incompetência dos governos federal, estadual e municipal e elogiou o comparsa Sérgio Cabral. O governador devolveu o elogio, agradeceu a Lula por oito anos de providências imaginárias e debitou o massacre premeditado na conta de antecessores populistas, de São Pedro, do imponderável e dos mortos.

Nesta quinta-feira, em depoimento no Congresso, o secretário demissionário de Políticas e Programas do Ministério de Ciência e Tecnologia, Luiz Antonio Barreto de Castro, implodiu com seis palavras a conversa fiada sobre a catástrofe que até então contabilizava 762 mortos e 400 desaparecidos. Depois de revelar que não conseguiu incluir no PAC a implantação de um sistema de alerta com radares, orçado em R$ 115 milhões, que ajudaria a prever desastres em áreas de risco, Barreto resumiu o espetáculo do cinismo homicida: “Falamos muito e não fizemos nada”. Embora saiba disso há oito anos, a oposição oficial nada fala e nada faz. Há idiotas por toda parte.

Mas também há mais de 40 milhões de brasileiros que continuam enxergando as coisas como as coisas são e contando o caso como o caso foi. Não é pouca gente. E a munição é farta, como mostrarão os posts que pretendem retratar em preto e branco o verão brasileiro de 2011.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Justiça suíça congela US$ 13 mi das contas de Maluf, Jamil Chade, de O Estado de S.Paulo

GENEBRA - A Justiça suíça decide manter sob confisco mais de US$ 13 milhões em nome da família do ex-prefeito Paulo Maluf em contas nos bancos do país dos Alpes. Se somado ao dinheiro ainda bloqueado nas ilhas Jersey, a família Maluf conta com um total de US$ 35 milhões confiscado temporariamente na Europa.

A decisão do congelamento dos bens em contas na Suíça foi tomada nos últimos dias de 2010, mas apenas se tornou pública na segunda-feira. Dez anos depois de informar o Brasil sobre as movimentações suspeitas de Maluf, o governo suíço havia enviado um questionário à Justiça brasileira para saber se ainda queria manter o dinheiro congelado.

Em 2001, o Ministério Público de Genebra comunicou Brasília sobre a movimentação em nome do ex-prefeito que, naquele ano, retirou dos bancos da cidade dezenas de milhões de dólares e os transferiu, segundo o próprio ex-procurador-geral de Genebra, Bernard Bertossa, para as Ilhas Jersey, onde já possui conta. Mais de US$ 110 milhões teriam sido transferidos para o paraíso fiscal.

Nem tudo, porém, foi enviado e o montante que ficou na Suíça acabou sendo congelado, sob a suspeita de ser fruto de corrupção e desvio de verbas públicas. Segundo a Justiça, porém, o dinheiro estaria em grande parte em contas no nome de uma empresa offshore ligada à filha do ex-prefeito, Lygia Maluf, na cidade de Lausanne.

O objetivo do congelamento era o de permitir que um processo no Brasil pudesse avançar e, se condenado, Maluf teria de devolver o dinheiro aos cofres públicos. O problema é que, dez anos após a descoberta dos recursos, até hoje a Justiça brasileira não conseguiu condenar em última instância o ex-prefeito. Segundo confirmou a assessoria de imprensa do Ministério Público suíço, a devolução do dinheiro apenas pode ocorrer se houver uma condenação de Maluf no Brasil e nenhum recurso puder ser apresentado.

Ainda assim, o MP considerou que, diante dos indícios apresentados pelos promotores brasileiros, seria "justificável" manter os recursos em sequestro. Para renovar o bloqueio, os suíços avaliaram os estudos e investigações feitas no Brasil sobre o trajeto do dinheiro.

A corte de Jersey também havia aceitou em 2010 uma acusação apresentada pela prefeitura de São Paulo e congelou de forma preventiva US$ 22 milhões em ações que supostamente pertencem a empresas da família Maluf. O dinheiro seria parte do esquema que transferiu recursos públicos nos anos 90 para contas no exterior. A acusação apresentada indica que Maluf teria fraudado a cidade de São Paulo, com a ajuda de empreiteiras e de seu filho, Flávio Maluf.

Para tentar garantir a condenação, os advogados da prefeitura submeteram à Jersey uma série de documentos. Um deles aponta que, apenas no dia 8 de janeiro de 1998, uma transferência de R$ 2 milhões foi feita à família por uma construtora. Entre 1997 e 1998, essa construtora recebeu cerca de R$ 57,2 milhões da prefeitura de São Paulo como forma de pagamento por contratos obtidos. Esse dinheiro, segundo o documento, seria fruto de recibos falsos entregues pela construtora à prefeitura, que ainda assim os pagava.

O dinheiro das propinas a Maluf e sua família iam para a conta Chananim, no Banco Safra de Nova Iorque. De lá, os recursos seguia para as contas da Durant Internacional, uma offshore, nos bancos Deutsche, Morgan e Grenfell Limited em Jersey entre 14 de janeiro de 1998 e 23 de janeiro daquele ano.

Para tentar provar que o envolvimento de Maluf com as offshore, os advogados da prefeitura ainda entregaram ao tribunal cartas dos advogados de Maluf em Genebra, Schellenberg Wittmer, aos gerentes de contas do Deutsche Bank de Jersey, mostrando a relação entre o ex-prefeito e as empresas.

O peso econômico

A tragédia humana será sempre maior, mais devastadora, presente em todas as mentes. Mas existe também a tragédia econômica. As áreas atingidas produzem quase todas as hortaliças consumidas no estado do Rio. Tem pólo metal mecânico, têxtil, de confecções e turismo. O Rio conta também as perdas materiais: refazer o destruído, e, quando puder, voltar a produzir.

O governo e as empresas estão ainda calculando quanto se perdeu e quanto tempo será preciso para a recuperação. A Firjan fez uma pesquisa: 62,2% de 278 empresas consultadas foram afetadas, pelo menos 20% delas com alagamento do parque produtivo; a falta de funcionários foi sentida por quase todas; 82% ficaram sem energia elétrica. O cenário na agricultura é também devastador.

Ângela Thompson, diretora do Sítio do Moinho, em Itaipava, estava ontem com sua equipe tomando pé da situação nos seus seis hectares de produção orgânica. Ela fornece o produto para restaurantes, supermercados, e faz entregas domiciliares. As entregas foram suspensas. Ontem, no fim do dia, a empresa avisou que retomará o fornecimento. Uma parte da produção de hortaliças e legumes, feita em área coberta e mais alta, foi salva:

— Alguns dos meus funcionários estão ilhados. Felizmente, não perdemos ninguém, mas alguns perderam tudo e não conseguem vir para o trabalho. Uma ponte para cá foi restabelecida, mas precariamente.

Há produtores em situação bem pior. Além de perder a produção, a camada de terra produtiva foi soterrada por pedras, por areias que saíram do fundo dos rios. Quem tem produto, tem dificuldade de colher e escoar por falta de pessoal e estradas.

Comprar verduras, legumes e frutas é um desafio. Quase nada se encontra, mas o impacto que os moradores do Rio sentem pesará pouco no índice. Tudo acaba diluído, na média. O professor Luiz Roberto Cunha, da PUC-Rio, disse que as coletas diárias de preços já mostravam saltos fortes antes das chuvas:

— Alguns tubérculos subiram muito no fim do ano passado, como batata-inglesa, chuchu e tomate. Tomate, por exemplo, teve salto de 30%. Não apenas no Rio; em Belo Horizonte, tubérculos tiveram alta de mais de 20%. Fruta também subiu. Quando forem coletados os aumentos atuais dos preços de hortaliças e verduras, o impacto, no índice, será pequeno porque eles representam apenas 0,16% do IPCA.

É uma catástrofe para quem produz; um peso para quem consome, mas no índice mal se verá. Se os produtos não forem encontrados, não entrarão no índice.

Mas nos supermercados com os quais conversamos, a informação é de que há altas de preços e desabastecimento.

— Cem por cento das nossas hortaliças vêm de lá. Alguns fornecedores tiveram menos prejuízos porque trabalham com estufas, mas a oferta caiu mais da metade e os preços subiram absurdamente, para nós entre 50% e 60%. Se não tivéssemos essas parcerias e fôssemos comprar na Ceasa, seria o triplo — diz o diretor do Prezunic Genival Beserra.

Ele acha que trazer de São Paulo ficaria mais caro, e po$derrubar mais ainda os produtores da Região Serrana, que não teriam mercado para o pouco que conseguiram salvar da produção.

Alaídio Gonçalves, gerente-geral do Hortifruti, diz que 100% das hortaliças das suas 21 lojas vêm da Região Serrana. Ele também constata que o que está chegando está com preço bem mais alto. O Pão de Açúcar diz que trará de São Paulo, mas lá também choveu. O Zona Sul não quis falar.

Muitos precisarão de tempo para se recompor. André de Souza Avelar, da UFRJ, especialista em hidrologia e processos erosivos, disse que serão necessários seis meses para recompor o solo perdido e fazê-lo produtivo novamente. E será caro.

O secretário do Desenvolvimento, Julio Bueno, me disse que estão sendo criadas linhas de crédito para socorrer produtores. Mas o que é tão importante na mesa do Rio, que desapareceu das feiras e supermercados, tem um peso até pequeno quando comparado com outros setores produtivos:

— O Valor Adicionado pelo setor agropecuário nestas cidades — Areal, Bom Jardim, Nova Friburgo, Petrópolis, Sumidouro, Teresópolis e São José do Vale do Rio Preto — é R$ 268 milhões. A indústria é R$ 2,1 bilhões e o setor de serviços é R$ 7 bilhões.

Tudo foi violentamente impactado. O setor de turismo se aflige não apenas pelo cancelamento de 100% das reservas nos hotéis, pelo abandono dos restaurantes, mas porque não sabe quando estará de novo em condições de atrair turistas. Em Friburgo, há um forte pólo metal mecânico onde se produz 25% da produção nacional de ferragens e fechaduras. Há produção de água mineral, uma indústria moveleira importante, material elétrico, plásticos, confecções. Tudo está de uma forma ou de outra afetado pela avalanche que passou sobre essa região.

O comércio das três cidades maiores, Petrópolis, Teresópolis e Friburgo, está com uma perda diária de R$ 8 milhões de faturamento, segundo a Fecomércio.

— O impacto é significativo e vai chegar ao mercado de trabalho, porque o momento é de os empresários fazerem as contas da expectativa da demanda — diz João Carlos Gomes, Superintendente de economia e pesquisa da Fecomércio.

Bueno diz que, ao contrário da ideia que se tem de área rica, a região Serrana tem IDH e arrecadação de impostos per capita menores do que os do estado. Até Petrópolis. Os empregos formais, segundo o Ministério do Trabalho, são 161 mil. Segundo a Firjan, o prejuízo foi, só nas indústrias atingidas, de R$ 153 milhões.

— O cenário é de terra arrasada — disse Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, presidente da Firjan.

Será lento e doloroso o caminho da reconstrução econômica da Serra do Rio.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Gestão política desafia Dilma

A primeira semana do governo Dilma revela que os problemas políticos da sua gestão virão dos aliados e não da oposição. Desidratada, sem proposta e ainda atordoada por mais uma derrota, a oposição virou "café com leite" de brincadeira de oposição.

Seu caminho será o de tentar explorar as dissidências de uma base política grande, ideologicamente diversa, programaticamente débil e mal construída. Pelos sinais do início do governo, não faltaram oportunidades para crises.

Repercutiu muito mal dentro da legenda a primeira reunião de Coordenação Política com a presidente. As fotos estampadas nos jornais mostravam a presidente cercada de ministros petistas e nenhum do PMDB. Apenas Michel Temer aparecia na foto. Mas não como representante da legenda, mas como vice-presidente.

O mesmo se deu com a reunião sobre erradicação da pobreza, tema - evidentemente - de natureza estratégica. Lá não estava Moreira Franco, titular da Secretaria de Assuntos Estratégicos.

Além disso, como se sabe, o PMDB não está satisfeito com o espaço que lhe foi reservado na equipe ministerial e deseja obter mais cargos no segundo escalão. Nesse ponto reside a má-construção da coalizão.

Por princípios, sabemos que nenhuma coalizão tende a representar - de forma fidedigna - a sua imagem no ministério. Sempre existem arestas e insatisfações que estão relacionadas à natureza morfológica de nossos partidos.

Porém, na construção de um ministério, o papel do núcleo duro do poder é minimizar as insatisfações e sinalizar que exigirá fidelidade absoluta de quem foi atendido.

A montagem do primeiro ministério Dilma apresenta graves distorções que resultam dos seguintes fatores: diálogo inconsistente entre o PT e o PMDB; visão equivocada de que tudo vai ser resolvido na distribuição de cargos; e de que o tempo cura as feridas.

Isto posto, o que teremos pela frente. De início, a questão do salário mínimo já foi escolhida como campo de retaliação. O deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) ameaça apresentar uma emenda sugerindo o valor de R$ 560 em substituição aos R$ 540 propostos pelo governo.

Vale dizer que o líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), disse que a iniciativa de Cunha não represente uma posição oficial do partido. Porém, todos em Brasília sabem do peso de Cunha nas articulações do partido.

Outra linha de atuação da estratégia de peemedebista pode passar pela escolha do novo presidente da Câmara dos Deputados. Marco Maia (PT) conta com o apoio de Alves (PMDB), da oposição e de alguns outros partidos da base.

Porém, existe o espectro de que Aldo Rabelo (PCdoB) e Sandro Mabel (PR) se lancem na disputa. O favoritismo de Maia parece assegurado. Porém, o clima pode favorecer à novas negociações e novas condições para o apoio a Maia.

O resumo da ópera é o seguinte: o principal parceiro do PT no governo Dilma não está satisfeito e não é um bom sinal para a agenda política e legislativa que se apresenta. Em tempo, considerando o clima, talvez a solução Cunha termine prevalecendo já que a oposição poderá propor R$600 e buscar apoio dos dissidentes para colocar o governo no córner.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Trancos e Barrancos do novo governo, por Vitor Hugo Soares

Ex=Presidente da República na base militar próxima da bela praia paulista de Guarujá - em silêncio, mas provocado praticamente todos os dias por antigos e novos críticos, cada vez mais numerosos, apressados e inclementes nas cobranças. Nada escapa dos olhares curiosos e dos pedidos veementes de "investigação rigorosa", nem as tralhas da mudança da família Lula da Silva.

Enquanto isso, a presidenta Dilma Rousseff vai instalando "aos trancos e barrancos" - como na velha canção popular - o novo-velho circo do poder em Brasília. Em geral, bafejada por opiniões positivas, acenos compreensivos e palavras carinhosas dos mais duros e impiedosos analistas e adversários políticos até a oficialização dos resultados do pleito presidencial de outubro de 2010.

"O poder é isso, sempre foi e sempre será assim", repetem gregos, mineiros e baianos há muito tempo. Ou como sintetizou a nova presidente na sua primeira fala à Nação depois de empossada no Congresso, direto do Parlatório do Palácio do Planalto, depois do temporal no normalmente seco planalto central do país. Em raro momento de brilho misturado com emoção genuína, a mineira e ex-combatente guerrilheira nas lutas contra a ditadura militar, que alcançou pelo voto democrático o posto de mando mais elevado do País, surpreendeu de fato.

No discurso, depois de passar em revista as formações militares sob seu comando, Dilma Rousseff recorreu "a um poeta da minha terra", na verdade o escritor e ex-diplomata Guimarães Rosa, em citação retirada de capítulo notável do romance "Grande Sertão: Veredas".

"O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem", disse a ex-presa política duramente torturada em sua passagem pelo cárcere político.

Belas e bem escolhidas palavras, pronunciadas com voz embargada, sob os olhares atentos e testemunhais de meia centena de líderes políticos estrangeiros - de Hugo Chavez a Hillary Clinton - e aplausos da multidão presente na festa da Esplanada, sem falar nos milhões de brasileiros de olhos e ouvidos ligados nas transmissões das redes de rádio e televisão Brasil afora. Resta saber como a nova presidente honrará de fato durante seu mandato as citações de seu discurso de posse, ou se as deixará à deriva do tempo e do vento.

É cedo ainda para ter respostas, mas é sempre recomendável - principalmente para quem pensa e faz jornalismo -, ficar atento ao movimento dos ventos e das velas. Por exemplo: a volta repentina dos gestos significantemente expressivos da ex-ministra Erenice Guerra, em seus passos aparentemente seguros sobre os tapetes macios e silenciosos do Palácio do Planalto.

Não custa lembrar: depois de pintar e bordar no pedaço - até dedo na cara de ministro ela botou no governo Lula -, Erenice foi afastada do comando da Casa Civil no bojo do maior escândalo da recente disputa presidencial, que abalou severamente os principais pilares em que se sustentava a campanha de Dilma, como reconheceu em entrevista recente à Folha de S. Paulo o publicitário baiano João Santana.

Vale ficar atento igualmente ao conteúdo das entrevistas e discursos notoriamente divergentes quanto a intenções e rumos pretendidos, de antigos e novos integrantes do núcleo mais fechado do poder que se instala em Brasília.

Novo comandante do Gabinete de Segurança Institucional do governo petista - antigo passageiro das hostes do governo tucano do presidente Fernando Henrique Cardoso -, o general José Elito Carvalho Siqueira disse ao tomar posse do cargo que não se deve "ficar vendo situações do passado", ao falar sobre sobre a possibilidade de criação da Comissão da Verdade para investigar a violação de direitos humanos ocorrida durante o período da ditadura militar (1964-1985).

Na manhã do dia seguinte, ao assumir seu posto no governo Dilma, a nova ministra da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Maria do Rosário, defendeu a criação da Comissão da Verdade o mais rápido possível. E foi incisiva na argumentação: "É mais do que chegada a hora do Estado brasileiro prestar esclarecimentos".

Tem mais, muito mais, e como alertava o personagem vivido por Jô Soares na antiga chanchada do cinema nacional do começo dos anos 60: "Vai dar bode!". Por enquanto, porém, fiquemos por aqui neste complicado começo de ano e de governo.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail; vitor_soares1@ terra.com.br

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

No sétimo dia, por M.H Rubinato de Sousa

Hoje é o sétimo dia do governo Dilma Rousseff. Muito cedo para começar a fazer cobranças? Não penso assim. Pelo contrário, acho que ou dona Dilma enfrenta os profissionais da política de imediato – já com atraso de seis dias, ou será engolida e triturada por eles.

Se ela não se convencer que é uma noviça em meio a peritos em consertar relógio até debaixo d’água (e usando luvas de box) – sinto muito, creio que de nada adiantará torcer por ela.

Dona Dilma substitui no Planalto um especialista nessas artes, não é mesmo? Um político profissional há muitas décadas, com um extraordinário talento para toda sorte de piruetas e atrações no Grande Circo Político Brasil, mas que foi enrolado, em seu primeiro mandato, pelos grão-mestres das artes político-circenses.

Se com ele, grande perito, as atrações foram variadíssimas, imagine com uma senhora para quem o picadeiro é novidade?

Ela até que leva jeito, aprendeu durante a campanha algumas cabriolas que muito ajudaram na conquista da vitória.

Infelizmente, parece que também aprendeu a domar o que tinha de melhor: o temperamento decidido, forte, rígido.

Provou que ainda ficou um resquício dessa força ao demonstrar, de pronto, que não gostou das palavras do general que não se envergonha de ter desaparecidos políticos no Brasil. Mas foi tímida ao aceitar a banalíssima desculpa: o general foi mal interpretado!

Chamou a atenção de um general de nosso Exército, mas não chamou a atenção de um general do PT que fez uma declaração que a mim me pareceu uma ameaça tola a todos os brasileiros, e um desaforo com a presidente da República.

Segundo o senhor Gilberto Carvalho, “é melhor a oposição não se alvoroçar, pois nós ainda temos o Pelé no banco!”. Era preciso dizer a esse senhor que a bola não é deles, e nem o campo. A bola agora está até 31 de dezembro de 2014 com Dilma Rousseff e é assim que o Brasil quer jogar o jogo.

Detalhes? Talvez. Mas são esses detalhes que mostram que dona Dilma está custando a segurar as rédeas com mão firme e a fazer ver, aos artistas planaltinos, e ao povo brasileiro, que com ela ninguém vai brincar. Que o comando do Executivo é seu e de mais ninguém.

Por exemplo: o cancelamento, já, de uma aberração. O passaporte diplomático, por mais quatro anos, a dois filhos e um neto do ex-presidente Lula é coisa inteiramente fora de propósito!

Por falar nisso, alguém já procurou saber dos outros passaportes vermelhos em mãos da família Lula da Silva? Noras, netos, genro, agregados? Ou vão querer que eu acredite que só esses três foram aquinhoados com o presentinho?

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

..e agora Luigi.....

sábado, 1 de janeiro de 2011

Dupla Dinamica Afinada2011

Principio e Fim 2011

'O presidente esteve a ponto de se tornar um autoritário'

Entrevista com Chico de Oliveira, professor aposentado de sociologia da USP, ex-fundador do PT---por Malu Delgado e Alberto Bombig

Qual leitura o sr. faz dos oito anos do presidente Lula?

O balanço geral é mediado. Essa história de "nunca antes neste país" é conversa fiada. O País com Lula não está nada acima da média histórica de crescimento da economia brasileira. Nesse quesito, ele vai bem na comparação com o período do Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), em que o PIB (Produto Interno Bruto) foi fraco. O Brasil foi a segunda economia mundial a crescer sustentadamente durante um século. Mas foi um crescimento feito sem nenhuma distribuição de renda. A gestão do presidente Lula não diminuiu desigualdade nenhuma, isso é lenda criada a partir de muita propaganda. O que houve foi uma transferência de renda a partir do governo para os estratos mais pobres. Distribuição ocorre quando existe a mudança da renda de uma classe social para outra. Nesse sentido, não houve nenhum avanço.

O sr. poderia explicar esse conceito de distribuição de renda?
A renda é gerada pelas atividades econômicas, e cada classe social se apropria do tipo de rendimento que ela tem no sistema capitalista. O capitalista se apropria de lucro, os trabalhadores, de salário. O governo de apropria de impostos.

O sr. concorda com os que afirmam que Lula é um mito?
Sim. Qual o maior mito que você conhece?

Não sei, Getúlio Vargas....

Vargas era real, você podia tocar nele. O maior mito é o Cristo. Poucos o viram. Modestamente, alguns historiadores da religião foi Paulo, e não Cristo. Entre o real e a figura, o mito, váras vezes, acaba sendo o real. Dos quatro evangelhos canônicos, apenas Mateus e João conheceram o Cristo, Lucas e Marcos não o conheceram. Então, como acontece em todos os casos, com o Lula o mito é maior do que a realidade. Ele construiu um mito poderoso devido a vários fatores, ent re os quais, conta o muito o fato de ele ser de origem pobre. Até hoje o presidente é considerado um operário, mas não pega em uma ferramenta há 50 anos. Isso o ajuda a fomentar uma figura.

E o Bolsa-Família?
Nós fomos educados na ética cristã, que nos impede de sermos indiferentes à fome. Então, ninguém pode ser contra. Agora, politicamente, o programa diz que o crescimento econômico continua sendo excludente, que é preciso algo por fora do salário para dar condições de vida às pessoas. Outro fator grave é que ele é uma regressão, uma volta à política personalista, baseada no favor, algo ruim da tradição brasileira.

André Singer, cientista político e ex-assessor de Lula na Presidência, compara os anos Lula aos de Roosevelt (presidente dos EUA entre 1933 e 1945 e recuperou a economia daquele país). O senhor concorda?
Respeito muito o André como intelectual. Ele elevou o nível de debate no PT. Mas acho que há um equívoco da parte dele. Lula não pegou o País em uma grave crise. Os anos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) não foram gloriosos, mas não foram de quebradeira, de jeito nenhum. Roosevelt pegou os EUA no fundo da crise. Além disso, o André se esquece de que Roosevelt acabou com o trabalhismo americano. Entre as grandes democracias do mundo, a única na qual os trabalhadores não têm um partido é a dos EUA.

O sr. vê traços autocráticos no presidente Lula?
Montado nessa popularidade, ele exagerou, à beira de se tornar autoritário. Foi além dos limites. Só duas pessoas no século 20 disseram, como ele, que eram a encarnação do povo: Adolf Hitler e Joseph Stalin.

Lula e o PT chegaram ao Planalto fazendo um discurso forte contra a corrupção. O sr. se decepcionou nesse quesito?O poder absoluto corrompe muito. O presidente do Brasil pode nomear muitos cargos. Não há partido que resista a uma coisa dessas. O PT se perdeu no poder, ficou menor do que o presidente e não consegue impor seu programa. Lula e o PT tem um estilo predatório de administrar o Estado e lidar com as finanças públicas.

Lula foi melhor do que Fernando Henrique Cardoso?
Fui muito amigo do Fernando Henrique durante 12 anos e nos afastamos quando ele virou presidente. Fui revê-lo depois que ele deixou Brasília. Sei quem ele é e já fiz essa comparação. Fernando Henrique fez muito mal ao Estado com as privatizações. Ele, com isso, quebrou a capacidade de o Estado regular a economia, quebrou alguns instrumentos construídos com o sacrifício do povo para que o Estado pudesse intervir na economia. Mas tentou avançar institucionalmente, e essa é a grande diferença entre eles. O Lula não tem uma criação institucional . A República não avançou um milímetro com Lula. O que é celebrado na gestão Lula não se transformou em regra. Getúlio Vargas (ditador e presidente do Brasil de 1930 a 1937 e presidente de 1951 a 1954), quando criou as leis trabalhistas, obrigou as empresas a seguirem as regras da nova legalidade, que significavam uma nova hegemonia. A sociedade caminha pela luta de classes dentro dos caminhos que a hegemonia cria. Não ocorreu isso com o governo Lula.

Mas e o aumento do salário mínimo não é um avanço?
Não, é um processo da economia, nada está garantido. Se amanhã a economia der para trás, o salário mínimo que se dane, não é um avanço. O salário mínimo do Juscelino Kubitschek (presidente entre 1956 e 1961) chegou, em valores de hoje, a R$ 1.500, e caiu porque as forças do trabalho não tiveram capacidade de sustentá-lo e porque logo depois viriam os gove rnos militares. Avanços são direitos. Para ficar na história como um estadista, não apenas como um presidente popular, Lula deveria ter transformado, por exemplo, o Bolsa-Família em legislação constitucional. Não fez reformas. O Lula não é um estadista, de jeito nenhum. Ele não é aquele que constrói instituições que significam uma nova hegemonia.

O sr. estava entre os fundadores do PT...
Isso de fundador não faz muita diferença. Muita gente estava na fundação do partido (no colégio Sion, em São Paulo, em 1980) e depois nunca mais apareceu. O que interessa é a militância, e eu fui militante.

Como o sr. acha que a era Lula ficará para a História?
Se os historiadores tiveram juízo, ele será lido como o presidente mais privatizante da História. Ele não é estatizante, isso é falso, uma lenda que a imprensa inventou e que ele usa como arma. Ele é privatizante no sentido de estar criando regras para que poucos grupos controlem a economia brasileira, usando o BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) para isso. Com Lula, nós estamos entrando naquilo que a teoria marxista chamava de capitalismo monopolista de estado, do qual não há volta. Todas as vezes que essas forças crescem, as dos trabalhadores diminuem. É esse país que ele vai legar para a Dilma.

Os bons resultados da economia não dizem nada para o sr?
Juscelino teve as taxas mais altas de crescimento, mas mudou pouco o País institucionalmente. Todas as realizações dele deram para trás porque não existiam instituições para segurar esses êxitos.

Diante da alta popularidade de Lula, o sr. se arrepende de ter saído do PT?
De jeito nenhum. Esse negócio de popularidade é como maré, vai e volta.

As marcas da Era Lula

O fim de 2010 coincide com o fim do governo Lula, mas não necessariamente da Era Lula. O ainda presidente – pelo menos até o final do dia de hoje – pretende ter inaugurado uma nova fase na história do Brasil. Ou por outra, o próprio Brasil.

Segundo ele, em inumeráveis pronunciamentos, o país, até sua eleição, teria sido mero arremedo de nação, sob o domínio de elites perversas. Daí o bordão do “nunca antes neste país”. De fato, Lula estabeleceu alguns padrões sem precedentes na liturgia presidencial, mesmo quando ocupada por governos visceralmente populistas.

Um deles foi exatamente o de achar que, antes dele, ninguém fez nada que prestasse. Anteontem, viu seu nome dado a uma reserva de petróleo, a de Tupi, casualmente a maior do país, pelo presidente da Petrobrás, José Gabrielli, cuja permanência no cargo anunciou, para um governo que já não será o seu. Ou será?

Não é difícil imaginar o que faria o PT se o presidente da Petrobrás do governo FHC – ou de qualquer outro - cometesse tal descalabro, que infringe o artigo 37 da Constituição, que determina a impessoalidade de programas e obras públicas, sem menção a nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal.

Em meio a tantas heterodoxias, Lula celebrou a permanência da crise econômica em países com os quais o Brasil mantém relações diplomáticas plenas, cordiais e históricas. Não se conhece nenhum precedente, recente ou remoto, aqui ou em qualquer parte, de gesto equivalente. Considerou “gostoso” contemplar as dificuldades alheias, citando as dos Estados Unidos, União Europeia e Japão. Nada menos.

Qualquer outro que emitisse tais opiniões provocaria no mínimo um forte constrangimento diplomático. Lula, porém, obteve uma espécie de licença política para dizer o que quiser, sem quaisquer consequências. Tal licença, porém, não decorre de um prestígio adquirido, mas, inversamente, de um descrédito. Ninguém se importa com esses excessos, já que, repetitivos, não significam nada.

Lula diz uma coisa e seu contrário, às vezes no mesmo discurso. Já disse que ensinaria a FHC o papel adequado a um ex-presidente, que seria o de ficar calado e de só abrir a boca quando solicitado. E que, quando deixasse o cargo, botaria um bermudão e iria tomar cerveja com os amigos em São Bernardo.

Nos últimos dias, tem dito exatamente o oposto: que o país “não vai se livrar” dele, que continuará a viajar pelos estados, dizendo a Dilma o que é preciso fazer. Prometeu lutar pela reforma política (sem explicar por que não o fez em oito anos) e que irá desfazer a “farsa” do mensalão, tarefa que, ao que se sabe, cabe ao Supremo Tribunal Federal.

Já chegou mesmo a dizer que nunca foi de esquerda, que sempre foi torneiro-mecânico. Em 2006, ao receber um prêmio de uma revista, disse: "Se você conhece uma pessoa muito idosa esquerdista, é porque está com problemas", o que não o impediu de homenagear o centenário de Oscar Niemeyer.

Explicou que a maturidade o fez deixar de ser de esquerda. Já na campanha de 2010, considerou um avanço o fato de todos os candidatos à Presidência serem de esquerda. Qual o Lula autêntico? É esse mesmo, cujo perfil as circunstâncias (não ele) determinam.

O certo é que nenhum presidente falou tanto. É improvável que tenha havido um só dia dos seus dois mandatos em que não tenha feito discursos ou declarações que o mantivessem nos telejornais. Essa onipresença se, de um lado, contribuiu para sua popularidade, de outro enfraqueceu sua palavra.

Os chefes de Estado habitualmente se manifestam em situações relevantes. Para o varejo, dispõem dos ministros e do porta-voz, cargo, aliás, dos mais secundários na Era Lula. Que o diga Marcelo Baumbach, seu titular, que fez sua estreia e (que me lembre) única aparição nos telejornais por ocasião da demissão de Erenice Guerra da chefia da Casa Civil.

Além do extravagante papel que desempenhou na campanha eleitoral, que antecipou em dois anos, infringindo a lei, Lula pediu ao eleitorado a cabeça de adversários e a extirpação de um partido político, o DEM. Nesse caso específico, fez o pedido em Santa Catarina, que não o atendeu, pois elegeu, em primeiro turno, um governador do DEM, Raimundo Colombo.

Discute-se se existe de fato uma Era Lula, o que pressupõe continuidade não apenas administrativa (já que, desse ponto de vista, estaríamos ainda na Era FHC), mas de estilo e de práticas. Quanto ao estilo, é intransferível. Lula é único e Dilma seu antípoda. Quanto à prática, PT e PMDB não dão sinais de novidade.

Ruy Fabiano é jornalista