terça-feira, 29 de junho de 2010

A vez das menininhas?


Durante a convenção do PRB realizada em Brasília sábado passado, Dilma Rousseff disse que pretende representar da melhor forma possível as mulheres, "a ponto de uma menininha querer se transformar em presidente do Brasil". Sua pretensão foi registrada pelo repórter Chico de Góis, em matéria publicada no dia seguinte por O Globo.

Será que quis apenas alfinetar José Serra, que deseja ser presidente desde criancinha, ou a candidata petista estaria falando sério? Já faz algum tempo que é permitido às mulheres brasileiras quererem concorrer à presidência do país. Roseana Sarney, por exemplo, teve sua candidatura abortada não por ser mulher, mas por outras coisas do jogo político.

Está bem, ainda existem reminiscências machistas no Planalto Central. Afinal, Dilma não chegou a competir, não disputou nem conquistou propriamente a convenção do PT para se candidatar pelo partido. Lula é quem determinou que era o momento propício para o lançamento de uma mulher, escolhida por ele! E estava falado.

Em resumo: quem concedeu a oportunidade, quem indicou e permitiu a candidatura da mulher que no momento está na dianteira, segundo pesquisa do Ibope, é o cara que anuncia nos quatro cantos deste Brasil que ela é ele.

Mas vamos ao assunto deste dia: as menininhas... Marina Silva teria um perfil mais adequado para alimentar o sonho de ser presidente entre as garotinhas brasileiras, cuja maioria pertence às faixas pobre e emergente da população nacional. Foi menina pobre e analfabeta dos seringais da Amazônia. Mesmo assim, de conquista em conquista, formou-se professora de História, entrou para a política e, com brilho próprio, chegou ao Senado e ainda se fez conhecer internacionalmente.

Longe de mim, negar os méritos de Dilma. Porém, para as menininhas, a história de vida da senadora que veio da floresta tem tudo para ser a mais fascinante. Até mesmo a disputa real pela presidência. Ou alguém discorda que a luta mais árdua e ousada é a da candidata verde?

Sobretudo agora, com a Dilma exibindo um visual com grife, criado especialmente para sair bem nas fotos, na tv e na internet. Dentro de um padrão de elegância convencional; adotado quase sempre por executivas de empresas e representantes de governos. Com um objetivo eleitoral alcançado: o de cativar as mulheres de classe média alta.

E as mulheres das classes populares? Ah, mesmo que se identifiquem mais com Marina, na fantasia delas, uma primeira dama deveria aparentar alguma semelhança com as "ricaças" ou as "poderosas" retratadas pela mídia. Com um detalhe. Segundo pesquisas, um dos anseios é poderem consumir cosméticos que as façam se sentir "bonitas".

Daí que com sua espontaneidade, elegância natural e estilo apreciado por uma turma bem resolvida, a candidata do PV pode assustar um pouco. Por quê? Porque o mulherio em geral poderia se sentir ameaçado por uma eventual desvalorização dos produtos de embelezamento (dos pés à cabeça). Afinal, o setor de beleza responde também por grande parte dos empregos e prestação de serviços femininos em indústrias, comércio, salões especializados, spas, clínicas, atendimento domiciliar etc.

Eu sei. O empresário Guilherme Leal, um dos donos da Natura, é o vice de Marina. Só que a maioria das mães das menininhas ainda não sabe.

Ateneia Feijó é jornalista

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Um design ecológico para a democracia


A democracia é seguramente o ideal mais alto que a convivência social historicamente elaborou. O princípio que subjaz à democracia é este:" o que interessa a todos, deve poder ser pensado e decidido por todos".

Ela tem muitas formas, a direta. como é vivida na Suiça, na qual a população toda participa nas decisões via plebiscito.

A representativa, na qual as sociedades mais complexas elegem delegados que, em nome de todos, discutem e tomam decisões. A grande questão atual é que a democracia representativa se mostra incapaz de recolher as forças vivas de uma sociedade complexa, com seus movimentos sociais. Em sociedades de grande desigualdade social, como no Brasil, a democracia representativa assume características de irrealidade, quando não de farsa. A cada quatro ou cinco anos, os cidadãos têm a possibilidade de escolher o seu "ditador" que, uma vez eleito, faz mais a política palaciana do que estabelece uma relação orgânica com as forças sociais.

Há a democracia participativa que significa uma avanço face à representativa. Forças organizadas, como os grandes sindicatos, os movimentos sociais por terra, teto, saúde, educação, direitos humanos, ambientalistas e outros cresceram de tal maneira que se constituiram como base da democracia participativa: o Estado obriga-se a ouvir e a discutir com tais forças as decisões a tomar. Ela está se impondo por todas as partes especialmente na América Latina.

Há ainda a democracia comunitária que é singular dos povos originários da América Latina e pouco conhecida e reconhecida pelos analistas. Ela nasce da estruturação comunitária das culturas originárias, do norte até o sul de Abya Yala, nome indígena para a América Latina. Ela busca realizar o "bem viver" que não é o nosso "viver melhor" que implica que muitos vivam pior. O "bem viver" é a busca permanente do equilíbrio mediante a participação de todos, equilíbrio entre homem e mulher, entre ser humano e natureza, equilíbrio entre a produção e o consumo na perspectiva de uma economia do suficiente e do decente e não da acumulação. O "bem viver" implica uma superação do antropocentrismo: não é só uma harmonia entre os humanos mas com as energias da Terra, do Sol, das montanhas, das águas, das florestas e com Deus. Trata-se de uma democracia sociocósmica, onde todos os elementos são considerados portadores de vida e por isso incluidos na comunidade e com seus direitos respeitados.

Por fim estamos caminhando rumo a uma superdemocracia planetária. Alguns analistas como Jacques Attalli (Uma breve historia do futuro, 2008) imaginam que ela será a alternativa salvadora face a um superconflito que poderá, deixado em livre curso, destruir a humanidade. Esta superdemocracia resultará de uma consciência planetária coletiva que se dá conta da unicidade da família humana e de que o planeta Terra, pequeno, com recursos escassos, superpovoado e ameaçado pelas mudanças climáticas obrigará os povos a estabelecer estratégias e políticas globais para garantir a vida de todos e as condições ecológicas da Terra.

Esta superdemocracia planetária não anula as várias tradições democráticas, fazendo-as complementares. Isso se alcança melhor mediante o bioregionalismo. Trata-se de um novo design ecológico, quer dizer, uma outra forma de organizar a relação com a natureza, a partir dos ecossistemas regionais. Ao contrário da globalização uniformizadora, ele valoriza as diferenças e respeita as singulariedades das bioregiões, com sua cultura local, tornando mais fácil o respeito aos ciclos da natureza e a harmonia com a mãe Terra.

Temos que rezar para que este tipo de democracia triunfe senão ignoramos totalmente para onde seremos levados.

Leonardo Boff é autor do livro Ecologia, Mundialização e Espiritualidade,Record 2008

sábado, 26 de junho de 2010

A VITÓRIA DO CAPITAL-MOTEL-- Por Carlos Chagas

Agora é oficial, por informação do Banco Central: o capital-motel que entra no Brasil é o dobro do capital que vem colaborar com o nosso desenvolvimento. Quer dizer: o especulador lá de fora envia seus milhões ou bilhões de tarde, passa a noite e vai embora de manhã depois de haver estuprado um pouquinho mais nossa economia. É remunerado com os juros mais altos do planeta, não cria um emprego nem forja um parafuso comprando e vendendo títulos do governo. E não paga imposto de renda.

Foi o sociólogo que criou essa vigarice, a pretexto de abrir o país para o neoliberalismo. O Lula não fez nada, aconselhado por Henrique Meirelles e companhia. Bem que poderia ter imitado o Chile conservador, onde o capital estrangeiro é obrigado a permanecer pelo menos um ano para poder, depois, retirar-se com os devidos lucros.


Os gringos avançam não apenas na floresta amazônica. Refestelam-se na nossa economia e sorriem de banda quando ouvem dizer que estamos crescendo como nunca. Claro: crescemos para eles especularem cada vez mais.

Dilma Rousseff, se eleita, carecerá de condições para mudar a política econômica herdada dos tempos de Fernando Henrique. José Serra, por sua vez, protesta contra os juros altos, mas silencia diante da lambança do capital-motel. Marina Silva dá de ombros, desde que o meio ambiente não saia prejudicado. Por mais estranho que pareça, o único candidato que se dispõe a fechar a caverna do Ali Babá é Plínio de Arruda Sampaio, que a imensa maioria do eleitorado nem sabe quem é.

PELO MENOS PROTESTOU
Irritou-se o presidente Lula no eixo Altamira-Marabá com a manifestação de ONGs estrangeiras contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte. Mandou os gringos cuidarem da própria vida, parando de protestar contra o que seria a dilapidação da floresta amazônica, “porque dela cuidamos nós”.

Ponto para o primeiro-companheiro, não fosse o marasmo e até a conivência do governo diante da interferência dessas organizações postas a serviço de interesses econômicos e políticos. Porque desde sua posse, em 2003, que o Lula vem sendo alertado para a intromissão externa verificada através das ONGs e não fez nada. Existem até reservas indígenas onde brasileiro não entra sem licença dos gringos.

A FARSA ELEITORAL
Aproxima-se o 5 de julho, prazo fatal para os partidos registrarem seus candidatos, desde os presidenciais aos que disputarão os governos estaduais, o Congresso e as Assembléias Legislativas. Pela legislação eleitoral, apenas a partir daquele dia eles serão chamados de candidatos e poderão iniciar suas campanhas...

Farsa igual poucas vezes se tem visto. O que fazem há meses, até anos, Dilma Rousseff, José Serra e os milhares de outros pretendentes a receber o nosso voto? Aqui e ali a Justiça multa aqueles que exageram, mas se fosse para aplicar de verdade a lei, melhor fariam os tribunais eleitorais se cercassem o país com arame farpado e decretassem estar todo mundo preso.

Ano que vem, com o novo Congresso, fatalmente ressurgirá a proposta da reforma política. Quem sabe para mais uma vez ser esquecida, mas valeria à pena um deputado de primeiro mandato, ainda iludido, apresentar projeto revogando toda a legislação eleitoral e mantendo apenas a proibição de uso de dinheiro público nas campanhas.

SERVIÇO PELA METADE
Dilma Rousseff e José Serra cancelaram a ida a Caruaru, para a maior festa de São João do país. Agiram assim em função da tragédia que assola Pernambuco, com as enchentes. Fizeram bem, a hora não é para festejar nada. Perderam os candidatos, porém, oportunidade para solidarizar-se com as vítimas, percorrendo algumas das cidades semi-destruídas. Passaram ao largo por temor de sofrer a crítica de buscar votos em meio à desgraça alheia, mas se tivessem ido seriam muito bem compreendidos pela maioria. Em especial de tivessem posto seus aviões particulares a serviço dos necessitados. O diabo nessas situações é que ninguém admite ter sua imagem ligada a tragédias

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Para Marina, sua candidatura quebrou estratégia de Lula

BELO HORIZONTE - A candidata do PV à Presidência da República, Marina Silva, disse hoje que sua candidatura já foi capaz de revogar a estratégia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de estabelecer uma disputa plebiscitária entre petistas e tucanos. "Já furamos o plebiscito", afirmou. Seu comentário foi feito um dia depois de divulgada a pesquisa CNI/Ibope, na qual aparece com 9% das intenções de voto. Na pesquisa, pela primeira vez, Dilma Rousseff (PT) está à frente de José Serra (PSDB) - 40% contra 35% do tucano.

"Não tenho dúvidas de que a sociedade brasileira, até mesmo com essas pesquisas, já sinalizou que está revogando o plebiscito." Segundo ela, a sociedade "não comprou a tese de uma eleição polarizada" entre "oposição e uma tentativa de continuidade sem crítica do processo atual, do governo atual." A candidata do PV esteve em Belo Horizonte nesta quinta-feira para participar da convenção que oficializou a candidatura do deputado federal José Fernando Aparecido (PV-MG) ao governo de Minas Gerais.

Ao comentar o apoio dado durante 30 anos para fazer Lula presidente do Brasil, Marina disse que reconhece os feitos, mas não tem uma visão de complacência com o atual governo. "Quando você tem uma visão de respeito com os feitos, reconhece os feitos, mas não tem uma visão de complacência, você se coloca no sucessor, não apenas do continuador cego que, muitas vezes, é complacente com os erros."

Lembrando que começou a corrida eleitoral com 3%, a presidenciável também foi irônica ao comentar os constantes questionamentos de que sua candidatura estaria estacionada. "Tomara que eu estacione em 51%, que é para ganhar já no primeiro turno", disse. "As pessoas não querem ver que nós estamos progressivamente avançando nesse processo." Apesar do discurso otimista, Marina admitiu que está em desvantagem, ao afirmar que Serra é candidato desde que perdeu a eleição presidencial de 2002 e Dilma tem o presidente Lula no "papel de seu general eleitoral já há quase três anos".

Em relação à pesquisa CNI/Ibope, Marina ainda citou como positivo o aumento do porcentual de eleitores propensos a votar no PV, de 27% para 36%. Segundo ela, o voto será definido a partir de três aspectos: trajetória dos candidatos, compromisso de cada um em integrar e manter os avanços e ao mesmo tempo corrigir os erros e apontar para os novos desafios.

Dissidentes
Acompanhada de cerca de 100 apoiadores, a presidenciável do PV participou de uma caminhada pelo centro de Belo Horizonte até o Café Nice, tradicional ponto de peregrinação de políticos em campanha. O vice-presidente do PV, Alfredo Sirkis, prometeu enquadrar os dissidentes mineiros, já que maior parte da bancada estadual e boa parte da federal não aderiu à campanha de José Fernando e promete apoio ao pré-candidato tucano, o governador Antonio Anastasia. "Não há hipótese de deixar de haver sanção para quem não respeite as decisões tomadas pela convenção nacional e pela convenção em Minas Gerais", disse.

Marina, por sua vez, desdenhou das defecções. "Minha candidatura está forte porque ela é muito maior do que o Partido Verde." Ela anunciou que a ex-deputada federal e ex-presidente do PT-MG, Sandra Starling - que deixou o partido recentemente, insatisfeita com a condução do processo que levou à escolha de Hélio Costa (PMDB) como candidato da base aliada -, terá um "papel fundamental" em sua campanha, coordenando seu comitê suprapartidário em Minas.

Dossiês
Questionada, a candidata condenou o que chamou de guerra de "dossiês". "Essa guerra de dossiê para cá, dossiê para lá, isso não fortalece o processo democrático. Pode demonstrar a nossa imaturidade política para fazer o debate como o Brasil precisa que seja feito dos temas relevantes da sociedade."

O candidato a vice em sua chapa, Guilherme Leal, comentou o requerimento do PSDB para convidar o secretário da Receita Federal, Otacílio Cartaxo, para depor na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. O autor do pedido, senador Álvaro Dias, cita também o vazamento de informações sobre processos que a Receita move contra a Natura.

Leal tratou o caso como "pseudo vazamento". "Entendemos ter nada a esconder e lastimamos se de fato houve vazamento", afirmou. "Não lançaremos mão jamais desse tipo de procedimento e esperamos que os demais competidores, os demais candidatos evitem também esse tipo de comportamento."

Nordeste
A candidata do PV fez críticas diretas à ação do governo federal na tragédia das chuvas, que deixou dezenas de mortos no Nordeste. "As autoridades continuam tratando isso como fenômenos naturais", afirmou a ex-ministra do Meio Ambiente. Ela rebateu a declaração da candidata do PT, que atribuiu os problemas à carência histórica de uma política habitacional antes do governo Lula.

"Estamos pautando o tema da segurança ambiental. Não é por falta de programa habitacional pura e simples. Essa é uma das questões. É por falta de uma visão que considere os eventos extremos como parte de uma questão ambiental e de uma mudança climática."
Eduardo Kattah, n'O Estado de S.Paulo

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Os perdedores do novo milagre brasileiro


Cada vez que se inventa um milagre econômico, joga-se para baixo do tapete a historia dos perdedores – e sempre há perdedores. Nos “anos de chumbo”, ninguém viu sequer as migalhas do bolo prometido por Delfim Neto, que convive com o poder ate hoje. E agora, que crescemos a taxas chinesas, também há perdedores - mas estes já conhecem a derrota há 500 anos. São os indígenas, inclusive dos países limítrofes, que sofrem todo tipo de violência por viverem em terras onde o Estado brasileiro em aliança com grandes grupos econômicos nacionais e internacionais espertamente ressuscita o mito do Brasil Potência. Constrói hidrelétricas superdimensionadas, expande sem limites a cana para alimentar de álcool os carros que inviabilizam as cidades e faz monocultura de eucalipto para produzir celulose apenas para o mercado externo, criando um deserto verde de arvores geneticamente modificadas que mata a diversidade biológica e os recursos hídricos.

A volúpia com que se avança sobre as terras indígenas é tal, que nem parece que elas e seus donos são protegidos por leis nacionais e internacionais. Importa aos governantes e seus sócio apenas, fazer constar na imprensa a inauguração de obras cada vez maiores e que custam sempre mais do que os calculos iniciais.

Nesse cenário, o Estado e os capitais privados, nacionais ou não, têm os mesmos interesses. E, para alcança-los, fazem qualquer negocio. Acusam os índios em vilões de bloquear o ‘ desenvolvimento’.

Afinal, a ponta do modelo produtivo se encontra no meio rural, muitas vezes em áreas densamente florestadas, onde quase sempre há terras indígenas, o que lhes colocaria numa posicao de 'inimigos' do mito do Brasil Potência.

Isso ocorre porque a atual fase do capitalismo, dita financeira, não se realiza sem uma base concreta, a terra, onde são produzidos os insumos – energia, minerais, alimentos – que alimentam os mercados especulativos internacionais. Quem se opõe a este tipo de exploração de alta intensidade vira inimigo e, na visão do Estado e seus sócios privados, deve ser exterminado.

E' esse o pano de fundo da violência contra indigenas, que tem caracteristicas especificas dramaticas. No Para, os caiapós do alto do rio Xingu há meses se preparam para morrer, na medida em que vai saindo do papel a megahidreletrica Belo Monte.O governo subsidia sua construcao através das tetas abertas do BNDES. Mas, no futuro, segundo os contratos assinados, a usina pertencera a multinacionais privadas do Brasil e do exterior.

No Mato Grosso do Sul, os guarani caiuá partem para o suicídio, expulsos que são pelo avanço sobre suas terras da cana estimulada e subsidiada pelo governo federal.

No Espírito Santo, os tupiniquins e guaranis morrem na disputa com as maiores indústrias mundiais de fibra curta de celulose - alias, produzidas por arvores transigências, que secam os lencois freaticos e arrasam aquele territorio que já foi o mais rico no Brasil em termos de espécies animais e vegetais da floresta atlântica.

Em Rondônia e no Acre, indígenas de varias etnias são obrigadas a se prostituir para gerentes, engenheiros e operarios das hidrelétricas Jirau eSanto Antonio, obras que vão barrar o rio Madeira (RO).

O modelo brasileiro de intensa exploração de recursos naturais para venda ao exterior já vai sendo, inclusive, exportado. Em 16 de junho, Lula e Alan Garcia , presidente do Peru, assinaram acordo energético para construir no pais vizinho um numero de hidrelétricas (que vai prejudicar os ashaninka) ainda incerto, mas que já tem seu custo estimado entre 13,5 bilhões e 16 bilhões de dólares. A energia será exportada para o Brasil por 30 anos, por aquela turma de sempre: BNDES, Eletrobrás, OAS, Camargo Corrê, Odebrecht. Tutti buona giente...

Mas, quem se importa com tudo isso? Quem escreve a historia não são os vencedores?

Carlos Tautz é jornalista

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Serra e o ‘certo arranjo que não funciona’ de Elio Gaspari

Durante sua sabatina na "Folha de S.Paulo", José Serra voltou a enunciar sua crítica à política econômica do governo Lula (inclusive naquilo que ela tem de continuação do mandarinato tucano, no qual foi ministro): "O Brasil tem três ou quatro recordes de que eu me envergonho. As altas taxas de juros e impostos, a ‘lanterninha’ nos investimentos governamentais e a maior hipervalorização da moeda no mundo. Tem um certo arranjo aí que não funciona, e que eu me proponho a consertar."

Enunciado desse jeito, move poucos votos, mas significa o seguinte: com a taxa de juros a 10,25% ao ano, o Brasil continua a ser o país do mundo onde mais se ganha dinheiro sem precisar trabalhar, emprestando-o ao governo. Esse mesmo país tem uma das cargas tributárias mais altas do mundo (35% do PIB, pouco abaixo do patamar de 36,45% deixado pelo tucanato em 2003).

Em português de campanha: o Brasil é um dos países onde mais se trabalha para sustentar o governo que, por sua vez, melhor remunera seus gordos credores. De uma lista de 135 países, o Estado brasileiro, que tanto arrecada, disputa com o Turcomenistão a menor taxa de investimento do mundo.

Finalmente, o real sobrevalorizado barateia as compras em Miami, mas dificulta as exportações. Serra repetiu que o Brasil exporta celulose e importa papel. A taxa de investimento global da economia tem melhorado, mas ainda está abaixo da russa, indiana ou chinesa. "Tem um certo arranjo aí que não funciona."

O candidato do PSDB já disse que essa não é uma divergência entre governo e oposição, mas questão de Estado. Nem na Suíça a linha divisória de uma campanha pode passar por temas tão arcanos, mas, de fato, o arranjo não funciona. Os conselheiros do ex-ministro Antonio Palocci sabem disso, Lula acha que esse problema pode ficar para depois, até porque o curto-circuito só ocorrerá se alguém encostar os fios desencapados e nem na crise de 2008, a da "marolinha", isso aconteceu.

Um dia esse arranjo para de funcionar, por conta de fatores externos ou mesmo internos. Nos anos 70, quando o Brasil festejava o milagre econômico que acarpetou o asfalto natalino da Rua Augusta e deu a Lula o seu primeiro carro, pouca gente prestava atenção em números estranhos. Entre 1970 e 1973, a produção de bens de consumo duráveis, como geladeiras e aparelhos de TV a cores, praticamente triplicara.

Já a produção de bens intermediários, como parafusos, lingotes e mercadorias capazes de atrair novas levas de trabalhadores, crescera apenas 45%. E daí, se dá para empurrar com a barriga? Era o prenúncio de uma pressão inflacionária que, associada a duas crises do petróleo, destruiriam a ditadura e infelicitariam a primeira década da redemocratização.

Nosso Guia já avacalhou um Congresso que recebeu avacalhado, entronizou as centrais sindicais como um poder paralelo e, finalmente, vem dando um toque carnavalesco à sua sucessão.

Num clima de festa, preocupações como as de Serra merecem pouca atenção. Afinal, pode-se empurrar o arranjo com a barriga. Uma coisa é deixar o debate para depois, sinal de astúcia política ou oportunismo eleitoral. Outra é achar que esse "certo arranjo" funciona.

Espertissima jogada chinesa


O anúncio da China, uma semana antes da reunião do G-20, de que vai tornar mais flexível sua política cambial foi bem recebido ontem pelo mercado, inicialmente. As avaliações são de que o Brasil pode ser um dos beneficiados pelo efeito favorável nas commodities. A nova política tem a cara da velha, que foi adotada entre 2005 a 2008, e que recuperou um pouco o valor da moeda chinesa.

O yuan desvalorizado artificialmente é um fator perturbador na economia internacional. Ele torna mais competitivos os produtos chineses, desequilibra o comércio, provoca inúmeras distorções. Mas ninguém acha que o anúncio chinês seja o início de uma mudança para valer. Alguns analistas acham que foi só uma jogada de marketing para sair do centro das discussões do G-20, outros acham que mesmo sendo suave a mudança será benéfica.

No seu blog, a economista Monica Baumgarten de Bolle, da Galanto Consultoria, diz que comparado com outros países que saíram de câmbio fixo para uma valorização da moeda, o comportamento cauteloso da China não é muito diferente dos outros. Entre 2005 e 2008, quando teve um câmbio mais flexível, a China valorizou sua moeda em cerca de 7% ao ano. Ao todo, em pouco mais de 20%. Em 2008, voltou bruscamente à política anterior de preço do yuan praticamente fixo em relação ao dólar e a valorização foi interrompida, como se pode ver no gráfico abaixo.

Com o yuan mais fraco, as exportações chinesas ganham competitividade, mas a política cambial é uma distorção num mundo de câmbio flutuante e diante da situação chinesa de grande receptora de capital, grande exportadora. Com uma política cambial um pouco menos controladora, a moeda já teria ganhado valor diante do dólar. A China vai agora adotar uma cesta de moedas em vez do dólar para controlar sua taxa de câmbio, mas continua com uma política tão misteriosa quanto sempre foi, já que não se sabe a composição da cesta.


Será que essa vai ser uma mudança significativa? Em que vai impactar o mercado? Inicialmente, o mercado reagiu com euforia e depois passou a ver com menos entusiasmo e de forma mais setorial. As bolsas americanas que começaram o dia em alta terminaram no vermelho. Pela manhã, os investidores estavam confiantes de que a valorização da moeda chinesa iria ajudar o comércio mundial. À tarde, a análise já era outra, mais minuciosa, com as ações das empresas de tecnologia em queda porque a importação de componentes eletrônicos chineses ficará mais cara. O Dow Jones fechou em -0,08%; Nasdaq, -0,90%; e o S&P, -0,39%. No Brasil, o índice Ibovespa depois de subir 1,65% na abertura do pregão perdeu fôlego e fechou em alta de 0,60%.

— A alta no Brasil foi sustentada pelas empresas ligadas a commodities e mineração, que devem ser beneficiadas pelo yuan mais forte. Se tirássemos a influência dessas empresas, o índice Ibovespa também fecharia no vermelho, assim como as bolsas americanas — explicou Rodrigo Moliterno, analista de investimentos da corretora Fator.

As ações da Vale subiram 2,9%; Usiminas, 0,94%; CSN, 1,26%; Gerdau, 1,15%. O índice de commodities CRB fechou com valorização de 0,76 ponto percentual.

Como disse o presidente do Banco Central brasileiro, Henrique Meirelles, é melhor esperar o desenrolar dos acontecimentos, já que com a China tudo é sempre muito pouco transparente. No atual contexto cambial, a ligação do yuan a uma cesta de moedas pode acabar levando a menos valorização diante do dólar porque o euro tem perdido força diante da moeda americana. Da perspectiva da China, é um bom momento para introduzir a mudança. A consultoria RGE, do economista Nouriel Roubini, acha que a moeda chinesa terá uma alta de 3% a 4% diante do dólar no próximo ano. É difícil saber em quanto uma mudança assim lenta ajudará o rebalanceamento do comércio global. Do ponto de vista político, pode acalmar alguns ácidos críticos da política cambial chinesa dentro do Congresso americano nesta conjuntura de eleição de meio de mandato e vai tirar essa questão do centro da mesa da próxima reunião do G-20, em Toronto.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Marcha funebre....



DEPUTADO DOMINGOS DUTRA

O deputado Domingos Dutra (PT-MA) segue em greve de fome no plenário da Câmara dos Deputados. Ele protesta contra a decisão do diretório nacional do partido de retirar o apoio da legenda a Flávio Dino (PCdoB) e apoiar Roseana Sarney (PMDB) para o governo do Maranhão. O parlamentar, que está sem comer desde sexta (11), disse que o PT “se transformou em sublegenda do PMDB” e informou que estuda uma medida jurídica para tentar rever a posição no Maranhão. Segundo os médicos da Casa, o estado de saúde de Dutra é estável

domingo, 13 de junho de 2010

Cartão milionário, (mensal) por conta dos "otario"....


O governo Lula conseguiu torrar quase R$ 6 milhões com cartões corporativos em maio. O total gasto em 2010 subiu para mais de R$ 22 milhões.
Só a Presidência é responsável por R$ 6,33 milhões, dos quais mais da metade é classificada como “gastos sigilosos”.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

“Manda quem pode, obedece quem tem juízo”, SANDRA STARLING


Ao tempo em que lutávamos para fundar o PT e apoiar o sindicalismo ainda “autêntico” pelo Brasil afora, aprendi a expressão, que intitula este artigo. Era repetida a boca pequena pela peãozada, nas portas de fábricas ou em reuniões, quase clandestinas, para designar a opressão que pesava sobre eles dentro das empresas.

Tantos anos mais tarde e vejo a mesma frase estampada em um blog jornalístico como conselho aos petistas diante da decisão tomada pela Direção Nacional, sob o patrocínio de Lula e sua candidata, para impor uma chapa comum PMDB/PT nas eleições deste ano em Minas Gerais.

É com o coração partido e lágrimas nos olhos que repudio essa frase e ouso afirmar que, talvez, eu não tenha mesmo juízo, mas não me curvarei à imposição de quem quer que seja dentro daquele que foi meu partido desde sempre.

Ajudei a fundá-lo, com muito sacrifício pessoal; tive a honra de ser a sua primeira candidata ao governo de Minas Gerais em 1982. Lá se vão 28 anos! Tudo era alegria, coragem, audácia para aquele amontoado de gente de todo jeito: pobres, remediados, intelectuais, trabalhadores rurais, operários, desempregados, professores, estudantes.

Íamos de casa em casa tentando convencer as pessoas a se filiarem a um partido que nascia sem dono, “de baixo para cima”, dando “vez e voz” aos trabalhadores. Nossa crença abrigava a coragem de ser inocente e proclamar nossa pureza diante da política tradicional.

Vendíamos estrelinhas de plástico para não receber doações empresariais. Pedíamos que todos contribuíssem espontaneamente para um partido que nascia para não devermos nada aos tubarões.

Em Minas, tivemos a ousadia de lançar uma mulher para candidata ao governo e um negro, operário, como candidato ao Senado. E em Minas (antes, como talvez agora) jogava-se a partida decisiva para os rumos do país naquela época. Ali se forjava a transição pactuada, que segue sendo pacto para transição alguma.

Recordo tudo isso apenas para compartilhar as imagens que rondam minha tristeza. Não sou daqueles que pensam que, antes, éramos perfeitos.

Reconheço erros e me dispus inúmeras vezes a superá-los. Isso me fez ficar no partido depois de experiências dolorosas que culminaram com a necessidade de me defender de uma absurda insinuação de falsidade ideológica, partida da língua de um aloprado que a usou, sem sucesso, como espada para me caluniar.

Pensei que ficaria no PT até meu último dia de vida. Mas não aceito fazer parte de uma farsa: participei de uma prévia para escolher um candidato petista ao governo, sem que se colocasse a hipótese de aliança com o PMDB. Prevalece, agora, a vontade dos de cima.

Trocando em miúdos, vejo que é hora de, mais uma vez, parafrasear Chico Buarque: “Eu bato o portão sem fazer alarde. Eu levo a carteira de identidade. Uma saideira, muita saudade. E a leve impressão de que já vou tarde”
Sandra Starling é fundadora do PT, entre muitos outros que ja "cairam fora".
tem 66 anos de idade - 32 dos quais dedicados ao PT.

"'É lamentável que o PT acabe refém de uma pessoa, que é o Lula. [Ele] Tem os seus méritos, mas todo mundo tem algum mérito; virou caudilho no partido, manda, desmanda, decide, todo mundo obedece. Não dá!", desabafou em entrevista à Folha Online.

TSE: Ficha Limpa vale para as eleições de outubro 2010

Os ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiram, por maioria, que a Lei Ficha Limpa vale para as próximas eleições de outubro.

Comentario meu: sera que essa Lei "pega"??!!

Votaram a favor: Hamilton Carvalhido (relator), Ricardo Lewandowski (presidente), Cármen Lúcia (vice-presidente), Arnaldo Versiani, Aldir Passarinho Junior e Marcelo Ribeiro.

Votou contra apenas o ministro Marco Aurélio Mello.

O julgamento foi feito com base em uma consulta apresentada ao Tribunal pelo senador Arthur Virgílio (PSDB-AM).

No documento, Virgílio questiona se uma Lei Eleitoral - que trate sobre inelegibilidades e que passe a entrar em vigor antes do dia 5 de julho -, pode ser efetivamente aplicada para as eleições de 2010.

A data 5 de julho é citada na consulta pelo senador por ser o prazo limite para o registro de candidaturas.

A Lei Ficha Limpa foi sancionada por Lula na última sexta-feira (4) após passar pelo Congresso Nacional.

Apesar da aprovação pela maioria do plenário, o ministro Marcelo Ribeiro acredita que a questão sobre a constitucionalidade da Lei deverá ser julgada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

“Não sou muito partidário que o TSE responda esse tipo de consulta, se ela é ou não constitucional. Esse assunto é para o Supremo. Vai parar lá”, afirmou durante o julgamento.

Confira os principais pontos da Lei:

1) Impede a candidatura de políticos condenados por órgão colegiado (mais de um juiz). Neste caso, a pessoa condenada ainda pode apresentar recurso a uma instância superior para suspender a inelegibilidade.

Por exemplo: se um deputado for condenado no Tribunal Regional Eleitoral (TRE), ele pode pedir ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a suspensão da inelegibilidade. Após o julgamento dessa suspensão, o colegiado julgará a conduta que gerou o processo.

2) Fica inelegível aqueles que cometerem crimes como: corrupção e gasto ilícito de campanha; doação ilícita e/ou compra de votos; crimes ambientais graves e contra a saúde pública; abuso de autoridade; racismo;tortura; terrorismo; hediondos entre outros.

3) Fica inelegível o parlamentar que renunciar ao mandato para evitar o julgamento por quebra de decoro.

4) Aumenta de três para oito anos o período de inelegibilidade.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

MG: fundadora chama PT de ‘farsa’ e decide abandonar o partido




SANDRA STARLING
Fundadora do PT, Sandra Starling abandonou nesta quarta (9) o partido pela “imposição” do nome de Hélio Costa (PMDB) como candidato da aliança com o PMDB ao governo de Minas Gerais. Em artigo publicado no jornal O Tempo, Starling lembra que a convenção do PT tinha decidido pelo nome de Fernando Pimentel e não pela “imposição do PMDB”. Starling disse que está “decepcionada” com o partido e concluiu: “pensei que ficaria no PT até meu último dia de vida. Mas não aceito fazer parte de uma farsa

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Ex-petista, teólogo será estrela de festa do PV

Leonardo Boff diz que Marina é "o Lula melhorado" e seria eleita no 1º turno pelo PT, por Bernardo Mello Franco (Fôlha):

Aliado de Lula em suas cinco campanhas presidenciais, o teólogo Leonardo Boff será a estrela da festa de lançamento da candidatura de Marina Silva (PV) ao Planalto, amanhã, em Brasília.

Ele subirá ao palanque com uma mensagem incômoda ao PT: defenderá que a senadora, e não a petista Dilma Rousseff, é a sucessora natural do presidente.

"A Marina é o Lula melhorado. Tem a mesma origem popular, mas soube pôr o foco na questão ambiental junto com a social", disse à Folha de Petrópolis (RJ), onde vive, por telefone.

Símbolo da Teologia da Libertação, uma das raízes do PT, Boff defenderá o voto na senadora como opção de continuidade ao petismo.

"Não me sinto distanciado do Lula, porque acho que a sucessora natural dele seria a Marina. Acho triste que ela tenha deixado o PT. Se fosse candidata do partido, venceria no primeiro turno", disse.

"Dilma é ligada a projetos importantes, mas não existe nela a dimensão de um conhecimento que seja ligado a questões tão diversas como as que temos hoje. Apoio Marina por imperativo ético.
Comentario meu--Falou e disse! Ha outros nas mesmas circunstâncias e postura.

Deeds speak louder than words....

Questão de classe, por Ateneia Feijó

No meu tempo de criança, quando morava no charmoso bairro Santa Tereza, no Rio, as classes sociais eram praticamente seis: de miseráveis, muito pobres, pobres, classe média, ricos e milionários. Eu pertencia à classe pobre. Ou como se dizia, de uma família simples: não passava fome, morava com dignidade, mas meus pais só tinham instrução primária.

Os muito pobres comiam pouco e moravam mal. E a classe média? Naquela época era formada por gente "classuda": casa bonita, mesa farta e sortida; que se vestia bem, tinha cultura e diploma. Já os ricos tinham tudo isso e muito dinheiro. Os milionários ninguém os via; em geral viviam viajando e em festas. Os que mais se expunham eram os miseráveis, mendigando com os filhos sem escola.

Ia me esquecendo, havia também a classe dos novos-ricos ou "endinheirados sem pedigree". Mas estou a falar apenas com base em registros de memória. Sobre um passado totalmente analógico, no qual ainda nem existia a parafernália de aparelhos eletrodomésticos e variedade nos modelos de automóveis. Na verdade, o conceito de classes era outro. Porém, havia uma coisa que me lembro bem. Não se associava criminalidade à pobreza.

Com a mobilidade social, a classe média se subdividiu em baixa, média-média e alta. Teve quem subiu e quem desceu. Agora, surgiram as letras: A, B, C, D, E... Um movimento requebrado, tipicamente brasileiro. Aqui não existem castas como as indianas; tampouco organizações de nobreza e fidalguias ao gosto europeu. Daí porque considero nossa organização social uma saborosa salada divinamente temperada com a miscigenação.

Domingo, 6 de junho, O Globo publicou mais uma reportagem da série O x da questão: "Até Beira-Mar já foi apenas Fernandinho. Dos 23 alunos que estudaram juntos há mais de 30 anos numa escola pública em Caxias, apenas o traficante optou pela vida no crime." Ótima a reportagem assinada por Antônio Werneck.

Ao mostrar os desafios da educação em áreas de risco, o jornal denuncia também o preconceito atual da sociedade abastada contra as comunidades carentes. Afinal, por que os colegas de escola pública, de 30 anos atrás, do bandido mais famoso do país optariam pela vida no crime? E se Fernandinho, que era bom aluno, tivesse estudado num colégio privado de uma outra classe social? Alguém perguntaria por seus coleguinhas de infância? Dificilmente.

É didático saber que os coleguinhas de infância do traficante mais famoso do Rio superaram adversidades. Provavelmente, passaram a personificar a mobilidade social no país. Entre as crianças que, de 1975 a 1978, estudavam na mesma classe escolar do bandido, em 2010 tem a que trabalha como cabeleireira, mecânico de manutenção de aviões, policial militar, motorista, professora universitária, suboficial da Aeronáutica, marceneiro, vendedor...

Hoje a maioria dessas crianças deve estar na emergente classe C. Uma nova classe média brasileira, que nada tem a ver com a "velha classuda". Por enquanto, a "jovem emergente" parece não se importar com qualidade nem tradição, no que diz respeito a consumo. Interessa-se simplesmente por tudo ao alcance de seus cartões de crédito.

É flagrante a alegria dessa classe C vendo-se incluída nas ofertas comerciais; passando a fazer parte de estatísticas como consumidora. Algo errado? Pagar pra ver... Essa nova faixa social só não pode abrir mão de uma exigência fundamental: acesso à educação qualificada.

Ateneia Feijó é jornalista

terça-feira, 8 de junho de 2010

O legado do tempo; n'O GLOBO, por Miriam Leitão

O presidente Lula rejeitou o exemplo de Hugo Chávez de perseguir mandatos sucessivos e seguiu o modelo Álvaro Uribe que aceitou a ordem da Suprema Corte de que um terceiro mandato era inconstitucional. Melhor: nem esperou a Justiça. Mesmo assim, Lula corre risco de perder esse ponto positivo em sua biografia política desrespeitando tão abusivamente as leis eleitorais.

Lula se equivoca quando pensa que a medida do sucesso do seu governo será a capacidade de eleger seu sucessor. Isso nem sempre prova alguma coisa. Só o tempo decantará o que há de marketing nessa avaliação positiva para traçar o retrato definitivo que ficará do presidente na História. Ter feito o sucessor não está entre requisitos do bom julgamento. Até Paulo Maluf elegeu seu sucessor. Isso não fez diferença em sua desastrosa biografia política.

Lula será avaliado no futuro pelo que fez ou deixou de fazer. No seu caso, algumas coisas que deixou de fazer serão parte integrante da sua lista de méritos. Seu programa continha promessas capazes de incinerar avanços duramente conquistados nos anos anteriores, como a normalização das relações com a comunidade financeira internacional, a estabilização, a abertura comercial. Como já é História, ele não fez o que prometeu — e que sugeriam vários dos economistas do seu grupo político — e assim acertou.

Mas certamente pesará contra ele o comportamento abusivo de uso da máquina governamental e o descumprimento das leis eleitorais que ele tem praticado nos últimos meses. É um desrespeito à Presidência e ao Judiciário que ele esteja usando o governo, em suas várias instâncias, para afrontar a Justiça Eleitoral e as normas desse período de campanha.

Em pleno comício no ABC, dias atrás, Lula disse que ele tem que dar exemplo, por isso não faria campanha, quando já estava fazendo o que negava fazer. Prometeu voltar no segundo semestre para fazer campanha na porta de fábrica. Se ele pudesse se despir da Presidência, poderia fazê-lo. Ou até o mais básico, se ele pagasse os custos das suas viagens político-eleitorais já seria um pouco melhor, mas quem paga para ele desrespeitar a lei eleitoral são os contribuintes brasileiros.

Até agora o país está vivendo uma situação em que o crime compensa. O TSE dá suas sentenças e elas são ignoradas. No pior dos casos, o TSE postergou tanto a pena para o PT que ela recairá em 2011, quando já não fará mais diferença no atual pleito. O tribunal tem dado sinais de perigosa flexibilização em algumas interpretações. Se o TSE não for rigoroso, o que estará em jogo é a própria autoridade da Justiça Eleitoral no país.

Além das suas viagens eleitoreiras, o país viveu o abuso de pagar com recursos do contribuinte as viagens da pré-candidata quando ela era ainda ministra, mas já fazia campanha. Dizer que aqueles palanques que o Brasil viu, e o brasileiro pagou, não eram comícios, é dizer que somos todos bobos. Casos como os dos dias passados em visitas às obras do São Francisco, em que pouco se fiscalizava e muito se posava e discursava para a campanha, ou o extemporâneo e caro circo do lançamento do PAC-2 são fraturas expostas nas regras do bom comportamento político.

Se a candidata do presidente for eleita, isso não apagará o mal feito. Ficará o país sabendo que Lula inaugurou a temporada do vale tudo no governo federal quando o governante quer eleger o sucessor. Isso avacalha a democracia que o país está construindo.

A conta parcial de alguns desses eventos foi apresentada por requerimento do deputado Raul Jungmann (PPS-PE): R$ 3 milhões. Quem paga campanha é partido — para isso tem até dinheiro público distribuído às legendas — mas não pode ser com o orçamento do Palácio do Planalto. É acintoso.

As declarações da linha do "nunca antes" não vão impor realidades. Quando baixar a poeira do marketing superlativo do atual presidente, o país registrará o bom e o ruim do legado da era Lula. Mesmo agora, adianta pouco falar que desde Geisel nunca se investiu tanto em estradas, se elas estão intransitáveis; que a Saúde está perto da perfeição, se há filas de pacientes para cirurgias; relançar as notas do real para se vincular a um plano ao qual se opôs; ampliar o gasto público para forçar um crescimento econômico exuberante na reta final, se as estatísticas vão mostrar que nos anos de boom mundial o Brasil cresceu menos que a média dos outros países e dos vizinhos. Nada ficará da tese de que 2003 é a data inaugural do Brasil, porque a História registrará o processo de modernização que começou antes e continuará depois de Lula. Também não servirá para a História sua tese de que foi vítima do mensalão. O escândalo será visto como é: não uma conspiração contra ele, mas o pior caso de corrupção da História do Brasil e ocorrido no coração do governo Lula, com o concurso dos seus mais próximos colaboradores.

Seus méritos serão mais bem dimensionados quando passar a temporada dos autoelogios, aos quais Lula se entrega com ímpeto enquanto deprecia outros governantes. Suas boas políticas serão valorizadas quando não forem peças de palanques. Os avanços desses oito anos serão constatados e calculados não pela capacidade de eleger quem quer que seja, mas pelo balanço lúcido e informado que o tempo permitirá fazer.

Hoje, seu afã de eleger, a qualquer custo, a candidata que escolheu só vai malbaratar sua herança, vai fazer mal à democracia brasileira, vai apequenar a Presidência e desrespeitar o papel institucional da Justiça Eleitoral.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O lirismo pré-Bolsa Ditadura

.....e la nave va......

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Banks have warned that the capital proposals may impinge on credit and growth. UBS AG, Switzerland’s biggest bank, has estimated the proposals may force banks to raise as much as $375 billion in fresh capital.

In a sign of tension among the world’s economic policy chiefs, Geithner flagged concern that others are turning to cheaper currencies and fiscal restraint, leaving their rebounds reliant on foreign rather than domestic buyers for strength.

“Stronger domestic demand in Japan and in the European surplus countries” is needed, Geithner said in a June 5 press briefing in Busan. “The value of the G-20 is to help each of us individually recognize the importance of economic policies that are in our broad collective interest.”

The conundrum is that governments are all trying to harness a rebound in trade, which the Netherlands Bureau for Economic Analysis last week estimated grew 3.5 percent in March, more than double February’s pace.

Pernod, Toshiba

Companies from French beverage maker Pernod Ricard SA to Japan’s Toshiba Corp. and Nissan Motor Co. are counting on foreign demand to stoke earnings. Pernod said last month that for every 1 percent drop in the euro versus the dollar, its earnings before interest and taxes rise 12 million euros ($15 million).

Toshiba, Japan’s biggest memory-chip maker, said May 11 it aims to quadruple profit in three years as foreign sales climb. Nissan, Japan’s No. 3 automaker, the next day forecast earnings to more than triple in a year on North America and China sales.

In the U.S., President Barack Obama aims to double exports over five years, while China is refusing to bow to international pressure to allow an appreciation in the yuan, which it has held at 6.83 per dollar for almost two years to help its exporters

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Comentario meu-quem esta mais ultrapassado, o mercado imoral ou os politicos desmoralizados? Rough times to come! Stoning times..........


'IstoÉ' vê Marina e relata exílio de Serra


Foto


A revista IstoÉ desta semana publica reportagens de capa sobre a campanha presidencial que encanta os mais jovens, expondo propostas que fazem parte do imaginário dos eleitores e apresentando um tom de utopia em uma campanha que lembra o PT dos anos 1980. Mas o problema, adverte a revista, é que a candidata do PV, senadora Marina Silva (AC), pode ser atropelada pela vida real. IstoÉ também publica reportagem muito interessante sobre a rotina dos 14 anos de exílio do presidenciável tucano José Serra no exterior, trabalhando como professor e enfrentando a perseguição da polícia política da ditadura e a má vontade das representações diplomáticas brasileiras.

Soy loco por ti America (obrigado Caetano!)


O que mudou? Tudo! Envelhecemos, forma biologica de corrupção. O mais é falta de VERGONHA mesmo....
Adelante, sin renegar él passado, confiar en él Futuro ......sin perder la ternura.


sábado, 5 de junho de 2010

POR QUE MARINA NÃO CONVIDA SERRA E DILMA? Por Carlos Chagas


O PT vai à Justiça interpelar José Serra, querendo saber se o candidato acusou ou não Dilma Rousseff de estar preparando um dossiê de denúncias contra ele e sua filha Verônica. José Serra exigiu da campanha da adversária que esclareça a existência ou não de dossiês referentes à sua atuação como prefeito e governador, sob pena de processo por crimes contra a honra.


Querem saber de uma coisa? Parece tudo palhaçada, havendo ou não companheiros e tucanos aloprados fazendo guerra de nervos e elevando a temperatura da disputa presidencial.


Vivêssemos a democracia sonhada e ainda não concretizada, toda essa lambança se resolveria de forma simples, através de um encontro entre Serra e Dilma, quando selariam o compromisso de banir as baixarias da campanha. Dossiê é arma de mafiosos, quaisquer que sejam e de que forma utilizem , lá e cá, acusações que melhor ficariam na luta entre quadrilhas.


Seria possível um entendimento público entre os dois candidatos? Na teoria, sim. São adversários, não inimigos em guerra. O problema é saber quem tomaria a iniciativa, julgando-se ambos ofendidos. Provavelmente nem Dilma nem Serra pegariam no telefone para marcar essa reunião. Saída existe: por que Marina Silva, a terceira candidata, não se anima a convidar os dois?


Fora daí as previsões são de que breve estarão todos aos socos e pontapés, além de puxões de cabelo, coisa que só levará a campanha, e a democracia desejada, para as profundezas...

PAÍS RICO É ASSIM MESMO
Ontem, o Brasil formal parou. E não apenas em Brasília, onde não funcionaram o Congresso, os tribunais superiores, os juízos de primeira instância e a maior parte das repartições públicas federais e distritais. Até hospitais adotaram regimes de plantão. Foi assim no país inteiro, com governadores decretando ponto facultativo para os servidores de seus estados gozarem o dia depois do feriado e antes do final de semana. Até mesmo certas atividades privadas enforcaram a sexta-feira, sob o pretexto da paralisação do setor público.


O problema é que o Brasil real trabalhou. Indústria, comércio e serviços funcionaram.Qualquer dia desses a sociedade perceberá poder atuar sem a presença de poderes supérfluos. Por dever de justiça, registre-se que o presidente Lula compareceu ao trabalho, em dois expedientes

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Uma mão lava a outra, por Sandro VAIA


As centrais sindicais estão gastando dinheiro confiscado dos trabalhadores brasileiros e dinheiro subsidiado do governo- do qual não precisam prestar contas- para entrar ilegalmente na campanha eleitoral .Apoiam um candidato e caluniam outro.

Esse é mais um dos escândalos que passam pelo olhar distraído dos brasileiros, como passam aquelas notícias de eventos exóticos em qualquer ilhota do sul do Pacífico; Paulinho da Força Sindical, suspeito de desviar dinheiro do BNDES e de outras malfeitorias genéricas (que não enumero aqui por puro tédio) disse que os trabalhadores não podem deixar “aquele sujeito” ganhar as eleições, e atribui a ele intenções de revogar leis sociais, como a licença maternidade e outras coisas.Não importa que seja mentira e que o candidato nunca tenha falado sobre esse assunto.Importa deixar a marca da suspeita e transferir ao acusado o ônus de provar que nunca pensou nisso.

A opinião pública presta a esse tipo de delinqüência intelectual a mesma atenção que presta ao menino de dois anos que fuma dois maços de cigarro por dia em algum canto do planeta.Dá uma espiada com o canto dos olhos, esboça meio sorriso , sacode a cabeça e comenta: “cada coisa...” E a vida segue.

A razão é simples: estamos saturados de ignomínias de todo tipo.Uma a mais,uma a menos, não vai fazer a menor diferença.É a banalização não do mal – o que requereria um apelo à erudição de Anna Arendt remeteria a crimes mais letais - mas da simples sem vergonhice.A sem vergonhice barata dos pequenos espertalhões da política brasileira, rasos como suas ambições, murchos como as suas metas, rasteiros como seus ideais.Simples Paulinhos, insignificantes como tal , mas letais pelo que representam como exemplo de deterioração dos costumes políticos e de pouco caso com as instituições democráticas do País.

As centrais sindicais- que antes concorriam pelas preferências dos trabalhadores e dos proventos que eles representam- agora se uniram numa frente única paraestatal para sugar os recursos públicos e saquear os bolsos dos trabalhadores, que são obrigados a pagar um dia de trabalho para rechear seus cofres, e criaram um tipo de consórcio à moda neoperonista,não para cumprir a sua função institucional, que é defender os interesses de quem deveriam representar, mas para fazer política partidária. Pouco lhes importa que seu comportamento seja inconstitucional ou que gastem 800 mil reais para tentar encher um estádio de votos.Dinheiro não é problema para quem não precisa fazer esforço para obtê-lo.

Paulinho, que feudalizou um pedaço de partido remanescente dos escombros brizolistas, reinaugurou o tipo de peleguismo que se julgava extinto desde a segunda metade do século passado: barganha seu apoio não em troca de qualquer espécie de crença política,mas por pacotes específicos de vantagens pessoais.Ameaça retaliar o partido governista com o qual se aliou se o lugar de vice não for concedido a uma entidade indicada por ele.Puro blefe, todo mundo sabe.Vulgar jogo de cena.

O jogo das centrais sindicais com o governo e seu compromisso político eleitoral com ele não é segredo para ninguém e não há inocentes nessa barganha.Muito menos o presidente da República, que com sua proverbial franqueza confessou: em 8 anos de governo,o movimento sindical só não conquistou o que não pediu.

Nesse tipo de negócio, é muito normal que uma mão lave a outra.

Sandro Vaia é jornalista. Foi repórter, redator e editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, diretor de Informação da Agência Estado e diretor de Redação de “O Estado de S.Paulo”. É autor do livro “A Ilha Roubada”, (editora Barcarolla) sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez.. E.mail: svaia@uol.com.br

Nada resiste à ma administração......nem Ideais ou Principios!

Andrei Netto, Jornalista n' O Estado de S.Paulo:

O jornal francês Le Monde, um dos mais importantes do mundo, foi oficialmente posto à venda nesta quarta-feira, 2, em Paris. O anúncio foi feito em editorial de capa pelo diretor-executivo da publicação, Eric Fottorino, e confirma a perspectiva aberta em janeiro de 2008, quando começou o agravamento da crise do maior diário da França.

Jacky Naegelen/ReutersCrise no maior diário da França começou em 2008Os futuros proprietários, que deverão injetar entre € 80 milhões e € 100 milhões em troca do controle acionário, terão de assinar um termo de compromisso para garantir a total independência editorial do periódico de centro-esquerda.

A troca de mãos do Le Monde é desde já o maior movimento em curso no mercado editorial da Europa, e está mobilizando investidores da própria França, mas também da Itália, da Espanha e da Suíça.

As ofertas deverão ser concretizadas até 14 de junho pelo conjunto do grupo Le Monde, integrado também pelo site lemonde.fr (portal informativo mais frequentado do país), pelo jornal Le Monde Diplomatique, pelas revistas Courrier International, Télérama e La Vie e pela gráfica da companhia, além de seus imóveis.

A perspectiva é de que, até 30 de junho, o selecionado para liderar o processo de recapitalização do grupo seja conhecido.

A venda, nas palavras do diretor Fottorino, marcará "uma virada histórica para o Le Monde", um jornal fundado pelo legendário jornalista Hubert Beuve-Méry, em 1944, e controlado por seus funcionários desde 1951. "O Monde sofreu as consequências de tensões sobre sua tesouraria, que o conduziram no ano passado a contrair um empréstimo bancário de € 25 milhões, condicionado por nossos credores - o banco BNP em primeiro lugar - à implantação de uma recapitalização", informou executivo.

Ainda de acordo com Fottorino, a empresa precisará reembolsar entre 2012 e 2014 um total de € 69 milhões em empréstimos contraídos dos grupos Publicis, La Stampa e BNP Paribas. Apesar do quadro adverso, a direção do grupo reafirmou seu otimismo sobre o futuro, em especial depois que o jornal conseguiu reverter, em 2009, os crônicos deficits, fechando o ano com um saldo de € 2 milhões, "sinal de um dinamismo editorial e de um retorno à melhor gestão", segundo o editor.


OUTRA QUE NÃO VAI PEGAR

Por Carlos Chagas

A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou o fim da prisão especial para quem dispõe de diploma universitário, bem como para os detentores de cargos eletivos. Prisão especial, depois da aprovação do projeto, só para quem estiver correndo risco de vida no convívio com outros presos.


Além de subjetiva a ressalva, a depender da interpretação da autoridade policial, salta aos olhos a inocuidade da proposta. Irá para o xadrez coletivo de uma delegacia qualquer o deputado ou senador preso em flagrante por algum crime, ou engenheiro milionário, dono de uma mega-empresa, acusado de remessa ilegal de dinheiro para o exterior?


Acresce ter sido essa profilática medida diversas vezes anunciada e até aprovada em sucessivas reformas do Código de Processo Penal que não pegaram. Nem pegará, depois que a lei for sancionada. O problema é econômico, tanto quanto de poder. Cadeia, mesmo, daquelas imundas e promíscuas, só para pobres e desprotegidos. Isso quando os ricos e poderosos tiverem caído nas malhas do Código Penal, coisa muito difícil de acontecer enquanto estiver em vigência a prática da impunidade, para o senador Pedro Simon o maior dos males nacionais. Não se trata de mais leis, senão de menos pudor, característica de uma sociedade como a nossa.

NA CARROCERIA DE UM CAMINHÃO
Ameaça o presidente Lula, quando a legislação eleitoral permitir, postar-se na carroceria de um caminhão a fim de pedir votos para Dilma Rousseff. Precisará, primeiro, licenciar-se da presidência da República, hipótese que volta a ser cogitada para o período entre agosto e setembro. A história de que popularidade não se transfere, muito menos votos, começou a ser desmentida pelas últimas pesquisas e poderá seguir adiante. A eleição da candidata deixou de constituir-se num sonho impossível, ainda que certeza dos resultados de outubro ninguém tenha. O importante é que, se conseguir eleger Dilma, o presidente Lula estará consagrado como nenhum de seus antecessores. A pergunta que se faz, então, é se o primeiro-companheiro, depois de terminado seu mandato, conseguirá descer da carroceria do seu caminhão. Permanecendo nele, começará a incomodar precisamente o objeto de seus atuais esforços, a suposta nova detentora do poder. Os mais otimistas, no PT e adjacências, começam a preocupar-se com o day-after, a convivência entre o criador e a criatura. Os pessimistas acham que vai dar bolo..

Carlos Chagas é Jornalista.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Crise de aloprados--- (Editorial da "Fôlha")


Alcançado o empate com o adversário tucano nas pesquisas eleitorais, a campanha de Dilma Rousseff parece experimentar uma crise interna. Que não nasce de divergências ideológicas, tampouco de discordâncias sobre a estratégia de marketing a seguir, mas da disputa por poder.

Suspeitas levantadas pela revista "Veja" acirraram o conflito, ao que tudo indica já existente, entre um grupo de petistas de São Paulo -integrantes da coordenação nacional da campanha- e Fernando Pimentel, ex-prefeito de Belo Horizonte e coordenador da candidatura governista.

Segundo a publicação semanal, um "grupo de inteligência" foi montado por homem próximo de Pimentel. Os "espiões" petistas sob o seu comando teriam investigado a facção rival. Suspeita-se que preparassem dossiês contra o postulante do PSDB à Presidência, José Serra.

Figuras de proa da candidatura Dilma, como o ex-ministro Antônio Palocci e o deputado Rui Falcão (SP), têm usado o episódio para tentar minar o poder de Pimentel na campanha.

A arapongagem de araque -tanto quanto o fogo amigo- não é nova no mundo petista. Em 2006, uma equipe de "aloprados", como vieram a ser caracterizados pelo presidente Lula, foi flagrada com malas de dinheiro sujo numa operação para atingir a campanha tucana ao governo de São Paulo.

O tosco pragmatismo de alguns setores do PT parece não conhecer limites, como provam os sucessivos escândalos gestados nos últimos anos. Aloprados e arrivistas sintetizam o que há de pior no petismo desde sua chegada ao poder na esfera federal. Atuam à sombra e buscam conspurcar o processo eleitoral com farsas e manipulações. Desrespeitam a democracia e o eleitor, que nada têm a ganhar com a praga dos dossiês.

Até aqui, a corrida presidencial não registrou golpes baixos ou grosserias. É de esperar que prossiga assim, em termos civilizados, e se paute pelo debate de propostas para o país. Para isso, eventuais movimentações de bastidores, como as mencionadas, devem ser cortadas pela raiz -tanto de um lado, quanto de outr

A crise na Grécia e autoengano: por Murillo de Aragão

Uma das consequências da tragédia financeira grega são as análises equivocadas e enviesadas da crise. No Brasil, avaliações rasteiras e pedestres tendem, mais uma vez, a creditar a crise à falta de regulação. Com Estado forte, nada disso teria acontecido, disse o presidente Lula.

Em outra direção, J.R. Guzzo, em artigo na revista Exame, diz que os Estados foram incapazes de fiscalizar os mercados e a si mesmos. Conclui, com precisão, dizendo que o Estado manteve intacta a capacidade de provocar seus próprios desastres.

Para complicar, a discussão é contaminada, evidentemente, por interesses ideológicos daqueles que querem mais ou menos Estado. Em especial, na economia. Em consequência, temos um debate cuja esgrima de argumentos ocorre em meio a mistificações, cortinas de fumaça, intenções veladas e agendas ocultas.

O primeiro efeito colateral do embate de posições engajadas é o comprometimento com a busca da verdade. Saber exatamente o que aconteceu e quais lições devemos tirar é muito melhor do que fazer avaliações superficiais. Não é o que encontramos por aí. A realidade é distorcida para caber no figurino ideológico de preferência.

O segundo efeito é o uso político do episódio grego a favor de teses ideológicas e eleitorais. Por exemplo, coloca-se como vilã a falta de regulação, sugerindo que o Brasil deve ter regras financeiras mais rigorosas.

Outros apontam a irresponsabilidade fiscal das autoridades gregas, sugerindo que o Brasil deve cortar custos da máquina pública e reduzir o endividamento para manter e fortalecer a credibilidade.

Há, ainda, quem diga que as regras da Comunidade Européia colocam alhos e abacaxis no mesmo cesto. Assim, as diferenças e peculiaridades de cada nação devem ser respeitadas. De passagem, o Mercosul leva uma chicotada por estar engessando o Brasil diante das imensas oportunidades que se oferecem em todo o mundo.

Frente ao turbilhão de opiniões e posições ideológicas, o que fazer neste momento? Tentar, de forma inglória, restabelecer um pouco de racionalidade. Primeiro, diante da crise em si. Segundo, em relação aos reflexos dela no Brasil.

Em nosso país, o debate sobre ter “mais ou menos Estado”, nas atuais circunstâncias, é irrelevante. Não só pelo “protagonismo” do Estado no Brasil, mas pelo fato de que – por muito tempo – o Estado será o principal protagonista de todos os eventos econômicos do planeta.

As principais economias do mundo, com poucas exceções, têm no Estado a força central da economia. Seja de forma crônica, como na Rússia, na China, no Brasil e na França, seja de forma aguda e setorial, como nos Estados Unidos e na Inglaterra em relação a setores específicos.

Sem a presença do Estado norte-americano, não existiria a indústria bélica. Ou a indústria automobilística teria ido para o buraco. Não precisamos falar da relação do Estado e do sistema financeiro.

No Brasil, temos metade do sistema financeiro estatizado, empresas estatais imensas e com poder regulador sobre seus setores, além da presença onipresente dos fundos de pensão de empresas estatais em centenas de empreendimentos.

Falar de mais ou menos Estado no Brasil é inútil. O que se deve falar – e se fala pouco – é de como podemos ter um Estado melhor, mais transparente, menos burocrático, menos injusto e, sobretudo, mais democrático. Lamentavelmente, esses aspectos estão sendo tratados perifericamente.

O Brasil, como criação, é um evento estatal em que a sociedade teve e terá por muito tempo um papel subalterno. O pior é que se acredita que a busca da igualdade pode ser alcançada com o fortalecimento do Estado ou com a sua diminuição. São falsos dilemas.

A questão central hoje é como ter o melhor Estado possível: transparente, eficiente, justo e democrático. Livre do corporativismo e da burocracia. Não é um caminho fácil.

Para trilhá-lo, devemos adequar as nossas expectativas e necessidades ao mundo real. A segundo iniciativa é denunciar o autoengano.

Murillo de Aragão é cientista político