sábado, 31 de outubro de 2009

Um minuto pode durar uma eternidade, presidente; por Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa .

Quanto tempo o senhor acha que dura o minuto em que a notícia da morte de um filho assassinado chega aos ouvidos da mãe ou do pai da vítima?

Quanto tempo o senhor acha que dura o minuto em que o filho vê seu pai baleado e morto, caído na rua, ou sua mãe assassinada a sangue frio diante de seus olhos?

Quanto tempo o senhor acha que durou o minuto em que um homem recebeu a notícia de que sua mulher morreu por não ter tido tempo de abrir o vidro do carro para o assaltante, ou que seu filho morreu porque uma bala o achou?

Foi por pensar, sinceramente, que o senhor mais do que ninguém sabia o quanto durava esse minuto, presidente Lula, que eu votei no senhor em 2002. São minutos com muito mais do que 60 segundos, não são não? São minutos com 30, 40, 50 anos de duração... Duram enquanto quem sofreu esse minuto durar, não é mesmo?

O senhor falou, aqui no Rio, “que se fosse fácil acabar com aquilo em um minuto, essa violência não estava perdurando há 30 ou 40 anos”. Mas o senhor sabe, não é, presidente, um ano começa com um segundo, depois 60 segundos, depois um minuto, depois 60 minutos, depois uma hora, e assim por diante e se nada foi feito na quantidade de minutos que cabe em 80 meses de governo, vai ser muito difícil fazer nos minutos que perfazem os 420 dias que o senhor ainda tem no comando, não é mesmo? A não ser que haja um projeto muito racional e focado em três coisas: Segurança Pública, Saúde Pública e Educação.

Até ontem, os bandidos eram encarados pelo seu governo como vítimas do destino. Foi criado até um Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), lembra, que ia resolver isso tudo de forma totalmente inovadora. Isso é fato: inovadora, sim. Como disse aqui neste blog ontem o senador Demóstenes Torres “As tais articulações sociais foram tão profundas que as obras do PAC da Segurança nas favelas do Rio de Janeiro estão sendo executadas em sintonia programática com os líderes do tráfico de drogas”.

O senhor falou também que agora o cidadão forma sua própria opinião, anda com suas pernas, fala com sua boca. Que não precisamos da Imprensa para nos informar. Então leia a opinião de um carioca formada por ele mesmo, com algo que lhe aconteceu e que ele não leu em jornal algum:

“Se não tivesse acontecido comigo eu não teria acreditado! Ontem à noite, em Botafogo, tive o vidro do carro quebrado e o som levado. Até aí, nada de estranho na Cidade Maravilhosa! Ao chegar à delegacia para fazer o B.O. o policial manda a seguinte pérola: “Aquelas ali no carro são sua esposa e filha?”referindo-se à minha amiga e sua sobrinha. “Porque eu acho melhor você não deixá-las ali no carro não, pois já recebemos duas ligações de invasão esta noite. Traz elas aqui pra dentro enquanto a gente faz o B.O rapidinho”, completou. Resultado: saí correndo da delegacia e não fiz o B.O. Sem condições de esta cidade sediar Copa e olimpíadas!” (Cartas dos Leitores, O Globo de 29 de outubro de 2009, página 6).

Quantos minutos seu governo levará para concluir que o bandido drogado que mata sem perdão aqui no Rio não é o Chefão do tráfico? Que ele é um funcionário de quinto escalão de uma organização poderosa que entra e sai de nossos portos e fronteiras como nós saímos e entramos na sala das nossas casas?

Quantos minutos o senhor levará para aceitar que a Segurança de Nossas Fronteiras é Problema do Governo Federal? E só do Governo Federal? Não começou no seu governo esse estado de coisas aqui no Rio. Não seria correto dizer que foi em 2003 que o narcotráfico penetrou em nossas cidades. Mas creio poder dizer, presidente Lula, que vem piorando ano a ano, mês a mês, dia a dia.

E consta que não é só aqui no Rio, não. Em São Paulo, estado onde a polícia foi mais controlada e bem aparelhada, existe uma região que foi batizada por um nome terrível: cracolândia. Lá fica um colégio, um monumento que deveria constar de todos os nossos guias de turismo, o Liceu Coração de Jesus, fundado em 1885. Lá estudou Monteiro Lobato, presidente Lula. Só isso já deveria servir para tombar o liceu não como monumento morto, mas como monumento vivo e merecedor de todas as honras... Mas ele está minguando porque o crack tomou conta da vizinhança.

Portanto, não adianta sanear 50 comunidades cariocas para as Olimpíadas, unidades essas que o ministro da Justiça declarou, generoso que só, que deixaria como legado para o Rio. Não adianta tentar tapar o sol com a peneira. Nem acenar com trens-bala, por favor. Para que, para ir de uma cracolândia a outra?

Por favor, esqueça as obras monumentais: cuide de deixar para o amanhã uma geração com vida, saudável e instruída. O resto, o resto é vaidade mal gerida. E muitos minutos insuportavelmente doloridos...