sábado, 21 de junho de 2008

"Recesso Branco" e Morro da Providência

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa

Muitos brasileiros ficarão indignados ao saber que semana que vem o Congresso Nacional entra em recesso branco. As festas juninas são a desculpa do momento. Alegam que o pobre eleitor nordestino não vota em quem não for dançar a quadrilha... No que não creio, posto que deve ser um alívio não ter esses cidadãos empatando a festa.
Só não vejo motivo para estranhamento. Em recesso branco, azul, amarelo, vermelho, listrado, estamos há muito tempo. Só isso explica o fato do Exército Brasileiro estar sendo terceirizado por um candidato a prefeito, Crivella, com o beneplácito de dois ministérios, Cidades e Defesa e, nunca é demais salientar, com a anuência do Presidente da República.
A favela da Providência é a matriz de todas as favelas cariocas. Sua história remonta à Guerra do Paraguai. Sua localização é especial: atrás da Estação de Ferro Central do Brasil, de frente para a Avenida Presidente Vargas, claramente visível para quem vai ao Maracanã, ao Sambódromo, ao Engenhão, ou ao Centro Administrativo da cidade.
Esgotos? Água encanada? Escolas? Postos de saúde? Isso é besteira. Importante é o visual, o que o eleitor lá do asfalto vê. Com uma guaribada nas fachadas e nos telhados, cores fortes e vivas, é um bom cartaz: “Olhem como ficará bela e limpa a sua cidade com Crivella na Prefeitura”.
Um crime hediondo foi cometido. Contra todos nós. O crime não é só dos animais do Morro da Mineira. Nem do tenente e seus comandados. O crime é das autoridades brasileiras que não se respeitam, posto que não nos respeitam. A utilização de tropas brasileiras para fins que o Congresso Nacional não aprovou, pois que nem consultado foi, só veio à tona por conta do crime por demais bárbaro para caber em baixo até mesmo dos grossos tapetes da frágil República brasileira.
As autoridades fluminenses, municipais, estaduais e federais, não estão livres de culpa. Não é possível crer que não soubessem do Cimento Podre que se desenhava na Providência.
O Rio grita por socorro.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Na cidade mafiosa

Recebi e-mail de Rodrigo Pimentel, roteirista do filme "Tropa de elite" e ex-capitão do Bope. O artigo intitula-se "Cidade mafiosa":
"Na cidade mafiosa, jornalistas são barbaramente torturados por integrantes de milícia no mesmo mês em que uma bomba é lançada contra uma delegacia de polícia em uma típica ação terrorista. Em ambos os crimes, as investigações chegam à Assembléia Legislativa. No primeiro caso, um dos acusados de comandar a sessão de espancamento, segundo a própria polícia, seria integrante do gabinete do vice-presidente da casa; no segundo caso o mandante seria um deputado do partido do atual prefeito.
Na cidade mafiosa, a Polícia Civil, agora despolitizada, descobre que na casa onde 50% dos representantes respondem a processos criminais que vão de homicídios até formação de quadrilha, se conectam os crimes praticados nas ruas.
Nessa mesma cidade, 40 deputados, agora jurisconsultos, contrariando parecer dos procuradores federais, alegando inconstitucionalidade da prisão, resolvem soltar o ex-chefe de polícia e colega deputado.
Deputados, ingênuos ou mesmos coniventes, entendem que imunidade parlamentar não se aplica apenas a crimes de opinião, típica do mandato, mas à formação de quadrilha armada e ao enriquecimento ilícito.
De repente, em uma tarde comum na cidade mafiosa, um deputado do partido do governo vai ao plenário defender as milícias. Ora, afinal, é a mesma cidade em que concessões de linhas de ônibus municipais não são licitadas há 30 anos, facilitando o surgimento de transportes ilegais, principal fonte de renda das milícias.
Na cidade mafiosa, aos olhos de todos, policiais militares em motocicletas abordam e extorquem motoristas com IPVA atrasado, após consultar as placas, não nos rádios da corporação mas em aparelhos Nextel.
Na cidade mafiosa, um grupo abnegado e corajoso de delegados, procuradores e jornalistas tenta, timidamente, há mais de seis anos, através de colunas, denúncias e pronunciamentos, acordar seus companheiros para a grande organização criminosa que surge no Estado.
Nessa cidade, a Polícia Federal prendeu mais policiais civis e militares que as corregedorias destas duas polícias juntas. É mesma cidade em que a Polícia Federal também prendeu seus integrantes e indiciou delegados e agentes. Nessa cidade, agora também, a Polícia Civil prende e indicia vereadores e deputados, algo até então inimaginável na cidade mafiosa.
Os ingênuos deputados não acordaram que a premissa básica para existência do crime organizado é a simbiose com o poder estatal e isso já foi alcançado não pelo tráfico de drogas, mas pelos caças-níqueis, pelas milícias, pelas vans piratas e pela máfia dos combustíveis - aliás muito em breve os deputados estarão votando também pela liberdade de colegas representantes destas máfias.
Na cidade mafiosa, o secretário de Segurança Pública, o primeiro nos últimos dez anos com credibilidade necessária para estar à frente da função, continua insistindo nas ações de enfrentamento para desestabilizar o tráfico e apreender armas.
Cada vez mais mortes nas favelas não traduzem tranqüilidade ou paz, nem para os moradores dos morros, nem aos moradores do asfalto.
Em breve perceberá o secretário de Segurança Pública que, na cidade mafiosa, as ações nas casas legislativas são mais urgentes, eficazes e necessárias que as operações nas favelas.
Por último, na cidade mafiosa, um senador, candidato a prefeito, determina que o Exército ocupe uma favela contrariando diretrizes do comando da força e violando a Constituição Federal."
Aí está, nas palavras de quem conhece o assunto por dentro, um raio-X exemplar do Rio.

Escravos de O Coiso; por Fausto Wolff

Já disse e repito: a arte política, que deveria fiscalizar, com a Justiça e o Legislativo, a administração do bem público, transformou-se numa enorme fusão de corporações dirigida pelo O Coiso e seus capachos mais íntimos. A função do homem público não é mais tratar dos interesses da maioria da sociedade, mas sim o de ser contínuo dessa grande organização. Presidentes, ministros, senadores, deputados, governadores, prefeitos não exercem suas atividades em função da pátria – palavra esta que só é ensinada nos grupos escolares e nos dias que antecedem a Copa do Mundo, que, é claro, também um dos muitos tentáculos de O Coiso. A Fifa tem mais dinheiro e poder do que muito país africano.
O objetivo é o caos, porque o caos é a ignorância com violência. No Brasil, por exemplo, ninguém sabe nada de nada, o que era uma coisa passou a ser outra. Os que ontem foram torturados têm hoje como mentores seus torturadores. Mas, para que o caos pareça ter algum sentido, é necessário misturar Exército com favelados, milicianos com traficantes, políticos com líderes de quadrilha, juízes com vendedores de sentenças, soldados com assassinos, banqueiros com políticos e, principalmente, ter um palhaço que diga asneiras como "estamos próximos do paraíso", "os usineiros são nossos novos mártires", "Médici e Geisel foram homens notáveis" ou "não gosto de ler." Desse modo, é possível transformar a América Latina numa África mais elegante, estilo Julio Iglezias.
Ainda assim, não é qualquer um que pode ingressar no PU (Partido Único). É preciso demonstrar habilidades criminosas, falta de caráter e compaixão. O neoliberalismo e as fusões entre as transnacionais transformam o político num office boy de luxo. A política só lhe interessa na medida em que triplicar o capital investido. Gente séria não concorre a coisa alguma, pois sabe que roubaram a cultura do povo e o voto consciente praticamente desapareceu. O fenômeno é mundial, mas, obviamente, mais facilmente aplicável e mais barato no Quarto Mundo em que fingimos não viver. Para a grande corporação, você só existe se tiver mais dinheiro, e nesse processo deixar cair pelo caminho o que havia dentro de você de dignidade, caráter, vergonha, consciência, espírito cívico. Há muito que O Coiso percebeu isso e joga com a preconceito, o fanatismo, o ódio. Quando O Coiso colocou um louco no poder nos USA, tomou também o cuidado de colocar o general Powell e Condoleezza Rice em lugares-chave da sua administração. Demonstraram, de mentirinha, que negros nada têm a temer do Partido Republicano. Os democratas entenderam a coisa e colocaram Obama, negro, nome árabe, mas favorável à política americana no Oriente Médio. Hillary não perdeu por ser mulher, mas por ser favorável a um sistema público de saúde que beneficiasse a todos igualmente.
Ocorre que há milhões buscando a glória e a fama, mas poucos têm o talento exigido. Por isso, os brancos foram para o mercado de capitais. A arte tornou-se uma bufonaria a serviço da política e esta trabalha a serviço da grande corporação. Será que só existem atletas negros nos Estados Unidos? Claro que não, mas é uma das poucas profissões nas quais podem se destacar vindos dos guetos onde domina outro tentáculo do Coiso, as drogas, para não falar da religião e do comércio de armas. São raros os brancos no esporte e geralmente vêm da Europa Central, pois aos americanos, a não ser que sejam fenômenos, não interessa a competição, pois o lugar de fazer negócios fáceis é a Wall Street. O comércio de drogas (que jamais serão liberadas) tem como sócio o comércio de armas, que tem como sócio o comércio da moda, que deve mudar a cada ano, e o das grandes indústrias automobilísticas, cujos carros também devem ser trocados a cada ano. A indústria bélica, que mata milhões em todo o mundo todos os meses, está unida aos grande laboratórios, que fabricam os venenos para vender o antídoto a preço bem mais alto.
Assim que americanos e israelenses acabarem com os países árabes – e, naturalmente, com sua cultura – começará a grande guerra da América Latina. Neste momento, o item mais importante para a sobrevivência deste nosso mundo burro e pequeno, que foi planejado para ser um paraíso, é a desculpa do tráfico de drogas. "Contra" ele prepara-se a guerra entre os países da América Latina até que todos fiquem tão dóceis quanto a África, metade dela infectada pela Aids.
Quem deu o chute de largada para o caos contemporâneo foi a explosão das torres gêmeas. Mas quem organizou a explosão com tanta perfeição? Quem voltou a dar poder à CIA para meter-se onde quisesse? Existe o quarto poder, a minha bela profissão: o jornalismo. Este, porém, já mostrou de que lado está. Na edição do incorruptível NYT, algumas horas depois, o editorial já mandava caçar os árabes onde estivessem.
Para que o caos programado pelo Coiso dê certo é necessário que milhões de pessoas morram de fome todos os dias – aqueles que não têm serventia, os que jamais serão consumidores. A não ser, é claro, que lhes déssemos o básico para viver como seres humanos: teto, terra, emprego, educação, saúde e chance de usar sua inteligência. Mas não, isso é muito perigoso. Isso O Coiso não quer. JB----[ 20/06/2008 ] 02:01

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Crime de lesa esperança

Todos os povos procedem a revisões de seus muitos períodos históricos. Rever o passado com os olhos do presente. É prática sadia. Permite afastar inúmeras conclusões tiradas sob efeito de emoções imediatas.
O calor dos debates e as circunstâncias presentes, quando os acontecimentos ocorrem, não permitem a captação plena das personalidades em cena.
As figuras carismáticas e os discursos inflamados contra erros políticos e administrativos, em determinados momentos, impedem reflexão. Todas as pessoas se tornam heróis e figuras símbolo.
Durante vários anos, particularmente no período pós 1968, surgiram na cena política brasileira personagens que, pela sua audácia e coragem cívica, mereceram o respeito de toda a cidadania.
Não importava o ângulo de visão do observador. Este sempre respeitava aquelas figuras impávidas que, com a palavra, ações e atitudes, se colocavam contra o regime de exceção implantado no país.
Criaram uma literatura expressiva. Uma música de combate duradoura. Cenas teatrais emocionantes. Conferiram exemplos de persistência e abnegação. Foram exemplo para milhões de jovens e adultos.
Alguns sofreram exílio e tortura. Outros a inaceitável perda da nacionalidade, mediante a imposição da hedionda pena de banimento. Tornaram-se apátridas por desejarem uma pátria respeitada.
Tantos são os nomes de oposição neste período da História que, arrolá-los, seria tarefa árdua. Desnecessária, além do mais. Alguns poderiam ser esquecidos. Outros comporem a galeria dos sem méritos.
Quem viveu os últimos quarenta anos cruzou, muitas vezes, com estes atores políticos de emblemáticos dos movimentos de época. A presença destas personagens políticas impunha respeito. Eram heróis vivos.
Quantas vezes se ouviram exposições arrebatadas. Cuidadosamente proferidas em pequenos recintos. Ou então em debates realizados nos interior de aparelhos clandestinos.
Era a consciência profunda da cidadania que se pronunciava. Merecia silêncio e reflexão. Mulheres e homens expunham-se para evitar que os valores da liberdade e da participação fenecessem.
Toda esta gente - mesmo que eventualmente esquecida - integra o patrimônio cívico de nossa sociedade. Soube resistir e oferecer o melhor de suas consciências para a preservação de valores cívicos maiores.
Foi assim nos anos mais amargos. Conservou-se, assim, quando se iniciou o processo de abertura democrática. Timidamente as primeiras vozes surgiram em público e expuseram-se perante grupos sociais.
Depois, foram os movimentos cívicos de maior extensão, como o da Anistia e das Diretas Já. Nas praças, as vozes antes clandestinas tornaram-se públicas. Atingiram multidões mediante o uso paulatino do rádio e da televisão.
Os primeiros debates, por meio da mídia eletrônica, causaram perplexicidade. As audiências eram expressivas e as exibições ao vivo, o que impedia edições manipuladas.
Depois vieram as primeiras eleições diretas para governador. Uma vibração incontida. Os perseguidos de ontem tornaram-se candidatos. Foram os favoritos do voto popular.
Nos primeiros pleitos, a explosão de votos para as oposições ao regime autoritário mostrou-se avassaladora. Surpreendeu os analistas. Levou intranqüilidade ao sistema de poder.
A cada pleito mais favoráveis às oposições se mostravam os resultados eleitorais. Aqueles que haviam lutado pelo retorno à democracia eram os vencedores. O povo saudava os clandestinos de ontem com o voto. Aclamados como heróis.
O tempo passou. Os quadros administrativos foram preenchidos pelos vencedores de eleições livres. Como acontece em qualquer democracia. As esperanças populares eram intensas. As expectativas imensas.
A tragédia aconteceu. Com o passar dos anos, muitos daqueles combatentes da democracia decepcionaram. Passaram a figurar nos espaços policiais dos veículos de comunicação.
O sentimento pequeno burguês de posse e propriedade mostrou-se mais forte. As ideologias e as doutrinas foram soterradas pela volúpia de poder. A ganância superou princípios e ideais.
A perda é imensa. A frustração da cidadania atinge a perplexidade. Os impolutos das praças públicas tornaram-se peculatários, no interior dos gabinetes governamentais, ou corruptos no cotidiano.
A sociedade não merecia esta agressão. Os falsos heróis não podiam agredir as esperanças tão fortemente lançadas sobre seus ombros. Praticaram o pior dos crimes: o de lesa esperança.

Cláudio Lembo é advogado e professor universitário. Foi vice-governador do Estado de São Paulo de 2003 a março de 2006, quando assumiu como governador

Meio-Ambiente por Marina Silva, de Brasilia (DF)

É muito especial para mim estrear no território dos internautas, por meio de Terra Magazine, a quem agradeço pela oportunidade. Espero dedicá-la a um bom diálogo com as críticas e idéias de todos vocês. Também é especial por acontecer num momento novo, no Brasil e no mundo, que exige conhecimento, sensibilidade e intuição para identificar, na massa impressionante de informações que nos chega, a profundidade dos fatos e processos, a conexão entre passado e futuro, enfim, o nosso espaço de escolhas reais, sejam individuais ou coletivas.
Faz parte desse espaço uma interpelação ética da qual não podem fugir nem os países desenvolvidos nem os em desenvolvimento, entre eles o Brasil. A Amazônia, com sua incomparável floresta tropical, sua biodiversidade e sua diversidade social, talvez seja o maior símbolo dessa interpelação. Para os países desenvolvidos, a pergunta que se faz é sobre seu passado. Destruíram sua biodiversidade, arrasaram os povos originários dos lugares conquistados e provocaram, a partir da revolução industrial, alterações ambientais tão extensas que levaram à atual crise ambiental global, em cujo centro estão as mudanças climáticas.
Embora pareça paradoxal, nossa situação é bem melhor porque somos questionados sobre o futuro. Quando somos perguntados sobre o passado, estamos diante do quase irremediável. Sobre o futuro, temos a chance de projetá-lo. Isso implica dizer o que vamos fazer com nossa biodiversidade, porque temos 20% das espécies vivas do planeta; com nossos recursos hídricos, porque temos 11% da água doce disponível, 80% dos quais na Amazônia; com a maior floresta tropical e com a maior diversidade cultural do mundo. O Brasil ainda tem cerca de 220 povos indígenas que falam mais de 200 línguas.
Essa é uma poderosa interpelação porque permite escolhas e, portanto, exige que estejamos à altura da oportunidade de optar. A discussão é de caráter civilizatório, não se esgota em circunstâncias ou polêmicas pontuais. O Brasil é uma potência ambiental e humana e não pode se conformar em querer, séculos depois, a mesma trajetória que fez dos países desenvolvidos, ricos, porém com graves desequilíbrios ambientais. Nossa meta deve ser: desenvolvidos, porém por meio de caminhos diferentes.
A diferença está, em primeiro lugar, em aceitar a interpelação ética a que me referi, sem tentar lhe dar respostas banais e evasivas. A falsa polêmica em torno da demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, resume a radicalidade exigida por essa interpelação.
Como ministra do Meio Ambiente enfrentei, ao lado dos ministérios da Justiça e do Desenvolvimento Agrário, uma situação no Pará em que um grande grileiro apossou-se de 5 milhões de hectares na Terra do Meio. Conseguimos criar nessa área a maior estação ecológica do país, com 3 milhões e 800 mil hectares. Vi a Polícia Federal implodir 86 pistas clandestinas usadas para tráfico de drogas e roubo de madeira. E nunca ninguém disse que aquele grileiro era ameaça à soberania nacional. Mas os 18 mil índios de Roraima são assim considerados por alguns e muitas vezes tratados como se fossem mais estrangeiros do que os estrangeiros, porque sequer são reconhecidos como seres humanos em pé de igualdade com os demais.
Um exemplo: o mundo ocidental tem em Jerusalém um ponto de referência do sagrado para inúmeras religiões de matriz judaico-cristã. Ficaríamos chocados se alguém quisesse destruí-la e a defenderíamos como algo que é constituinte essencial de nossa cosmovisão. No entanto, em relação à cosmovisão dos índios, acha-se pouco relevante considerarem o Monte Roraima o lugar da origem do mundo.
Pode parecer, para quem acompanha o caso de Raposa Serra do Sol, que a criação da reserva indígena foi um procedimento autoritário e injusto, que desconsiderou direitos dos não-índios. Não é verdade. A legislação brasileira define detalhadamente critérios para demarcação. O contraditório é garantido por decreto, exigindo que sejam anexados, ouvidos e examinados os argumentos contrários. Manifestam-se proprietários de terra, grileiros, associações, sindicatos de trabalhadores ou patronais, prefeituras, órgãos públicos estaduais e federais, apresentando tudo o que considerem relevante. Por isso, a demarcação física das áreas leva, em geral, muitos anos, o que elimina quaisquer possibilidades de açodamento.
Roraima tem cerca de 400 mil habitantes num território de cerca de 225 mil quilômetros quadrados. A população rural não chega a 90 mil pessoas, das quais 46 mil são indígenas, ou seja, 52% do total, ocupando 47% das terras. Raposa Serra do Sol ocupa 7,7% da área do Estado e abriga 18 mil índios. Por outro lado, seis rizicultores ocupam 14 mil hectares em terras da União. Em maio último, o Ibama autuou a fazenda Depósito, do prefeito de Pacaraima, Paulo César Quartiero, por ter aterrado duas lagoas e nascentes, além de margens de rios, e por ter desmatado áreas destinadas à preservação permanente e à reserva natural legal.
Em 1992, quando foi homologada a reserva Ianomami, seis vezes maior do que a Raposa Serra do Sol, houve muito estardalhaço, alimentado pela acusação de que isso representaria ameaça à soberania nacional e grave risco de internacionalização da Amazônia. Passados 16 anos, a reserva abriga 15 mil índios em área de fronteira e não se tem notícia de que tenham causado qualquer dano à nossa soberania e muito menos que pretendam ser uma "nação indígena" separada do território brasileiro, como diziam à época os opositores da homologação.
Estamos perto da decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a demarcação contínua de Raposa Serra do Sol. Será um grande desafio para a instituição e para todo o País, num momento que o mestre Boaventura de Souza Santos chama de bifurcação histórica. Diz ele que as decisões do STF condicionarão decisivamente o futuro do país, para o bem ou para o mal. Que esta decisão seja parte da resposta que devemos dar à interpelação ética sobre nosso futuro. » Você concorda com Marina Silva sobre a questão indígena? Opine aqui
Marina Silva é professora secundária de História, senadora pelo PT do Acre e ex-ministra do Meio Ambiente.

Fotografia é História

Esta é a imagem de um dos momentos menos democráticos da história do Brasil: a posse do general Emílio Garrastazú Médici na Presidência da República, somente possível por uma seqüencia de golpes contra a legalidade. Mostra a cerimônia de clima denso e tenso realizada do segundo andar do Palácio do Planalto na manhã de 30 de outubro de 1969. Médici recebia a faixa presidencial da Junta Militar que tomou o comando do país em 31 de agosto daquele ano, em decorrência do afastamento do então presidente, marechal Arthur da Costa e Silva, vitimado por uma trombose cerebral. Para impedir que um civil ocupasse a chefia da Nação, decretou-se a extinção do mandato do presidente e do vice Pedro Aleixo, deputado por Minas Gerais. Com os dois cargos declarados vagos, assumiu o poder a Junta Militar composta pelo almirante Augusto Rademaker, o brigadeiro Márcio de Sousa Melo e o general Lira Tavares, ministros da Marinha, da Aeronáutica e do Exército. O Congresso Nacional, fechado há dez meses pelo Ato InstitucionaI Número 5 – mudança na Constituição que permitia a Costa e Silva qualquer ação para manter-se no poder -- foi reaberto para eleger Garrastazú Médici, um dos líderes da chamada “linha dura” e que apoiara o golpe militar que depôs João Goulart, em 1964.
A foto é de Orlando Brito.

Bancoop: testemunha teme ser morto

O promotor do Ministério Público em São Paulo José Carlos Blat pedirá inclusão no programa federal de proteção a vítimas e testemunhas do ex-funcionário da Cooperativa Habitacional dos Bancários paulistas (Bancoop) Hélio Malheiros. Ele denunciou suposto desvio de fundos para campanhas do PT e suspeita da morte do irmão Luís Eduardo, ex-presidente da cooperativa, num acidente de carro, em 2004.

domingo, 15 de junho de 2008

"Roraima (Amazônia) Urgente"

Dias antes de embarcar para Roraima, recebi uma carta-desabafo da leitora Viviane Menna Barreto, que tinha acabado de voltar de lá, bastante assustada com o que viu. Como ela passou mais tempo do que eu na terra conflagrada, publico a seguir o texto a que ela deu o título “Roraima Urgente”:
Escrevo para compartilhar com vocês uma descoberta que me deixou chocada. Estava viajando pelo extremo Norte do Brasil, em meados de março, como produtora de um projeto cultural quando conheci Roraima. Antes mesmo de chegar a Boa Vista, percebi que no avião em que embarcara havia uma maioria esmagadora de estrangeiros. Grupos de seis ou sete americanos, quase uma dezena de alemães, outros tantos franceses. Confesso que isso me causou um enorme desconforto, pois tenho em meu imaginário aquelas denúncias de venda da Amazônia, loteamento da floresta, amplamente anunciadas por meio de e-mails e panfletos supostamente ufanistas.
Não sou exatamente uma pessoa que fica reparando nos outros, mas a conexão entre o Acre e o mundo passa por Brasília. Isso quer dizer que, após treze horas de viagem, apesar do comportamento contido dos passageiros, era impossível não notar que o avião havia se transformado em uma “torre de babel” de asas.
Chegando a Boa Vista, após descansar da maratona aérea fui conhecer a cidade. Chamou minha atenção um adesivo colado no vidro traseiro de uma caminhonete estacionada à porta do hotel. Nele estava escrito: “Associação de Moradores de Roraima”. Estava acostumada com a Associação de Moradores de uma determinada Praia, ou de um bairro, de um Estado nunca havia visto.
A cidade como se pode presumir ainda é pequena, não tem museu e a vida cultural limita-se ao SESC. Caminhado por suas ruas, encontrei a cara conhecida das comissárias de bordo que estavam em nosso vôo, e então me perguntei para onde teriam ido todos os “gringos” que desembarcaram no aeroporto?
Logo os moradores de Roraima me forneceram a resposta. Sim, todos com quem conversei pareciam ter um único discurso: falaram que estavam cansados de alertar as poucas autoridades que chegam a Roraima sobre o fato da Amazônia já ter sido vendida e entregue. A uma só voz me contaram que os “gringos” fecham as estradas com correntes e estão munidos de GPS, mapeando as reservas de minérios do estado, que hoje possui mais de 40% do território transformado em reservas indígenas contínuas.
Sempre me pareceu que a demarcação das reservas indígenas fosse algo positivo. Acreditava que estaríamos devolvendo as terras aos seus donos naturais. Quem me conhece sabe que na década de 90 saí muitas vezes às ruas em defesa das causas indígenas, e provavelmente minha postura atual vai causar estranhamento.
Mas, quando tomamos conhecimento de que entre as próprias etnias que habitam o território de Roraima, há muitos índios que não desejavam a demarcação destas terras e são contrários às decisões da FUNAI, começamos a desconfiar de posturas simplistas e resoluções homogêneas dos governos para as diferentes realidades indígenas de nosso extenso Brasil.
Todos conhecem a situação de abandono em que vive a maioria dos índios brasileiros demarcados. As crianças Mundurucus, por exemplo, da região de Jacareacanga, onde estive em 2006, estão crescendo banguelas, entregues à própria sorte, sobrevivendo a contínuas malárias, ao isolamento, à pobreza extrema, à aculturação missionária e ainda por cima consumindo peixes com altos teores de mercúrio, herança que lhes coube da intensa corrida do ouro ocorrida no Tapajós.
Em Roraima, não é diferente. A gravíssima situação de saúde nas aldeias, onde a taxa de malária também aumentou em índices alarmantes, é somada aos constantes atrasos no repasse de verbas para as instituições conveniadas de assistência à saúde, ao descaso das instituições responsáveis _ Polícia Federal, FUNAI, IBAMA e Ministério Público Federal, que permanecem alheias à violação da Constituição Federal e dos direitos indígenas. De forma que só restou aos povos nativos encontrar alguma ajuda e conforto no apoio dos arrozeiros ou dos estrangeiros.
Um funcionário do SESC me disse em conversa informal que há muitos estrangeiros nas reservas. Contou-me que foi à região do Tepequem fazer uma pesquisa com a população indígena e acabou barrado por uns franceses que mantinham a estrada fechada com correntes e o impediram de passar. Segundo esta fonte, os estrangeiros perguntaram-lhe o que ele queria naquelas terras. Indignado, este funcionário afirmou que achava estranha esta pergunta, uma vez que ele era brasileiro. Ele concluiu sua narrativa afirmando que as pessoas que circulavam livremente pela área estavam com GPS marcando a terra.
Existem documentos na Truman Library (Biblioteca Truman),onde estão os arquivos do presidente Harry Truman, na cidade de Independence, Missouri, nos Estados Unidos, provando que, em 1961, quando o mundo vivia sob a Guerra Fria, o então presidente dos Estados Unidos John Kennedy enviou uma missão ao Brasil de João Goulart, para elaborar um plano de desenvolvimento para o Nordeste.
Este plano pretendia elevar o padrão de vida dos latino-americanos, mas os especialistas em direito constitucional consideraram isso uma afronta à nossa soberania uma vez que os convênios previam interferência na política interna, infiltração nos movimentos sociais e ação de agentes de CIA. Kennedy afirmava que a Guerra Fria poderia ser perdida na América Latina, se o Brasil pendesse para a esquerda, uma vez que isso estimularia o surgimento de novas CubasnasAméricas.
Você pode afirmar que hoje os tempos são outros, você pode até suspeitar que eu tenha mania de perseguição. Mas eu estive lá, falei com varias pessoas e todos _ pessoal da limpeza, taxistas, vendedores das lojas _ repetem a mesma história. E a única coisa que eu peço é: vamos investigar essa história.
Roraima parece estar em pé de guerra graças à demarcação contínua que foi aprovada recentemente. A Polícia Federal foi chamada para retirar os arrozeiros das terras indígenas, mas uma parte dos índios não quer que os arrozeiros saiam, pois estes fazendeiros dão-lhes alguma assistência médica. O governo do estado também não quer que os arrozeiros sejam retirados.
Mas, afinal, quais as explicações para o suposto interesse dos estrangeiros por Roraima? Residiria este interesse na sua posição estratégica, distante duas horas da Venezuela? Será que a cobiça internacional enxergaria neste território de fronteira um ponto avançado para controlar a tendência de esquerda da Venezuela? Ou os interesses estariam nos minérios de ouro, diamantes, cassiterita e urânio existentes no rico subterrâneo de Roraima?
Apesar da falta de certezas, todos os dias mais estrangeiros chegam ao aeroporto de Roraima em missões para catequizar índios. Enquanto isso, essa invasão permanece desconhecida do resto do Brasil. Confesso que fiquei envergonhada com minha ignorância. Passei mal mesmo. Acho importante confessar isso. Fiquei com enxaqueca, suei frio, tive dores abdominais. Aquela complexa realidade me abalou fisicamente.
Diz o senso comum que onde há fumaça geralmente há fogo. Mas, depois de tantos e-mails denunciando virtualmente a tão temida invasão da Amazônia, estamos amortecidos. Parece que, por não encontrarmos na televisão ou nos grandes jornais as matérias sobre internacionalização de nosso território, não seja possível acreditar que este fato seja real. Fica-nos a impressão de que este discurso é fruto de brasileiros fantasiosos ou doidos _ afinal, dizem, se não está na mídia, não pode ser verdade.
Acho que o resto do Brasil deveria aproveitar as promoções das companhias aéreas e conhecer o monte Roraima, o Tepequem, etc. Esta região possui uma natureza privilegiada. Além do que, parece que neste novo milênio assistiremos à história do Brasil ser escrita na Amazônia.
Concluo este relato enfatizando que não fui a Roraima como ecologista, nem quero parecer neste momento da minha vida como militante política. Estou mais preocupada com meu crescimento profissional. Mas, o que vi, e principalmente senti, foi demais... Por isso, amigas e amigos mando este alerta para vocês. Convido-os para iniciar uma grande pesquisa bibliográfica e de campo sobre o tema. Só assim compartilhando em rede estas informações poderemos compreender os mitos e verdades que cercam nossa Amazônia. E, talvez, descubramos o que é possível fazer.
É preciso mobilizar jornalistas éticos, historiadores, geógrafos, advogados, sociólogos, antropólogos, estudantes _ enfim, todas as pessoas sensíveis às causas do Brasil, pois precisamos entender o que está ocorrendo por lá? Ajude-nos a ampliar este debate. Se ainda existem idealistas, vamos nos conectar e nos manter em rede para tentar acabar com a ignorância que envolve a Amazônia. Afinal, mais do que nunca, nesta era das tecnologias da informação e comunicação, podemos juntos, compartilhando informações, colaborar para a difusão de verdades e de luz.

Honra e glória da Mangueira

O olhar pagão, órfão da paixão carnavalesca, pode enganar, na observação do carro de som que regerá o hino verde-e-rosa. A princípio, estará faltando ele – mas só os incréus, que não professam a apaixonada religião mangueirense, sentirá a ausência de Jamelão. O maior intérprete da história do carnaval estará na Sapucaí, nos corações e nas almas de todos os componentes e torcedores da mais popular de todas as escolas. Vai dar até para ouvi-lo – basta acreditar.
A certeza foi expressa nas últimas semanas de preparação para a festa, pelo diretor Moacyr Barreto. "Jamelão somos todos nós", vaticinou, traduzindo à perfeição a importância do intérprete para a Mangueira e para o espetáculo. "Ele vai com a gente, como sempre foi".
A admiração transcende as fronteiras da Nação verde-e-rosa. Num dos ensaios técnicos que lotaram as arquibancadas da Sapucaí ao longo do verão, Neguinho da Beija-Flor – cuja fama e prestígio só são superadas pelo próprio Jamelão – fez do "esquenta" da escola de Nilópolis uma homenagem ao decano. Os componentes de uma das rivais e o público em geral cantaram felizes e emocionados "Exaltação à Mangueira". "Nosso mestre merece toda a nossa admiração", arrematou Neguinho, puxador há mais de 30 carnavais.
Os segredos da longevidade milagrosa, que permitiu a Jamelão conduzir a escola ao longo de décadas – capacidade que foge à compreensão da ciência -, ficam guardados com mestre, e mais ninguém. Na hora de falar, é homem de poucas e preciosas palavras (muitas vezes, pérolas do mais delicioso mau humor), com quem a comunidade carnavalesca conviveu sempre embevecida.
Ele vem de uma era mais romântica do samba, na qual prevalecia o talento. Nasceu lá o hábito de cruzar a avenida a madrugada inteira, passos lentos, copo de uísque na mão direita, observando as adversárias. "É claro que o birinaite ajuda também. Tem um monte de gente dizendo que beber faz mal, que atrapalha. Eu não acho", sustentava, para se livrar dos preocupados.
Jamelão nasceu José Bispo Clementino dos Santos, em São Cristóvão, foi engraxate e jornaleiro antes de tornar-se estrela da MPB. Poucos conhecem sua história, encastelada no silêncio e nos sorrisos bissextos. Na Mangueira, começou ritmista, até ser promovido ao posto de puxador – que ele, com a autoridade que o talento confere, elevou a intérprete.
O estilo deu cara e jeito à Mangueira, que, pela voz impecável do baluarte, transformou-se na gigante verde-e-rosa do carnaval. Em 2007, essa história continua. Sem Jamelão?
Deixe-se levar pela paixão, que ele aparece...
(publicado originalmente na Revista da Mangueira de 2007)*****
O último carnaval de Jamelão no alto do carro de som da sua Mangueira foi o de 2006. A escola levou à Sapucaí o enredo "Das águas do São Francisco nasce um rio de esperança", com um samba excelente, cantado pelo mestre no estilo luxuoso de sempre.
O quarto lugar foi uma injustiça. Naquele ano, que terminou com o surpreendente título da Vila Isabel, a Mangueira foi a melhor. Resultado conhecido, Jamelão, carrancudo como sempre, resmungou que tinham roubado a sua verde-e-rosa - como fazia todo ano, quando o título não vinha. Daquela vez, tinha razão.

Argentina e Cuba homenageiam Che

Argentina e Cuba comemoram hoje (14) os 80 anos do nascimento do guerrilheiro Ernesto Guevara (1928-67). Che, apelido dado pelo grupo do ex-ditador cubano Fidel Castro, nasceu em 14 de maio de 1928, em Rosário, na Argentina, mas sua certidão de nascimento é do dia 14 de junho do mesmo ano. Na Argentina ocorrem, entre diversas atividades, um encontro internacional de jovens e de centrais sindicais. Em Cuba, onde participou da revolução que, em 1959, derrubou o ditador Fulgêncio Batista, ajudando a instaurar o socialismo na ilha, artistas e intelectuais de diversos países foram convidados para contribuir para a produção ao Centro de Estudos Che Guevara. O revolucionário foi capturado, em 1967, em um acampamento da guerrilha, pelo governo Boliviano, onde foi torturado e executado.

sábado, 14 de junho de 2008

Chance aos domingos

Comentario meu--o lado melhor do Fausto, quando "chora", leia o artigo e constate.

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Dei-me conta de que amanhã é domingo, e antes de Vinicius me fazer mudar de idéia com seu sábado, o domingo sempre foi para mim o mais belo dia da semana. Minha mãe parecia mais jovem e bonita, meus irmãos mais camaradas, minha irmãzinha menos chata. Naquela época – anos 40 – se trabalhava aos sábados, mas, como nossa família (mais parentes agregados do interior) era grande, meu pai deixava meia-porta da barbearia aberta até mesmo aos domingos. Era uma senha para informar aos fregueses que ele estava trabalhando. Eventualmente, a polícia o pegava e lhe tascava uma multa por trabalhar em dia proibido. Então vinha a parte mais bela do meu dia. Meu pai, homem de pouco falar, me pegava pela mão, íamos pescar no Guaíba e sempre voltávamos com traíras, dourados, gramatões, piabas para o almoço. A mãe já teria comprado uma melancia enorme sobre a qual os pingos d’água do chuveiro fora de casa ficavam batendo desde as 10h para mantê-la fresca. À tarde, sessão dupla de cinema e à noitinha, quando o coração já não agüentava tanta felicidade, íamos soltar pandorga, que vocês aqui do Rio chamam de pipa. Éramos pobres, quase felizes, estudávamos em escolas públicas, roubávamos frutas dos quintais dos vizinhos. Depois disso, como diz o extraordinário poeta Chico Buarque de Holanda, só nasceu erva daninha no chão que ele pisou. Quando o sol ameaçava ir embora e o céu ficava vermelho como dálias sangrentas, me batia no peito de 6, 7 anos uma angústia muito dolorosa, que eu não sabia o que era, mas que o mundo, logo logo, me ensinaria.

Queda que os eleitores têm para os tolos por Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa

Só a audácia fruto de profunda desesperança poderia dar-me coragem para brincar com o título do famoso ensaio satírico de nosso maior escritor, Machado de Assis. Em “Queda que as mulheres têm para os tolos”, Machado descreve a acentuada queda que as mulheres têm pelos biltres, pelos estróinas, pelos frívolos e janotas, desprezando os homens de espírito, sérios, corretos, que preferem o silêncio às palavras fáceis da conquista apressada.
Ao longo do texto, Machado vai deixando por conta do leitor a conclusão: as mulheres hão de sempre preferir os tolos, ou amadurecidas por fracassos sentimentais, acabarão por preferir o homem de espírito ao sucesso do salão?
Tenho cá minha conclusão que, evidente, não interessa a ninguém, a não ser a mim mesma. O que interessa aos leitores de hoje em dia, é saber qual o motivo que leva os eleitores a preferirem os tolos. Parece uma das 7 pragas do Egito: “E Neste Início do Novo Século, Só Serão Eleitos Os Tolos”.
Os tolos são os grandes vitoriosos, de norte a sul, de leste a oeste. Prestar atenção no noticiário chega a ser um massacre. Não há um dia sem uma péssima notícia, um descalabro financeiro, uma confissão, uma acusação, um despautério. Os políticos que ocupam cargos em áreas sensíveis da vida nacional, ou estão lá porque foram eleitos, ou estão lá porque foram escolhidos pelos eleitos. Ninguém brota em cargos de mando nos três poderes.
Mais simpáticos, riso pronto, palavra fácil; comunicativos, acessíveis, convívio agradável, os tolos triunfam. Não dizem nada que aborreça o eleitor e prometem o paraíso aqui na terra e para logo. Ao eleitorado, oferecem a mão amiga e o bolso farto.
Interagem com a multidão como se dela fizessem parte, quando bem sabemos que a diferença entre o palanque e a platéia é maior que os oceanos que banham nosso planeta.
Estudando a obra de Machado, estou certa que ele não se ofenderia com minha audácia. Até ouso dizer que concordaria comigo: é maior a queda que os eleitores de hoje têm para os tolos, do que a queda que as mulheres de seu tempo tinham para com os sempiternos parvos.
Chegará a vez do homem de espírito? Você, eleitor, conclui.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Espionagem e crise política no Rio Grande do Sul

No dia 26 de maio o vice-governador do RS Paulo Afonso Feijó (DEM), recebeu em seu gabinete – conhecido como Palacinho – ao então Chefe da Casa Civil Cézar Busatto (PPS). Mais do que uma conversa entre executivos do mesmo governo, tratava-se de prosa informal entre um líder empresarial no cargo de vice e um operador político habilidoso. O debate poderia ser parte de qualquer congresso de ciência política. Busatto discorreu sobre o patrimonialismo e o botim ao Estado realizado pelos grandes partidos do Rio Grande do Sul. Feijó se mostrou indignado, em seu “papel como homem público”, com o modus vivendi das elites dirigentes gaúchas.
Se fosse outro o ambiente político, esta conversa seria uma a mais. Não foi. Na tarde de 6ª dia 6 de junho, dez dias após a gravação, a bomba midiática “era vazada”, estourando na Assembléia Legislativa já comovida pela CPI do Detran-RS. Um trecho do áudio foi ouvido de forma pública no parlamento, em meio ao caos político.
Busatto que passava de bombeiro a pivô da crise, falou o que todos sabem, abrindo margem para interpretações. O ex-presidente da Federasul procedeu de forma incorreta, porque gravou tudo, sem o conhecimento do interlocutor. É tão nefasta a espionagem como recurso político como é absurdo a cidadania ter de arcar com o sistema de espólio do reparto de cargos e orçamentos. Cada palavra de Busatto tem dupla interpretação e as versões são escandalosas. A diferença está na legalidade do patrimonialismo e na ação criminosa de organizações fraudadoras dos cofres públicos com empresas sistemistas terceirizadas. O clima de denuncismo “evolui” para a desconfiança estrutural, tornando-se crise política profunda.
Paulo Afonso Feijó afirmou para a mídia local ser possuidor de várias outras conversas com membros do governo Yeda. Assumiu que as gravações foram feitas no Palacinho e às escondidas. O vice declarou ter as armas para sangrar o governo do qual fez parte. A crise política se desenrola sem nenhum final previsível.
Bruno Lima Rocha é cientista político. (http://www.estrategiaeanalise.com.br/ / blimarocha@via-rs.net)

E o que era terrível ficou ainda pior

E o Brasil conseguiu, de novo, piorar algo que era absolutamente terrível. A tortura a colegas do jornal "O Dia", na favela do Batan, revelada este fim de semana, amplifica algo que quem milita ou se interessa pela área de segurança está cansado de saber: as milícias acabam com o tráfico, mas são ainda mais cruéis no trato com a população. Em nome de oferecer segurança, um punhado de outros serviços e de fechar as bocas-de-fumo, impõem o preço alto, alto demais, de um estado de exceção comparável às mais ferozes ditaduras. O resultado é a produção de mais e mais violência. Não resolve nada.
Na antevéspera do Natal de 2006, numa das maiores favelas do Complexo da Maré, a rua do comércio estava obviamente apinhada, quando, por volta de 16h, um carro preto, com os vidros pretos, parou bem no meio da multidão. Desceram três homens armados, encapuzados, de preto da cabeça aos pés. Carregavam, subjugado, um adolescente negro, algemado com as mãos para trás, ensangüentado de tanta pancada. O bando o pôs de joelhos, um dos algozes encostou a pistola na nuca do rapaz e, diante do olhar paralisado de milhares de pessoas, puxou o gatilho.
A cena é educativa para entender por que a milícia não resolve, nem vai resolver. Ninguém saiu melhor, mais tranqüilo, da cena na Maré. Muito ao contrário. No estado democrático de direito, a truculência não pode vigorar. Ainda que muita gente - internautas que freqüentam o blog, inclusive - defenda a ditadura das armas, os exemplos estão aí para ensinar quem está disposto a aprender.
Um detalhe da reportagem d'o Dia que quase passa despercebido, diante do festival de abjeta violência, exibe boa parte do mal que a milícia causa aos abandonados moradores das comunidades populares: mulher sozinha não pode sair à noite de casa. Está nas regras dos costumes impostos pelos ditadores marginais. E, em pleno Brasil do século XXI, alguns lugares adotam práticas medievais, comuns a regimes de totalitarismo religioso, aqueles condenados mundo afora. Só para se ter noção do tamanho do atraso.
Mas o mais desesperador é constatar que, em pelo menos 78 favelas (os números mais aceitos pelos especialistas no tema), a polícia conseguiu, sim, acabar com o tráfico. É isso mesmo: o que parecia impossível sequer foi difícil, jogando por terra todo aquele blablablá de que os traficantes eram invencíveis, as favelas, inexpugnáveis, etc. Só que não foi pelo bem estar da população ou pelo cumprimento da lei. Foi para os homens da lei se travestirem de bandidos e dominar as comunidades em troca de dinheiro.
Os repórteres correram risco excessivo - desde a morte do grande Tim Lopes, seis anos atrás, os jornalistas cariocas tinham decidido não ameaçar a própria vida em comunidades conflagradas - para mostrar um cenário de brutalidade que conta com a tolerância e cumplicidade dos governantes. Faz tempo que os inquilinos do poder no Rio mais atrapalham do que ajudam na questão da segurança. E a milícia, para eles, é uma mão na roda, porque ajuda a controlar comunidades inteiras, com as quais os governantes não querem se preocupar.
Houve quem fizesse pacto com bandido, abençoando determinados crimes desde que outros, mais próximos da elite, não fossem cometidos, criando uma falsa sensação de paz. Há quem prefira "sentar o dedo" nas comunidades populares, achando que vai resolver. Não vai. Bem que o governador Sérgio Cabral podia, no intervalo entre uma viagem e outra, se debruçar sobre o assunto. Mal não faria.

domingo, 8 de junho de 2008

Primeira-dama: apelo em Bérgamo

O barulho causado em Roma pelo presidente Lula, em sua cruzada mundial na defesa dos biocombustíveis contra os ataques de ímpios e infiéis, tirou o foco esta semana de relevante noticiário incidental: o da visita de dona Marisa Letícia à Bérgamo e Palazzago, cidades da Lombardia - região de partida da imigração para o Brasil do bisavô e outros antepassados familiares da primeira-dama. O roteiro deveria ser cumprido com "máxima discrição", por recomendação de Brasília, mas não foi bem assim. Além de festa ruidosa, o prefeito de Bérgamo e o presidente do conselho da Província guardavam outra surpresa: uma carta com pedido de interferência da ilustre visitante para esclarecer a morte de Nicholas Pignataro, em Alagoas. O corpo do Italiano, 20 anos, crivado de balas, foi encontrado em terreno baldio de Barra de São Miguel, cercanias da Praia do Francês, badalado paraíso de turistas europeus no Nordeste. O caso é acompanhado com interesse e amplos espaços na imprensa italiana. Nicholas foi enterrado em vala comum do cemitério de São Miguel, sem identificação, ao lado do corpo de um jovem vendedor de DVDs e CDs piratas. Crescem suspeitas e interrogações deste caso de polícia, que a partir desta semana ganhou também conotações política e diplomática.
Ainda com o presidente Lula e a primeira-dama na Itália, autoridades do governo entraram no circuito Roma-Brasília para acompanhar as investigações e adotar providências relacionadas ao "estranho caso de desaparecimento e morte do rapaz de Bérgamo", como qualificam diários do porte do Corriere della Sera e La Repubblica. O interesse cresceu também na imprensa nordestina, depois dos fortes ruídos produzidos pelo documento entregue a Dona Marisa, quando o caso parecia marchar celeremente para o esquecimento e a impunidade. O cônsul da Itália em Recife se deslocou para Maceió, para tomar providências quanto ao traslado do corpo, além de seguir as investigações mais de perto. Ainda assim, segue o bate-cabeça de dúvidas e informações desencontradas, desde que o corpo de Pignattaro foi achado na "fossa comune" , como descreve um jornal romano. Na mesma vala, o cadáver do jovem vendedor de praia, sugestivamente identificado como "Pixote" nos registros policiais. Exumado, e finalmente identificado, o corpo do italiano foi encaminhado para o Instituto Médico Legal de Recife, de onde deverá seguir, depois de concluídos todos os trâmites periciais e burocráticos, para sepultamento em sua região de nascimento. Um coquetel de suspeitas sobre as causas é servido à farta: prostituição, tráfico de drogas, execução policial em queima de arquivo... ...Até a hipótese de crime passional, com envolvimento da amiga brasileira em cuja casa Nicholas estava hospedado, na fantástica praia alagoana, a cerca de 35km do local onde o corpo foi encontrado. Suspeita que a família do rapaz não só recusa, mas contesta com veemência. O jovem saiu da casa no dia 17 de maio, e não mais foi visto com vida. O cônsul Maximiliano Lagi diz: "Nicholas estava de férias no Brasil e, em certo ponto, fez amizade com um vendedor ambulante de DVDs e CDs". Tatiana Oliveira, a amiga em cuja casa o rapaz italiano estava hospedado desde março, garante que durante todo esse tempo, jamais viu Nicholas usar drogas. Dois dias depois do desaparecimento , ela acionou a polícia com autorização da família do rapaz na Itália, percorreu prontos-socorros e hospitais, participou das buscas e reconheceu o corpo , ao ver uma fotografia no IML de Maceió. "O italiano estava no lugar errado, na hora errada", simplificam agentes policiais em declarações publicadas nos jornais alagoanos. O diário italiano "La Repubblica" não vê a história de forma tão óbvia e simplificada. Prefere levantar questões que ainda aguardam respostas. Por exemplo: a polícia brasileira diz que o italiano não portava nenhum documento quando o corpo foi encontrado em terreno baldio do litoral alagoano. "No entanto, deveria parecer estranho e levantar suspeitas um rapaz branco, bem vestido, de trato europeu, achado morto em uma zona de periferia onde vivem principalmente negros. Em um país civilizado se faz indagações, que, neste caso, não foram feitas", pondera o advogado da família Pignataro, em entrevista ao influente jornal italiano. Daí a carta entregue a dona Marisa, e os apelos na viagem sentimental às cidades dos antepassados da primeira-dama . As interrogações em torno da morte do italiano Nicholas e seu amigo brasileiro, Pixote, talvez recebam, finalmente, respostas convincentes e verdadeiras.//////Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitors.h@ig.com.br

Moralismo ou Moralidade?

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa -Jornalista-7.6.2008

Em um de seus mais espantosos arroubos, disse o presidente: “Pelo falso moralismo deste país, se parte do pressuposto de que um presidente ou um governador assinar um contrato com um prefeito é beneficiar o prefeito. Ou seja, é o lado podre da hipocrisia brasileira, em que você pára por um determinado tempo porque causa suspeição”.
Faz falta um conselheiro que lembre ao presidente Lula que é melhor pensar cinco vezes antes de falar. Não é vergonha não ter tido oportunidade de estudar em criança. Vergonha é não ter estudado até hoje, não se informar, não perguntar antes a quem sabe mais. Custava perguntar: “Estou com desejos de dar um fora nos juízes do TSE. Penso em chamar a Lei Eleitoral de falso moralismo. O que é que você acha?”
Custo a crer que não haja um bom dicionário no Planalto. Para mostrar ao presidente a diferença entre moralismo e moralidade. “O senhor com certeza quer dizer que a nossa Lei Eleitoral é de moralidade falsa?”.
No que ele concordasse, entusiasmado, o assessor devia explicar-lhe que moralidade é a qualidade do que é moral. E que “moral é o conjunto de regras de conduta consideradas como válidas, quer de modo absoluto para qualquer tempo ou lugar, quer para grupo ou pessoa determinada”. Bem ensinado, creio que o presidente certamente compreenderia que a Lei Eleitoral ainda é o último bastião antes da esbórnia total.
Creio? Sim, porque um fio de esperança ainda me faz pensar que isso é possível. Baseada em que? Em sonhos, em vontade de ver o Brasil superar essa má fase. Porque nada, na verdade, me leva a crer que Lula tenha o bom senso de se informar e ouvir. Sua atuação em Roma, lastimável, tira-me toda a capacidade de esperar com fervor. Assim mesmo, espero.
O Lula anda extrapolando. Leva seu palanque esquisito até para o exterior. Arma a geringonça mesmo em conferências internacionais. Esquece que não está mais na porta de uma fábrica e parece não saber que elegância não são ternos e gravatas de grife, cabelos tratados e pele escovada. Elegância é sobretudo boas maneiras.
Ele agrediu os outros países ali representados, xingou a todos de estarem com os dedos sujos de óleo e carvão, além de acusá-los de querer meter o dedo em nossa água benta! E declarou, como de outras vezes, que “conosco, não, violão”! Ninguém vai mandar na nossa Amazônia. Ninguém vai dar ordens ao Brasil, foi o que disse.
Perfeito se não fosse o detalhe dele querer mandar nos outros. E com palavras fortes.
Alguém precisa explicar ao Lula que até a Revolução Industrial o mundo pensava que os recursos naturais eram inesgotáveis. A noção de que o meio ambiente deve ser preservado, sob pena das novas gerações virem a sofrer catástrofes pavorosas, só recentemente se infiltrou nas mentes das pessoas instruídas e civilizadas. Em termos históricos, foi ontem.
Cuidando de nossa soberania, devemos procurar aprender com os erros dos outros e ouvi-los. Mas antes é melhor cuidar do nosso quintal. Mostrar que somos capazes de respeitar nossas leis, inclusive e sobretudo a Lei Eleitoral, para que eles finalmente acreditem que somos capazes de cuidar do que é nosso. Mas sempre com bons modos, se faz favor.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Marina Silva: política ambiental se faz com o coração

Ela é ex-seringueira, nascida em Bagaço, a 70 km de Rio Branco, capital do Acre. Eleita em 1994 a senadora mais jovem do país, com 38 anos, Marina Silva ficou cinco anos, quatro meses e 13 dias no governo Lula à frente do ministério do Meio Ambiente. Em entrevista ao Blog, especial pelo Dia Mundial do Meio Ambiente, ela ensina: “política ambiental não se faz com uma melancia na cabeça. Se faz com muito compromisso no coração, boas idéias na cabeça e uma boa capacidade ouvir”.
Nesta entrevista, Marina Silva comemora as conquisas do Brasil na área ambiental e aposta que se "soubermos aproveitar nossa biodiversidade", podemos sair na frente. Também ressalta que “a crise ambiental no mundo deixou de ser um problema de ambientalistas para ocupar a cabeça de todos”. Ela acredita que o Brasil passa hoje pelo o que chama de reflexão civilizatória: "ou de fato produzimos mais com menos impacto na natureza, ou se a gente vai querer continuar a reproduzir nossa existência material causando mais malefícios à natureza. E aí vamos inviabilizar nossa própria existência", alerta a ex-ministra.
Filiada ao PT e militante política desde os anos 80, quando ao lado do amigo e ambientalista Chico Mendes, já lutava pela preservação da Amazônia, Marina Silva rejeita qualquer hipótese de internacionalização da Floresta, diz que retroceder na política indigenista do Brasil seria “nos empobrecer” e alfineta o governador de Mato Grosso, Blairo Maggi (PR): “existem aqueles que se movem pelo coração e pela razão. E pelo menos aqueles que não se movem pelo coração deveriam se mover pela razão”.
Comemoramos hoje o Dia Internacional do Meio Ambiente. O que a senhora comemora hoje e que há 15, 20 anos parecia um sonho impossível?
A grande comemoração que se pode ter usando o referencial da morte do Chico Mendes [em 1988] é a dimensão e a densidade com quê se trata hoje a questão da Amazônia. Há 20 anos, Chico Mendes era uma voz quase que isolada dizendo que a floresta era muito melhor em pé do que derrubada. De que era possível um processo de desenvolvimento que não era aquele de destruir a floresta para plantar capim e criar gado. (...) Se fosse me imaginar naquela época e hoje, é um avanço abissal.
Quais os desafios do Brasil para os próximos anos?
O Brasil tem 45% de matriz energética limpa. E ele deve continuar com uma economia descarbonizada, mas precisará de uma proposta de matriz energética que incorpore a diversidade. E não busque apenas alternativas que aparentemente possam parecer panacéias à primeira vista. (...) Nos últimos três anos tivemos 59% de redução do desmatamento. Isso significou quase um bilhão de toneladas de CO2. Isso representa 14% de tudo o que deveria ter sido reduzido pelos países desenvolvidos até 2012, desde o período de compromisso do protocolo de Kyoto.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Relaxa & Goza!


A arte de cultivar inimigos na política

A escolha dos nossos inimigos deve ser tão criteriosa quanto a escolha dos amigos. Amigos e inimigos não devem ser eleitos ao bel prazer ou desprazer do momento quando se trata de política. Aliás, em política não devemos ter amigos e inimigos. Devemos ter aliados e adversários. Algumas vezes, adversários se tornam amigos, como foi o caso de Luiz Eduardo Magalhães com José Genoíno e Miro Teixeira.
Às vezes, os amigos de sempre – como, por exemplo, José Serra e Luiz Eduardo Greenhalgh – tornam-se adversários políticos, militando em lados opostos. Mais recentemente, há o exemplo da aliança entre tucanos e petistas na disputa pela prefeitura que tem tudo para tornar-se um clássico. A associação entre duas jovens lideranças, já aprovada pelo eleitor (pois, informalmente eles já trabalham juntos há anos), resultou num software administrativo de boa qualidade. Mas até o que dá certo em política acaba prejudicando os interesses de alguém, que usa seu poder para destruí-lo.
A escolha de amigos e inimigos, aliados e adversários é a chave do sucesso na política. Lula sempre escolheu bem. Ao mesmo tempo que atacava as elites e o FMI, sempre conversou bem com o sistema financeiro e nunca deixou de ser alguém confiável para eles. Ao atacar as elites, ia contra algo que é disforme, sem rosto, incompreensível para as massas. Ao investir contra o FMI, agredia o inimigo externo. Aquele que sempre é o responsável pelas nossas mazelas, já que em países como o nosso, a autocrítica é algo praticamente inexistente.
O fato é que o descolamento da amizade da prática política tem a ver com os eixos centrais da prática política moderna. Alguns deles são óbvios: a necessidade de vencer sempre ou de, pelo menos, transformar uma derrota em algum ganho político. Assim, vale tudo. Desde trair amigos e fazer alianças com adversários. Política figadal é barbárie. Política racional também. Uma e outra são absolutamente nocivas. Ainda que indispensáveis nesta altura da vida.
Considerando o quadro, barbárie e cinismo são correntes na política. Ainda que o cinismo represente uma evolução, já que pode evitar, por exemplo, que se fira ou mate alguém por causa da política. A política, mesmo sendo humana, é anti-Humanidade. Ou, pelo menos, o custo de sua evolução, mata mais do que todas as guerras pois rouba recursos das políticas públicas e promove a ineficiência dos serviços públicos.
Para não terminar levando meu leitor à depressão, duas palavras finais. A primeira: o maior inimigo na política é você mesmo. A sua incapacidade de ler adequadamente o processo, a fragilidade mental que lhe permite acreditar em embusteiros e mistificadores de vários calibres, entre outros defeitos e vícios. A soma das fragilidades individuais, minha, sua, de seus amigos, de sua família, de seus colegas de trabalho ou de estudo, faz com que o avanço do país seja lento, caro, disperso e ineficiente.
A outra palavra final é a de que, apesar de tudo e do caráter iconoclasta de minhas observações, não sou adepto da teoria da escolha racional de James Buchanan, que lhe valeu um Nobel em 1986. Acredito que exista interesse público, altruísmo, honestidade, desprendimento, moralidade na política, ainda que em doses homeopáticas. Sendo assim, nem tudo está perdido. Ainda que, como bem disse Shakespeare, tratando-se da natureza humana, é melhor estar preparado para o pior.
Murillo de Aragão é mestre em ciência política e doutor em sociologia pela UnB (Brasília) e presidente da Arko Advice – Análise Política (Brasília – São Paulo – Porto Alegre).

quarta-feira, 4 de junho de 2008

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Conselheiro do TCE foi à Copa da França bancado pela Alstom

Robson Marinho, ex-secretário do governo Covas, deu parecer no tribunal sobre contratos que envolviam empresa/////////////Eduardo Reina e Sonia Filgueiras
Robson Marinho, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE), coordenador da campanha eleitoral de Mário Covas em 1994 e chefe da Casa Civil do governo do Estado de 1995 a abril de 1997, viajou para a França em 1998 para assistir aos dois jogos finais da Copa do Mundo de futebol com despesas pagas por empresas do Grupo Alstom, cujos contratos com a Eletropaulo e o Metrô ele avaliou depois. Segundo investigações do Ministério Público da Suíça, a Alstom é suspeita de pagar propina a integrantes do governo tucano paulista da época para obter contratos e aditivos.A citação "R.M." , identificando as letras como um "ex secrétaire du governeur", aparece em anotações apreendidas na Alstom pelo Ministério Público da Suíça. "Realmente, nesse período (do governo Covas), R.M. sou eu. Mas nunca tive ingerência em contratos firmados pelo governo. Eu fazia a coordenação política na Casa Civil, tinha relacionamento com deputados, prefeituras, partidos e sociedade civil. Quem fazia o relacionamento com empresas era a Secretaria de Governo", disse ontem Marinho ao Estado.Sobre a viagem para a Copa com despesas pagas pela Alstom, ele disse: "Sou muito amigo de uma pessoa que foi diretora da Mecânica Pesada, do mesmo grupo, que ficava em Taubaté. Mas ele morava em São José dos Campos, onde fui prefeito". A justificativa para aceitar a "cortesia" é que essas ações são normais. "Tanto que na Copa de 2014, no Brasil, com certeza a Vale do Rio Doce também vai trazer vários europeus para assistir aos jogos aqui, com tudo pago." Marinho admitiu também que visitou empresas do Grupo Alstom na Europa: "Visitei a Alcatel, não posso negar".Além das ligações com o governo Covas na época em que, segundo as investigações, foram negociados contratos que teriam rendido "gratificações ilícitas" cobradas a partir do superfaturamento dos preços e a contratação de consultorias de fachada, Marinho admitiu conhecer dois personagens do caso Alstom. Sabino Indelicato, dono de uma empresa que teria recebido parte das comissões da Alstom, foi secretário de Obras quando Robson Marinho era prefeito de São José dos Campos (leia nesta página).Outra pessoa citada pelos investigadores suíços que é conhecida de Marinho é o consultor Romeu Pinto Júnior, que aparece como dono da offshore MCA Uruguay Ltda. A MCA recebeu da Alstom o equivalente a R$ 7,3 milhões em contas na Suíça e em Luxemburgo. "Romeu eu conheço de relações sociais em São Paulo. Mas não tenho nenhuma relação de amizade. Não sei o que ele faz. Não o vejo há uns cinco anos", disse. Marinho disse que, no TCE, nunca viu nada de especial nos contratos da Alstom com o governo. "Só quem não conheceu Mário Covas seria capaz de fazer uma ilação desse tipo, envolvendo esquema de propinas a seu governo."

terça-feira, 3 de junho de 2008

Lula: Chegou a hora de tomarmos atitudes

De Roma, o presidente Lula afirmou que irá pedir, na Conferência sobre segurança alimentar da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o fim dos subsídios agrícolas praticados por países ricos. Ele defendeu ainda o aumento da produção de alimentos.
- Nós temos terra no mundo, nós temos água, nós temos sol em vários países. É importante, então, que a gente comece a estabelecer uma estratégia de melhorar a produção de alimentos, aumentar a produção e, sobretudo, você tirar os subsídios na agricultura dos países mais ricos que tornam praticamente impossível do mundo pobre vender comida à Europa - afirmou, em seu programa semanal de rádio.
O presidente citou os programas Fome Zero e Bolsa Família, dizendo que o Brasil vem alertando os outros países desde 2003 sobre os programas que o seu governo tem executado. "Chegou a hora de tomarmos atitudes", discursou. A atitude a que se referiu o presidente foi justamente o fim do subsídio agrícola.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

A lista da vergonha

O Brasil do B apresenta a lista dos parlamentares que acompanham Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, como alvos de investigação nos últimos três anos.
Você aí deveria imprimir a relação e guardar junto com o título de eleitor.

"Brasil é meu Bric favorito"

Do economista-chefe do banco Goldman Sachs, Jim O'Neill, criador há seis anos e meio do acrônimo Bric ( formado por Brasil, Rússia, Índia e China ) , hoje, na "Folha" :
" Nos primeiros cinco anos, o Brasil foi um desapontamento, mas no sexto ano o país mostrou evidências de que o ritmo de crescimento está aumentando. Hoje, eu diria que o Brasil é a economia mais interessante entre todos os outros Brics, especialmente pela perspectiva dos investimentos. Digo isso por três motivos: o Brasil não está excessivamente explorado do ponto de vista do mercado de ações, como Índia e China. O Brasil também dá sinais de acelerar o seu potencial de crescimento e possivelmente pode chegar a taxas de 4% a 7% ao ano. Por último, há o fator favorável de as agências de classificação de risco estarem melhorando as notas do país. O Brasil tem sido o meu Bric favorito desde o ano passado e continua assim. Em termos cíclicos, as oportunidades de investimento no Brasil estão melhores do que nos outros Brics. A China está caindo de uma taxa de crescimento próxima a 12% para algo mais perto de 8%. A Índia também se desacelerou, embora ainda não haja sinais de desaquecimento na Rússia, especialmente em virtude da influência dos preços das commodities. Por isso é que vejo a situação do Brasil como interessante, já que a sua economia se acelera enquanto a maior parte das outras tende a esfriar daqui para a frente."

O homem resignado by Adriana Vandoni

Acostumei-me com o conceito de que o brasileiro é um povo pacato, passivo. Acostumei-me a acreditar que a reação do brasileiro dependia de uma massiva provocação da mídia, caso contrário, se não fosse instigado a reagir, o brasileiro aceitaria qualquer coisa, qualquer desatino dos governos, afinal, ele é um desprovido de impetuosidade. Pensava assim, aliás, passivamente por anos acomodei-me com esta visão.Mas chegou Lula e seu discurso tosco e grotesco arrebanhava multidões de fiéis como um beato qualquer que prega ser o novo Jesus Cristo. A explicação da passividade passou a não me satisfazer. Queria entender porque o brasileiro aceita um presidente que admite ter mentido, que zomba dos que querem ser honestos e dignos. Um presidente que ao caminhar deixa um enorme rastro, com companheiros suspeitos de crimes e até de assassinatos? Precisava entender. Sabia apenas que, segundo pesquisas eleitorais, a camada populacional responsável pelas eleições de Lula é a com menor grau de escolaridade.Foi quando, numa conversa informal, soube de um grupo de médicos de uma universidade paulista que estudava a forma de raciocínio e o comportamento do cérebro em relação ao grau de escolaridade. Humm, aquilo me interessava! Conversei com os pesquisadores e, num resumo superficial, um dos médicos me explicou que, segundo o estudo, quanto menor o grau de escolaridade, mais concreto é o pensamento. Não existe o pensamento subjetivo nem de longo prazo. Há apenas o imediato, o necessário, o essencial. O pensamento de um indivíduo sem escolaridade vai do acordar ao tomar banho. Do comer ao fechar uma porta. São pensamentos concretos de ações ou tarefas a serem realizadas e necessidades fisiológicas a serem saciadas. Os projetos se limitam à refeição do dia seguinte.Apesar desse estudo nada ter a ver com a política, concluí que o eleitor de Lula é fisiológico e como suas aspirações e necessidades são imediatas e concretas, garantir a esses indivíduos a refeição do dia seguinte era o suficiente. Não pensa no médio e longo prazo.Bem, por esse estudo o brasileiro não é pacato, é ignorante. Chocante, mas era a explicação encontrada pelos pesquisadores, e ia além do simplesmente “pacato pela própria natureza”.O tempo passou e essa teoria que parecia tão bem se encaixar aos eleitores de Lula, não era suficiente para explicar a aceitação de tantas aberrações cometidas por políticos que roubam dinheiro público e são absolvidos pela própria população roubada.Incomoda-me não ouvir uma única voz de indignação. Mas peraí!, o silêncio não vem dos eleitores de Lula, daquele indivíduo sem escolaridade. Não é desse indivíduo que se espera uma reação, afinal, os crimes financeiros e improbidades administrativas são complexos demais para a compreensão desse cidadão.Elaborei algumas teorias, mas era preciso confirmá-las. Foi ai que conheci Garibaldi, um motorista de taxi de Fortaleza que me trouxe a informação para confirmar a minha suspeita.Comentei com Garibaldi sobre o “vôo da sogra”, do governador do Ceará, que viajou para a Europa em jatinho particular pago com dinheiro público. Garibaldi disse: “coitado do governador, a oposição pegou no seu pé!”.Para Garibaldi é normal Cid Gomes ter se encantado com o poder, é razoável que ele queira viajar em um jato fretado. É certo ele ter comprado um luxuosíssimo carro apenas para lhe atender quando está em Brasília.Garibaldi não é um cabo eleitoral de Cid Gomes, tem estudo, casa própria, seus filhos estudam e é uma pessoa bem informada que lê jornais. Essa sua postura vai além de Cid Gomes. Garibaldi elogiou e defendeu outros políticos da região, que são de grupos antagônicos ao do governador e tão ímprobos quanto. Resolveu desviar por um caminho para me mostrar as mansões desses políticos como se fossem estrelas de cinema. Para ele pouco importava se a fortuna havia sido construída com dinheiro roubado. Eram semi deuses, merecedores de toda a honra e toda a glória.Garibaldi tem ambições e pensa no futuro, mas não questiona a sua posição na nossa sociedade, nem a forma como aqueles tinham conseguido construir aquelas mansões.Garibaldi é o retrato de um homem resignado. O homem que eu procurava. É esse o indivíduo que suporta qualquer mal sem se revoltar, sem esboçar reação. Esse indivíduo não questiona os atos, pois para ele os detentores do poder possuem licença até para roubar, se assim desejarem.Ele nunca se perguntou se pode ou não um dia chegar a outro patamar social, ele apenas segue a vida. Resignado.Esse é o homem brasileiro. Resignado. Adriana Vandoni é economista, especialista em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas/RJ. Professora universitária e articulista do Jornal Circuito Mato Grosso. Site: www.adrianavandoni.com.br