sábado, 31 de maio de 2008

Dante Alighieri e a trágica comédia

Na bela experiência da Divina Comédia (que de comédia não tem nada e sim tragédia, horror, crime, culpa e castigo), Dante, antes de descer ao inferno, examina o limbo, espaço onde permaneciam aqueles que se recusaram a admitir Deus e suas leis.
Acompanhado pelo poeta Virgílio, por sua musa Beatriz e logo por São Bernardo, começa a descida ao inferno, primeiro livro da Comédia. Lá está prevista uma trajetória e um encontro com as pessoas que transgrediram as leis de Deus e seus preceitos, por não terem praticado as virtudes cardeais: força, prudência, justiça e temperança, em conjunção com outras virtudes teológicas: fé,esperança e caridade, virtudes essas que conduzem os homens a Deus.
Um fato interessante e atual, como toda a Divina Comédia é que no trajeto da descida ao inferno, Dante observa com surpresa, dor e às vezes misericórdia os tipos humanos que se encontram nos vários estágios. Essa narrativa belíssima é contada em cânticos, segundo o rigor da feitura poética e de uma maneira dinâmica que aos olhos e sentimentos estéticos de quem lê parece um roteiro cinematográfico.
Pois bem, vejamos os tipos de personalidades e caráteres humanos que se descortinam: Os ignavos, os luxuriosos, os gulosos, avaros, iracundos e rancorosos, os tiranos, assaltantes, gastadores, usurários, aduladores, traficantes, hipócritas, ladrões, maus conselheiros, falsários e tantos outros. Esse é o Inferno de Dante, ou melhor, o inferno que Alighieri colocou em metáfora que se atualiza desde o ano 1277 até 2008 e quem sabe por esse tempo vindouro afora. Não me espanta (ou espanta?) e penso também ao leitor, que estamos falando de um aspecto atual do nosso Brasil. O inferno dantesco é aqui.
Lembram de alguma coisa, recordam dos mensalões, da ganância desvairada de alguns membros e grupos dos governos, grupos famigerados por ganhar e acumular em demasia, algumas facções de empresários, principalmente banqueiros, e como não pode ser exceção, grupos, quadrilhas de políticos (defensores do povo?) tirando proveito de medidas provisórias, CPMFs, distribuindo verbas para construções imaginárias, beneficiando grupos construtores e, neste exato momento, querendo arrecadar mais impostos, racionalizando, como ouvi esta semana no Plenário do Congresso: "A necessidade da nova CPMF é vontade do povo, afinal as pessoas precisam ser atendidas, tratadas, vacinadas e imunizadas", como se isso tivesse que ser tirado do bolso da população sufocada pela carga tributária?
Meus leitores, talvez nunca tenhamos tido um Ministério tão competente como o da Saúde, com um ministro adequado, ou seja, um sanitarista e não alguém indicado por razões político-partidárias, sem experiência e competência. Será que o montante de milhões enviados para o Ministério da Saúde atravessará a Esplanada e chegará em mãos do Dr.Temporão, ou somente chegarão algumas verbas e a maior parte será distribuída para facções de grupos do Inferno de Dante?
Já vimos este filme e ficamos, nós, a população, feito "gato escaldado com medo de água fria". Penso que saúde é um direito e não um bem de consumo, daí é preciso considerar e respeitar as virtudes celestiais, caso contrário a ganância, a gula, a espoliação e o "crescimento às expensas do assalto ao povo" irão preponderar sobre o amor, o respeito, a consideração, a generosidade e a capacidade da política de ter sua função social e não perversa.
Ministro Temporão, cuide da verba, antes que algum aventureiro ponha a mão. E se una à nova edição melhorada e sul-americana do Ministro Indiana Jones do Ambiente e não permitam roubarem e desviarem, mais uma vez, o dinheiro da saúde da população (infelizmente parece que a medida provisória vai ser aprovada).
O leitor pode ficar surpreso: o que um psicanalista tem a ver com esses fatos? A psicanálise contribui com suas pesquisas sobre o ser humano no sentido de resgatar os sentimentos recalcados de amor, generosidade e respeito pelos outros com compromisso com a verdade e a ética.
Freud, tal como Dante, se descesse ao nosso país, desenvolveria mais prática de psicanálise de grupos institucionais, além de análise individual para todos, mas o SUS, ao contrário dos governos europeus, não subvenciona terapia.
Manter a ignorância, os asilos e as classes oprimidas das periferiais não proporcionam crescimento mental e liberdade de expressão, determinando uma forma de controle das maiorias exploradoras e dos governos controladores contra mudanças transformadoras na sociedade.
Texto de Carlos Almeida Vieira, psicanalista, médico e clarinetista.

sábado, 24 de maio de 2008

A política, segundo Jefferson Péres, Senador do Brasil (PDT)

Violência e injustiça social:
- Nós vivemos numa sociedade cada vez menos solidária. Desagrega-se a estrutura familiar. As antigas e saudáveis relações de vizinhança desapareceram. O Estado, entranhadamente, é corrupto. Eu sou um pico nevado, mas contido. A minha erupção é interna, mas creia que sou uma pessoa profundamente indignada também. Essa é uma sociedade hipócrita, que só reage à violência quando ela chega à classe média e sente a violência explícita que põe em perigo ela mesma, mas jamais se indigna quanto à violência silenciosa. (05/11/1999)
- "Ser de esquerda é ter a permanente capacidade de se indignar contra todas as formas de injustiça." Aí, então, sou tão esquerdista quanto vossa Excelência, senadora Heloísa Helena (Psol-AL). (05/11/1999)
Governo FHC: - Será profundamente triste que o Governo Fernando Henrique Cardoso, nos seus dois últimos anos, termine dessa maneira, um Governo abafador de investigações, um Governo que, por imprevidência, por falta de planejamento, deixou o País mergulhar em uma crise energética e o Governo que não leva em conta a Região Amazônica porque não tem uma política para a mesma. Infelizmente, vamos ter - tudo indica - um melancólico final de Governo para alguém que assumiu o Poder despertando tantas esperanças no povo brasileiro. (21/05/2001)
Desmatamento da Amazônia: - A Amazônia não será internacionalizada coisa nenhuma, nem vamos perdê-la. O que ameaça a Amazônia não é a cobiça internacional, é a cupidez nacional, que está devastando a floresta em um ritmo alucinante, com a inação, com a inércia das autoridades federais, estaduais e municipais. (02/04/2003)
O Mensalão:
- A vida pública para mim não é jogo de futebol, com duas torcidas: uma querendo que o Flamengo vença mesmo com o atacante fazendo gol com a mão e a outra querendo que o Fluminense ganhe mesmo quebrando a perna do zagueiro adversário. Eu visto a camisa do PDT, mas não quero ganhar assim. Não quero ganhar fazendo pênalti. Eu só quero a verdade. Não me venham dizer que no Governo Fernando Henrique Cardoso eu não queria CPI. Assinei todos os requerimentos de criação de CPIs. Quero saber todas as implicações do caso Waldomiro Diniz. O que há por trás disso? Quero saber todas as implicações do caso Santoro. O que há por trás disso? Acho que a Nação brasileira quer saber. (01/04/2004)
A crise Ética no governo Lula:
- O Governo atual perdeu, definitivamente, a compostura. Mil dias de Governo Lula! Mil dias de um governo que 53 milhões de brasileiros elegeram para começar o processo de transformação deste País. É este o Brasil novo que este Governo nos prometia. Pela primeira vez na vida votei no Sr. Luiz Inácio Lula da Silva. (...) O Governo está sendo responsável, graças, talvez, à atuação isolada, quase heróica, do Ministro Antônio Palocci, na condução da política macroeconômica, mas, ao reverso do que eu imaginava, o Governo mergulha fundamente numa crise moral da qual ele não vai mais se levantar. (28/09/2005)
- Se há três anos alguém me dissesse que o Governo Lula seria isso, eu teria chamado a pessoa de louca. É curioso isso. Votei no Lula com certo temor de que ele fizesse besteira na economia, bobagem na economia, mas tinha a certeza de que ele seria corretíssimo do ponto de vista ético. E houve o contrário. (28/03/2006)
Os Sanguessugas: - Como se não bastasse o valerioduto, com seus mensalinhos e mensalões, como se não bastasse a absolvição da grande maioria dos Deputados envolvidos naquele escândalo, surge agora o escândalo das ambulâncias. Cheguei aqui há onze anos e sempre ouvi falar em esquemas desses. Nunca os denunciei, porque não tenho provas, não tenho indícios, não faço denúncias vazias nem acusações levianas. (10/05/2006)
O prestígio do Congresso:
- Vejam que País é este. Estamos aqui com seis Senadores em pleno mês de agosto, porque estamos em recesso branco. Estamos aqui no faz-de-conta. Este é o País do faz-de-conta. Estamos fingindo que fazemos uma sessão do Senado, estamos em casa sem trabalhar. Tenho quatro anos de Senado. Não me candidatarei em 2010, não quero mais viver a vida pública. Vou cumprir o mandato que o povo do Amazonas me deu, não vou silenciar. (30/08/2006)
- A classe política, nem se fala, essa já apodreceu há muito tempo mesmo. Este Congresso que está aqui, desculpem-me a franqueza, é o pior de que já participei. É a pior legislatura da qual já participei. Nunca vi um Congresso tão medíocre. Claro, com uma minoria ilustre, respeitável, a quem cumprimento. O meu desalento é profundo. Infelizmente, eu gostaria de estar fazendo outro tipo de pronunciamento, mas falo o que penso, perdendo ou não votos - pouco me importa. Aliás, eu não quero mais votos mesmo, pois estou encerrando a minha vida pública daqui a quatro anos, profundamente desencantado com ela. (30/08/2006)
Hugo Chávez, presidente da Venezuela: - Hitler jamais deu um golpe de Estado na Alemanha. Ele foi designado Primeiro-Ministro, que tinha o título de Chanceler, pelo Presidente eleito, Hindenburg. A partir daquele momento, Hitler conseguiu, mediante leis delegadas e plebiscitos, instaurar na Alemanha uma das mais sangrentas ditaduras da história. O regime militar brasileiro manteve Senado e Câmara abertos. Não empastelou um jornal nem cassou um canal de televisão. Desse modo, não me venham dizer que Hugo Chávez é Presidente de uma democracia.(05/06/2007)
O excesso de Medidas Provisórias: - Juscelino Kubitschek governou este País por cinco anos, cinco anos, e transformou-o. Ele não tinha decreto-lei nem medida provisória. Como é que Juscelino pôde fazer aquele governo excepcional sem dispor de medida provisória, sem a qual, segundo o presidente Lula, o País ficaria ingovernável? (...) É uma falácia que o Brasil, que o Presidente não possa governar sem medidas provisórias, principalmente sem poder editá-las uma a cada semana. O atual Governo já editou 320 medidas provisórias. (01/04/2008)
Sobre um possível terceiro mandato de Lula: - Essa idéia esdrúxula não vai prosperar. Ela fere um dos fundamentos da democracia, que é a alternância no poder. Instituir um terceiro mandato seria um pulo para o quarto, para o quinto, para o sexto, enfim, para a permanência indefinida do Presidente Lula ou de outro no poder. Isso seria a negação da democracia. Terceiro mandato, nunca. Isso é anti-republicano, e quem tentar vai se dar mal (16/04/2008).
Demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol: - O governo brasileiro cometeu um grave equívoco ao fazer a demarcação de uma área tão extensa em áreas contínuas. Dir-se-á que as populações indígenas precisam de grandes áreas devido ao seu modo de vida. Mas, no caso da Raposa Serra do Sol, a situação é completamente diferente. Os partidários da demarcação contínua tentam demonizar os opositores, colocando uma falsa questão: seriam, de um lado, os índios e, de outro lado, os arrozeiros. É uma dicotomia falsa esta: são milhares de índios contra alguns poucos arrozeiros. Isso é fantasia, não existe esse perigo. Agora, que reservas como essa, naquela fronteira difícil, complicada, presa de um narcotráfico, das poderosas organizações criminosas de narcotraficantes com muito dinheiro e muito poder de corrupção daquelas populações que lá vivem, não sei que futuro nos aguarda (22/04/2008)
As denúncias contra seu correligionário, Paulinho da Força (PT-SP), acusado de receber propina num esquema de fraudes envolvendo o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES): - O fato é muito desagradável, incomoda se não a todos, pelo menos muitos pedetistas. A denúncia é gravíssima, mas eu não prejulgo. Não vou condená-lo nem absolvê-lo de antemão. Se ninguém fizer essa sugestão [do afastamento], eu faço. O partido está esperando essas explicações do deputado Paulinho. Acredito que ele terá explicações. Antes tarde do que nunca. Além disso, ele deveria, simultaneamente às explicações, pedir licença do partido para não causar constrangimento aos colegas. (06/05/2008)

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Por que não cantas um tango?

O Ministério da Justiça sempre teve a função moderadora na política republicana. Naquela cadeira já tiveram assento negociadores de grande habilidade e alguns destacados juristas. Desta vez encontra-se vazia nos dois sentidos. O ministro Tarso Genro possui pouca instrução legal e tem se revelado um político cheio de rancor, capaz de expressivas trapalhadas. A última delas foi a proposta de punir os delitos praticados durante o regime militar sob inspiração da legislação brasileira. Que legislação?
A mesma Lei de Anistia que serve para distribuir dividendos milionários para opositores do período de exceção é rasgada para se praticar o revanchismo. O ministro supõe operar acerto de contas com a história, quando está burlando um pacto político que permitiu o retorno definitivo da democracia. A sociedade brasileira não tem interesse em revisionismos e não há motivação para uma alta autoridade reabrir feridas que cicatrizaram.
Aos 16 anos, em 1977, iniciei minha participação no Comitê Goiano pela Anistia e tenho honra de ter apoiado, desde então, todas as movimentações não-violentas que culminaram com o fim da ditadura militar. Agora, como dizem os petistas, essa plataforma de luta se exauriu. Aliás, as Forças Armadas hoje são uma instituição de maior credibilidade do País e estão de prontidão para garantir a Defesa Nacional, combater a dengue, eventualmente subir os morros do Rio de Janeiro e pacificar indígenas exaltados.
Definitivamente não apresentam ameaça política ao Brasil. Ao contrário, para quem mandou e desmandou por 21 anos demonstram obediência hierárquica tal ao poder civil que às vezes parecem manifestar a “humildade bovina” de que falou Nelson Rodrigues. O regime militar foi danoso ao País em muitos aspectos, mas não custa lembrar que a tese revolucionária dos esquerdistas e o próprio comunismo foram varridos do planeta. Excelente providência, diga-se de passagem.
Em nenhum momento, os comunistas queriam um regime de liberdade e o retorno da democracia. O propósito era ter o próprio governo de exceção inspirado em Stalin ou Mao Tse Tung. No Brasil chegaram ao topo do poder pela via democrática, no entanto não gostam das regras do jogo. Lamentam o rigor da lei que disciplina as licitações. Acreditam que o Ministério Público é impertinente quando os investiga. Reclamam que os estatutos ambientais tramam contra os seus propósitos desenvolvimentistas e nutrem a esperança de um dia limitar a liberdade de expressão.
Tarso Genro parece altaneiro ao clamar pela abertura dos arquivos da ditadura. Perfeitamente, que o senhor o faça em cumprimento das obrigações constitucionais de ministro da Justiça. No começo do atual governo chegou-se a marcar data e local para a revelação dos arquivos do porão. Era mais uma providência enganosa. Por via de Medida Provisória o Palácio do Planalto criou a possibilidade do segredo eterno de documentos imprescindíveis à segurança nacional, a mesma evocada pelos militares para baixar o AI-5. Nem apelo da ONU para que os documentos fossem desclassificados sensibilizou o governo.
Na chefia do Ministério Público e à frente da Secretaria de Segurança Pública de Goiás fiz o que pude para abrir os arquivos da ditadura em meu Estado. Só que não havia nada de relevante e tenho convicção de que os documentos foram destruídos. Ninguém melhor do que um ministro da Justiça para saber o que realmente se passou.
Se é só para fazer marola, que o Dr. Tarso Genro encontre passatempo menos indolor. A título de justificação do seu próprio saudosismo e melancolia, sugiro que o ministro cante um tango de Carlos Gardel: “Mentira, mentira, yo quise decirle, las horas que pasan ya no vuelven más. Y así mi cariño al tuyo enlazado es sólo un fantasma del viejo pasado que ya no puede resucitar.”

Demóstenes Torres é procurador de Justiça e senador pelo DEM de Goiás.

Pensar, livre pensar....

Tem culpa eu
Ainda sobre o debate provocado pelas notas Ditadura vs ditadura e Falácias sobre a luta armada na ditadura: pedir isenção de um jornalista sobre a época do regime militar é a mesma coisa que solicitar ao peru que aceite, de bom grado, seu flagelo na ceia de Natal.
Como um jornalista pode apreciar governos que impõem censura à imprensa? Seria uma contradição.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Viva Nilton Santos! Viva Armando Nogueira!

Um mestre por outro mestre
Hoje é aniversário de Nilton Santos, lenda do Botafogo, um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos. O lateral-esquerdo bicampeão do mundo de 1958 e 1962 faz 83 anos na luta contra o Mal de Alzheimer, que ameaça seqüestrar-lhe as lembranças para sempre.
Mas o Brasil não esquecerá Nilton Santos jamais. O aniversário é dele, mas quem ganha o presente são os leitores do site da turma da coluna, que orgulhosamente publica o texto de outro supercraque, mestre Armando Nogueira, sobre o ex-lateral. Escrito 22 anos atrás, no estilo impecável de sempre, conta história prosaica, mas deliciosa e comovente. Leia e releia - porque vale a pena:
A alegria de um coroa/////Armando Nogueira
Acordou bem cedinho. Estava louco para rever a sua cidade. Abriu a janela do apartamento e deu de cara com uma colossal manhã de sol, dessas que só mesmo o Rio de Janeiro é capaz de aprontar em pleno inverno. Pois a história que agora te conto, leitor, passou-se no recente mês de agosto.Para não perder tempo, que as férias eram brevíssimas, o nosso amigo tomou uma xicrinha de café preto, enfiou no bolso uma pera, pra mais tarde, e saiu pelo Aterro do Flamengo, feliz da vida, de bermudas e tênis "Conga".Caminhava e distribuía seu contentamento entre as árvores do Aterro, boas amigas que ele já não via há dez anos, quando deixou o Rio para ir cuidar de uma fazendola no interior de Minas.Pelas tantas, quis tomar sol. Despiu a camisa de malha, deitou na arquibancada do campinho de futebol de salão e assim ficou um tempão, entregue ao regozijo de merecido repouso. Tamanho era o sossego que até chegou a tirar uma soneca.- Ei, moço! bom-dia!Era a voz de um dos três garotos que chegavam com uma indisfarçável secura de bola.- Quer fazer um racha com a gente? A gente joga dois-contra-dois. Deitado estava e deitado respondeu, no embalo:- Vamos lá, pelada é comigo mesmo!Resoluto, levantou-se, sacudiu as pernas e foi logo entrando no campo. Um campo de barro. O dono da bola, um menino de seus quinze anos, fez a apresentação da turma:- Eu sou o Marcio, esse aí é o Dico e aquele é o Leo.Nem esperou que o coroa se identificasse. Queria mais era começar logo o racha.- Olha aqui, vai ser eu e o Dico contra o senhor e o Leo.Pela rapidez da escalação, o coroa sentiu que devia estar entrando numa fria: o bom de bola, ali, devia ser o Dico. Discretamente, deu uma olhada e viu que o Leo não tinha a menor pinta. De qualquer modo, chamou de lado o Leo e propôs uma chave: o Leo lá na frente, ele mais atrás. Antes, porém, um teste sem aparentar outra intenção a não ser aquecer o corpo: na verdade, queria mesmo era saber se o Leo era de bola, ou não. Tocou a bola na direção do Leo para ver que bicho dava. A bola beliscou a canela do Leo. O coroa chegou a pensar em desistir. Um sujeito de 61 anos, meio barrigudo, cheio de cabelos brancos:- Meu Deus, o que é que estou fazendo aqui no meio desses meninos; uns meninões de quinze anos?O diabo é que ele já tinha aceito o desafio. Não ficava bem correr da raia. Afinal de contas, não era a primeira, nem seria a última vez que a vida metia o nosso coroa em batalhas decisivas.No meio do campo, o dono da bola vai cantando as regras do jogo: a partida é de cinco. Quem fizer cinco primeiro, ganha. Não vale gol direto. Não pode pegar a bola com a mão, só se já começar no gol de saída.E como ninguém sequer pensou em jogar no gol, a partida começa com os quatro na linha. No centro do campo de terra batida, a bola de futebol de salão, por sinal que um tanto surrada.A saída, lógico, é do Marcio. Marcio pro Dico, Dico pro Marcio, que tenta um drible. O coroa, vigilante, rouba a bola e contra-ataca. Procura o Leo. O Leo ficou lá atrás, paradão, sem saber pra que lado ir. O coroa então chuta do meio do campo. Gol!- Não vale - grita o Marcio - eu avisei ao senhor que não vale gol direto. O senhor tem que passar a bola pro Leo! Ou o Leo pro senhor!Gol anulado, começa tudo de novo. Saída com o Marcio. O coroa pede tempo. Cochicha uma tática no ouvido do Leo.Bola em jogo. O Leo dispara e vai ficar plantado bem juntinho da baliza, como pediu o coroa.Em dez minutos, o time do coroa já está ganhando de três a zero, três gols do Leo. O esquema funciona bem, mas o jogo é incessante, lá e cá. Agora mesmo, o Dico acaba de fazer o dele: três a um. E o Marcio delira com a reação.Nova saída. O coroa arranca pelo meio dos dois, parece um foguete; vai em frente e entrega, mais uma vez, embaixo dos paus para o Leo fazer o quarto gol.A essa altura, o coroa já passeia pelo campo, absoluto. Por sua vez, o time adversário já esta literalmente descadeirado. - Vai, pereba - berra o Marcio, colérico, para o Dico - Vai nele! Você não disse que o coroa não é de nada? Toma a bola dele, palhaço!A dissensão nas hostes inimigas é profunda. O Marcio e o Dico vão acabar saindo na porrada. Pelo menos é o que pressente o coroa, achando, por isso, que o melhor é liquidar logo essa conta.Vamos, então, mais que depressa ao quinto e derradeiro gol dessa inesquecível partida. Porque inesquecível, leitor, já, já saberemos.O Marcio faz um passe longo para o Dico. O demônio do coroa, como sempre, adivinha a jogada, corta o centro com o peito em pleno ar e, antes que a bola caia no chão, amortece na coxa direita. Da coxa, a bola escorre para o peito do pé e pronto: uma, duas, três... o homem começa uma sucessão de embaixadas; faz nove em plena corrida. Na décima, depõe a bola na linha do gol, bem em cima da linha:- Taí, Leo, faz o quinto e acaba logo o jogo.- O Marcio, uma fera, vai apanhar a bola e nem volta para dizer até logo. O Dico sai de fininho, mal dá um tchau. O Leo, não, o Leo dá um abraço legal no companheiro de time.O coroa senta de novo na arquibancada, tira do bolso a pera, dá uma mordida triunfal e fica ruminando, em silêncio, o bendito fruto de uma bela vitória.Os três meninos foram embora sem saber que deram uma certa alegria ao coroa Nilton Santos, também chamado "A Enciclopédia do Futebol".

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Maracujà do Fausto

Há 40 anos,a batida do Tangará já era de maracujá//////Lembranças e andanças a partirde um pé-sujo na Cinelândia///Fausto Wolff/////Escritor e jornalista
Um dia escrevi: "Quem chora viaja todas as suas distâncias". No futuro do passado – alguns anos atrás – escrevi: "Se me desencavassem do presente e me colocassem, jovem cavaleiro andante que já fui, em frente a um espelho, de nada adiantaria, pois sobrariam as memórias". Ambas as frases são verdadeiras mas a segunda não está correta, pois as memórias, depois de algum tempo surgem – mais como delírio do que sonho – de um modo completamente difuso e diverso da realidade real, seja lá o que for isso. Se na memória havia um herói, na alucinação aparecemos palhaços. E – é claro – basta olhar para nossas mãos no teclado, para ver que não temos mais os 20 e poucos anos que tínhamos.
Quarenta anos se passaram desde aquele dia de julho de l968. Hoje, parece-me tudo meio vago. Sei que olhei para o lado e vi um avião enorme decolando. Creio que estávamos na redação da revista Visão da qual Ziraldo, acho, era editor de arte. Ou estava na redação da revista Diner's, que o Francis dirigia para os Klabin? Mas não lembro do Francis. Lembro que conversava com Ziraldo sobre a capa que ele fizera para o meu segundo romance que recém chegara às livrarias – O campo de batalha sou eu. Conosco estava o Cláudio Bueno Rocha, um grande jornalista que morreu precocemente e lembrava um personagem do Saroyan que ria de tudo o tempo todo. Tinha um modo original de chamar matérias de uma coluna que os mais antigos devem lembrar: "piroquinha de cachorro". Eu estava irritado com ele porque denunciara na sua crítica sobre meu livro anterior – O acrobata pede desculpas e cai – que eu escrevera Nietszche de modo incorreto.
Algumas dezenas de metros abaixo de nós começaram a surgir os primeiros soldados e estudantes para ocupar a Cinelândia, o Largo da Carioca e arredores. Pretendíamos almoçar, mas quando chegamos ao térreo já havia milhares de pessoas na rua gritando: "Abaixo a ditadura!", de mãos dadas. Ziraldo, sempre o mais entusiasmado, pegou na minha mão e na do Cláudio e caminhamos em direção à Câmara Municipal. Houve uma hora em que eu e o Ziraldo concordamos com o olhar que aquele negócio de mãos dadas não fazia nosso feitio. Acabamos por nos perder na multidão da galeria.
Eu estava com fome e fui comer uma sopa de entulho num boteco ao lado de um dos cinemas do Severiano Ribeiro. Estava de frente quando o cavalo de um PM recuou e a jogou sobre uma mesa. Linda moça. Elba era seu nome. Para mim sobrou um joelhaço na cabeça. Só vim reencontrá-la já avó. Entre levar uma cacetada de um PM e fazer um curativo com lenço, água quente e cachaça no joelho de Elba, preferi a segunda opção. Mais valente do que eu, ela voltou a meter-se entre os manifestantes. Acho que entre uma colherada e outra, pensei que a classe média estava se sublevando pela segunda vez. A primeira em março de 64, quando realmente acreditou na cantilena americana de que pretendiam ajudar o Brasil, bem como toda a América Latina. Começaram com a campanha de que não tínhamos petróleo e continuaram a desrespeitar a Constituição e a permitir que a Time&Life interferisse com patas de cavalo na imprensa brasileira. Conseguiram a implantação da ditadura e pretendiam dar continuidade à coisa dirigindo a educação através dos técnicos do USAID, que se instalou no MEC com o nihil obstat do golpe. Entre uma classe média de direita, os governadores do Rio, Minas e São Paulo, com a ajuda de vários cabos Anselmos, e de uma esquerda que exigia reformas radicais de um dia para outro, o governo caiu sem que ninguém morresse. Vitória da classe média.
Na época, imaginei que se houvéssemos esperado um pouco mais, logo teríamos eleições. Lacerda, Juscelino ou Brizola seriam eleitos e a vida continuaria. Bobagem minha, pois os americanos já haviam se decidido pelo golpe e alguns aviões, porta-aviões e canhoneiras resolveriam o problema. O PCB fez a coisa certa sem êxito. Pretendia infiltrar as favelas e os quartéis de agentes para explicar ao povo da necessidade de um contragolpe. O pessoal do PCdoB preferiu o confronto armado direto a partir das guerrilhas do Araguaia. Brasil é um país tão louco que o atual governo, que lutou mais de 20 anos contra ditadura, ao chegar ao poder uniu-se à escória e deixou seus mortos sem sepultura. Já os usineiros bilionários do Nordeste são os novos mártires, segundo Lula. Marx não entenderia.
De 64 e 68, a vida piorou para a classe média, o que levou os estudantes a se organizarem mais ainda. Como Lênin dizia, não se faz revolução sem estudantes e operários na linha de frente conquistando os soldados para o seu lado. Em 68, a burguesia já não achava a ditadura tão boazinha. A censura à imprensa era quase total. Eu trabalhava no JB, na Tribuna e no telejornal de Fernando Barbosa. Uma namorada mineira soubera, através de Magalhães Pinto, que um novo ato institucional viria para massacrar – e que meu nome estava numa das listas. Fernando Barbosa Lima salvou-me a vida sugerindo que eu saísse do país. Estava visado por causa de palhaçadas. Uma vez que não podia falar sobre política nem nos jornais nem na TV, comecei a comentar arranjos florais e modas com acusações políticas facilmente compreensíveis mas não provadas. Virara, em verdade, um bizarro cronista social que falava das festas de dona Yolanda e dos Monteiros de Carvalho, hoje donos da CSN. Pouco depois soube como começava minha ficha no SNI: "Consta que é comunista. Atua num telejornal onde através de comentários jocosos faz críticas à civilização ocidental".
Senti que estava na hora de tirar o cavalo do campo de batalha. Nem tive tempo para pedir baixa na minha carteira de trabalho quer no JB quer na Tribuna. Em outubro, com dinheiro emprestado por alguns amigos, principalmente Millôr Fernandes, embarquei para Roma onde alguns meses depois passei a ser correspondente do Pasquim. Na Europa, fiquei 10 anos e deixei uma filha, hoje já com 30... Só outro dia, ao rever com calma a foto de Evandro Teixeira, é que descobri que praticamente não havia proletários na passeata.
Voltei ao Brasil pouco antes da anistia, literalmente sem lenço e sem documentos, com um passaporte na mão onde não se lia Fausto Wolff mas meu verdadeiro nome, que pouquíssimos sabiam. No lugar onde era a minha casa na Lagoa, haviam construído um edifício sem me consultarem, pois aparentemente eu não mais existia. Levaram meus quadros, meus móveis, meus livros, meus discos, o que faz de mim ainda hoje um indivíduo sem bens materiais...
E agora? Não tenho esperanças enquanto a política for a de distribuir rações aos pobres e dinheiro aos ricos. Agora, muita coisa dependerá do que fazem e do que farão os filhos e netos daquela gurizada que, há 40 anos, participou da Passeata dos 100 Mil. Lembrem-se: qualquer revolução socialista só pode partir do povo, mas ele precisa saber direitinho pelo que está lutando.
[ 03/05/2008 ]