segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Achtung !!! by Fausto Wolff

Domingo passado, enquanto namorava com o cantão de um olho uma garrafa de Black Label que uma generosa leitora me enviou, fui surpreendido pelo pensamento de que Jesus estava e está certo. É interessante, ter de se tornar adulto, envelhecer para entender a dolorida e profunda verdade do pensamento de Jesus e de como ele o aproxima mais do que nunca e menos do que amanhã do pensamento de Marx. O primeiro filósofo realmente revolucionário disse essa palavras perigosíssimas pela sua agonizante e bem visível atualidade: "Ama o teu próximo como a ti mesmo". Eu acrescentaria "Ama o teu próximo mais do que a ti mesmo, pois você sabe da verdade, ele ainda não". O segundo nasceu quase 18 séculos depois. Também era judeu, também era pobre, também era um intelectual e um líder de multidões. Chamava-se Karl Marx e disse aos trabalhadores, como hoje, tratados como bichos: "Nada tendes a perder senão vossos grilhões". E mais: "De cada um de acordo com sua possibilidade e a cada um de acordo com sua necessidade".
Esses pensamentos unem-se para erguer uma filosofia e uma religião ao mesmo tempo. A religião mais violenta e amorosa do mundo, que pode ser chamada de cristianismo ou comunismo. Mais tarde poderá se chomskismo etc, pois um nome apenas indica um caminho, não é o caminho, e este, é verdade, se faz ao andar, se faz na medida em que se aprende, apreende, compreende. Como construiremos a síntese dessa filosofia? Poderia ser Deus É Amor, mas, para tanto, eu teria de crer realmente em um Deus figurativista, judeu, ou num Deus abstrato hindo-budista, que não só cria o mundo como é o próprio mundo.. Por outro lado, me fascina a idéia da existência de Deus tão sábio que exige tanto e ao mesmo tempo tão pouco de seus filhos. Acreditem: é mais fácil acreditar em Deus do que descrer dele. Ele está em tudo e, dependendo de nossa capacidade energética interior , está em nada, pois é inefável como o grande poema. Eu diria que a pedra que sustenta essa filosofia tem nela gravada a frase mais profunda de todos os tempos: "Só a Verdade nos Salvará". Todos poderão crer na tua verdade, mas, se ela for mentirosa, terás de viver uma mentira e isso acaba tornando-se tão fortemente parte do teu ser que nem te dás conta de que és uma mentira e transformaste em mentira a tudo a todos que te cercam.
Deus, sempre que ele exista, não nos obriga a amar ninguém. Senão seria fácil demais: bastaria respirar amor. Não, o amor deve estar dentro de ti, deves domá-lo e usá-lo. Quando duvidaram, Jesus foi para cruz. Marx morreu na miséria. Nada te compele a amar homem, mulher, bicho, flor. Você mesmo se ensinará a amá-los nessa mesma cidade alheia em que nasceu e assinou um contrato com o lucro e o poder. Ou terá sido teu pai quem aceitou as regras do medo no contrato social que não assinaste? Quem disse que belo é o que dá poder e glória através do fraco? Será que é preciso abdicar da nossa condição humana para não ter medo? Os nossos inimigos, os reacionários, os anjos da morte, precisam da tua vulnerabilidade.
Para isso surgiram as religiões, para religar, criar uma ponte entre o homem e divino. Não chamam os papas de sumo pontífice? Que pontes eles ligaram senão através do sofrimento, da ignorância, de uma noite escura que foi do século 4 ao século 14. O homem para volta a ser Deus terá de ser homem e compreender essa condição. Seria muito fácil sair amando todo mundo por aí, mas é fundamental que sintamos este amor no coração como a mãe que levantou 200 quilos de ferragem que sufocavam o seu bebê e o salvou. O amor não é algo que deve ser imposto. O amor é algo que precisamos compreender dentro de nós. O amor não é rebelde. Ele não combate a autoridade porque não faz parte dela, mas porque não quer se usado por ela. O homem decente que quer ultrapassar essa condição não é rebelde, pois o rebelde só se volta contra o poder quando não é aceito por eles. No momento em que é aceito, volta-se contra seus antigos amigos. Um mínimo de inteligência e senso crítico permitirá ao leitor entender o que estou dizendo: observem o que aconteceu no Brasil de 1964 para cá. Vejam esses pequenos homens na ventania, trocando de partidos,de legendas, sem vergonha e sem honra. Há alguma solução para essas falsas excelências que se crêem imortais e que fizeram de Deus e de Jesus um sócio do mercado? O rito nasceu para que a sociedade pudesse se organizar. Está na hora de acabar com os mitos, com todos os mitos hipócritas e falsos puritanos para mostrar o mundo como ele realmente é, belo, forte, justo, e o homem como ele realmente é, filho de Deus e quem sabe Deus.
[ 26/12/2007 ]

domingo, 16 de dezembro de 2007

“A vida é o minuto”: Oscar Niemeyer, 100 anos


RIO - Conhecido e admirado, nosso maior arquiteto do mundo faz cem anos de uma lucidez que comove. Muito mais que arquiteto, Oscar Niemeyer é um ser humano raro em seus pensamentos, em sua maneira de viver a vida. No seu centenário, Niemeyer ensina que “a vida é o minuto”. Viver cada momento.
Ele se assume um comunista, e como comunista, um socializador, que quer partilhar seu talento e suas idéias, e com uma responsabilidade e preocupação social. E isso está acima até das irretocáveis obras que projetou. Niemeyer poderia ser um músico, engenheiro, veterinário, gari, e provavelmente em qualquer uma atividade seria genial. Mas é seu sentimento que o faz tão especial. Ele nunca quis ser grande, no entanto, é o maior.
“Mais importante não é a arquitetura, mas a vida, os amigos, e este mundo injusto que devemos modificar.”
Suas obras no mundo todo falam por si só, e neste sábado, dia 15 de dezembro, quando se comemoram seus cem anos de idade, provavelmente iremos ver e rever seu legado, arquitetos do planeta analisando suas obras, projetos, esculturas. O mais especial talvez seja ele, em pessoa, falando da vida, da leveza, do momento, das curvas...
“Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem, o que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, nas nuvens do céu, no corpo da mulher perfeita.”
O que emociona as pessoas é porque vendo as suas obras maravilhosas, se sabe quem ele é. E conhecendo a pessoa que ele é, fica-se extasiado com a suas obras, não mais apenas como uma obra de arte, não como um bem tombado, nem como a obra de um grande arquiteto, mas sentindo a obra de um grande homem. Troca-se a emoção pelo concreto pela emoção pela pessoa.
- Quando fui apresentado a ele, cheguei e disse: “como vai Doutor Oscar...” Ele disse que não queria ser chamado assim, de 'Doutor'. Só que eu estava diante de um monumento, afinal, é o maior arquiteto do mundo! Eu só conseguia chamar ele de 'Doutor'! Ele acabou deixando... – relembra o jornalista Luiz Antonio Mello, que na ocasião da construção do MAC (Museu de Arte Contemporânea de Niterói) presidia a FAN (Fundação de Artes de Niterói).
“Duas coisas guardo com satisfação: uma é esse desinteresse pelo dinheiro. A outra é minha vontade de ajudar as pessoas, ser-lhes útil, dividir”.
Niterói é uma cidade privilegiada por ter recebido diversas obras referenciais de Oscar Niemeyer. Além do MAC, o “Caminho Niemeyer” cruza boa parte do centro da cidade com teatro, igreja, museu, todos concebidos pelo traço inconfundível de Niemeyer. O Teatro Popular de Niterói, infelizmente, já conta com sua contribuição popular mais feia: pichações se confundem com os desenhos de mulheres dançando concebidos pelo mestre. Mas como ele mesmo dizia que preferia suas obras ao alcance do povo do que destinadas à uma elite... se não limparam para o aniversário dele, quem sabe às vésperas da próxima eleição...
”Muitas vezes, quando a miséria é demais e os homens a esquecem, a solução é reagir”.
- O que se vê é um amor pela arquitetura, mas sobretudo pela arte. Ele olhava o museu sendo construído, e eu imaginava o que ele devia estar pensando, querendo captar alguma coisa. Aí ele falava as coisas da rampa, sempre de uma forma em um tom muito baixo, e ao mesmo tempo uma autoridade maravilhosa, sem estrelismo. Foi especial ter tido um contato cotidiano e testemunhar o Doutor Oscar vendo o museu surgindo do nada. E também poder compartilhar o amor que ele tem pela vida e pela justiça social. Não como um chavão, mas uma coisa muito mais profunda. Ele chegava, e dizia: “não quero frescura, nada disso”. É uma autenticidade comovente – diz Luiz Antonio Mello.
“No dia em que o homem compreender que é filho da natureza, irmão dos bichos da terra, dos pássaros do céu e dos peixes do mar, nesse dia ele compreenderá sua própria insignificância e, realista, será mais humano”.
- Nós fomos companheiros desde a construção de Brasília. Não posso dizer que era o auge de sua carreira, mesmo porquê ele sempre viveu o auge, mas foi um momento importante. Ele fez os Cieps e o Sambódromo, no Rio. Já nesta época eu trabalhava com o Darcy Ribeiro e também acompanhei toda a criação dos projetos. Ele nunca mudou, acho que ele não mudou nada ate hoje. É um lugar comum falar do Oscar Niemeyer, porque todo mundo diz a mesma coisa: a verdade é uma só. A lição que Oscar Niemeyer deixa para todo mundo é a humildade – comenta o também arquiteto Ítalo Campofiorito.
Para conhecer melhor o homem por trás dos projetos e esculturas geniais, dentro das comemorações do centenário de nascimento do arquiteto, está em exibição a exposição “As Curvas do Tempo – Oscar Niemeyer”, no SESC Flamengo, até o dia 10 de fevereiro. Aproveitando a ocasião, trata-se de um programa obrigatório. Vale a pena sair um dia mais cedo do trabalho, ou aproveitar nos sábados ou domingos. Para os desacompanhados, pode ser a melhor companhia, porque você entra para viver cem anos de memória, cem anos de amor ao próximo, cem anos de amor ao nosso país, cem anos de prazer. Qualquer um sai de lá com o seu novo amigo Oscar.
Serviço:Terça à sábado, das 12 às 20 horas.Domingos: de 11 às 17 horas.
SESC FlamengoRua Marques de Abrantes, 99 – Informações: (21) 3138-1343.
Leandro Souto Maior, Agência JB

sábado, 15 de dezembro de 2007

Centenario Oscar (carioca) Niemeyer

Não é o ângulo reto que me atrai.

Nem a linha reta, dura, inflexível,

criada pelo homem.

O que me atrai é a curva livre e sensual.

A curva que encontro nas montanhas

do meu país,

no curso sinuoso dos seus rios,

nas ondas do mar,

nas nuvens do céu,

no corpo da mulher preferida.

De curvas é feito todo o Universo.

O Universo curvo de Einstein.

Oscar Niemeyer né le 15/12/1907 à Rio de Janeiro, Brésil

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Derrota feita em casa

A oposição pode ter exagerado a dose de veemência, especialmente na áspera eloqüência amazônica do líder do PSDB, senador Arthur Virgílio, seguida de perto pela firmeza e elegância do líder do DEM, senador José Agripino (RN) - uma dupla que honra as maculadas tradições oratórias da Câmara Alta, fincadas em outros tempos que mexem com as lembranças dos saudosistas.
A derrota histórica da madrugada de quinta-feira, o dia 13 do azar palaciano, foi feita em casa, fritada na cozinha do Planalto, com a massa letal da arrogância e da inabilidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pela submissão dos seus esforçados líderes parlamentares.
Não é necessário mais do que uma constatação objetiva - o preto no branco - para expor as lambanças da obstinação presidencial ao insistir na proposta rejeitada pelo comando adversário para o recuo na undécima hora, quando a fêmea do boi já se enterrara no brejo, com a lama chegando ao pescoço.
A cambalhota, com jeito de rendição, apresentou três propostas: o compromisso de aplicação de 100% da arrecadação da Contribuição Provisória sobre a Movimentação Financeira, a CPMF, na área da saúde. Hoje são apenas 20% dos 0,38% do imposto do cheque. No rastro da primeira rendição, a segunda e adocicada promessa de redução progressiva da alíquota do caipora imposto sobre o cheque. E, fechando a raia, na cadência da fuga, o compromisso da renovação do tributo por apenas mais um ano.
Ora, para quem acompanhou com um mínimo de atenção os capítulos da novela, bastaria uma, uma única das três propostas, encaminhada no momento adequado, para atender às exigências da oposição e encerrar a inana com o clássico e melhor dos desfechos, quando as duas partes proclamam a vitória.
O líder sindical cada vez mais longe dos hábitos, costumes da sua origem, da qual só tem razões para orgulhar-se, anda sem tempo para atender aos compromissos da sua agenda de viagens internacionais, que é um dos seus xodós. E perdeu o gosto e o hábito das idas e voltas da conversas para a montagem da saída para as crises.
Além de não ajudar na fase decisiva, atrapalhou com as agressões aos adversários, acusados de sonegadores contumazes do dinheiro público e de insensibilidade para os problemas sociais.
Quem xinga, ofende e acusa o outro lado não quer acordo, procura briga. A tática de acuar a oposição com a repetida denúncia do seu desinteresse pelos problemas que afligem as camadas mais pobres da população é aceitável no vale-tudo da campanha eleitoral, na reta da chegada, quando as pesquisas apontam para o empate técnico no monótono chavão da "margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos".
Mas entre as partes envolvidas em delicada negociação, um aviso para encerrar a conversa.
E não inteiramente sem razão, perdeu toda graça que não chegou a ter nem quando era novidade o bate-boca entre o presidente Lula e seu antecessor Fernando Henrique Cardoso. Ambos poderiam mirar-se no espelho e constatar o ridículo das picuinhas cruzadas a cada pronunciamento do sucessor e do ex.
E, cá para nós, ansiedades à parte, e que logo passarão, o presidente Lula desfruta de uma boa vida, é um apreciador dos requintes à sua disposição e ainda pode justamente orgulhar-se da sua blindada liderança popular, confirmada a cada pesquisa. Trovoadas e enchentes não arranham o seu prestígio entre os 40 milhões que matam a fome crônica com as Bolsas Família e outros programas sociais.
Liderança que não puxa votos para os candidatos do PT e que vêm sendo atendido com milhares de nomeações e outros paparicos.
Lula não precisa do PT, que precisa de Lula, mas parece conformado com as fatias generosas do bolo de massa fina.
A chuva passa sem deixar vítimas. Só arranhaduras e resfriados.
Villas Boas Corrêa- JB-[ 14/12/2007 ]

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Hein, hein......


Eu, quase todo retorcido ou mais ou menos torto!

Há alguns anos, alunos de uma faculdade de letras de Santa Catarina pediram-me que lhes desse uma entrevista. Não tinha tempo e nem saúde... Solicitei que esperassem um pouco, uma vez que, na época, escrevia um artigo sobre os temas que desejavam ouvir para uma revista belga, o que não deixava de ser verdade.Três anos depois e alguns dias atrás, recebi um telefonema de um aluno do grupo de entrevistadores. Lera a revista, uma coisa só possível uma vez em um milhão, e agora estava cobrando. Cortei algumas coisas e acrescentei outras. Aí vão as perguntas e as respostas.
JESUS
Jesus nasceu da hostilidade inconsciente a um Deus-Pai que só favorecia os exploradores. Com o Deus-Filho, homem, pobre e sofredor, eles podiam se identificar. Nessa irmandade cristã primitiva, a assistência econômica, o apoio mútuo, o comunismo, enfim, tinham lugar destacado. Quando a classe dominante descobriu as vantagens do Cristianismo, Jesus tornou-se sócio do mercado, partícipe dos lucros com máscara de Papai Noel. Quando os desgraçados reclamavam, os políticos, sacerdotes e usurários lhes diziam: "Cristo que é Deus foi crucificado e vocês não querem sofrer um pouco aqui na terra, mesmo sabendo que terão a eternidade no céu?" Palavras do Papa Clemente I: "Os pobres devem agradecer a Deus por ter lhes dado os ricos para ajudá-los nas necessidades."
JORNALISMO
Houve uma época em que o jornalismo foi parcialmente do povo. Enquanto o poder brigava podia-se dizer a verdade. Isso se devia a um fato: a maioria dos jornalistas também procedia do povo. Logo sua visão do país e dos acontecimentos não era uma visão burguesa mas principalmente classe média baixa, proletária ou sindical. Éramos aqueles jovens que tínhamos algum jeito para escrever e que por sorte ou circunstâncias chegavam à alguma redação, onde começavam como uma espécie de contínuo e auxiliar de reportagem policial. Defrontávamo-nos com a vida em toda a sua barbárie e beleza. Quase todos entendíamos que a sociedade e as autoridades eram injustas para com os humildes e nos colocávamos ao lado dos últimos, pois os conhecíamos bem. Ninguém ganhava muito mas não estávamos interessados nisso. Éramos jovens e queríamos descobrir a verdade que uma realidade de superfície tentava esconder. A vida era uma aventura e ser jornalista, um orgulho, uma glória. Falo de uma época em que tínhamos música, teatro, futebol, artes plásticas, cinema, sindicatos e nacionalismo, tínhamos a Amazônia, minérios e petróleo. Ainda não haviam roubado a nossa cultura e olhávamos para o futuro com grandes esperanças: éramos filhos de uma pátria jovem, única, miscigenada, cordial e trabalhadora. É claro que havia alguns canalhas que comiam nas mãos do poder, mas eram poucos.
EU
Um escritor encontrou uma valise fechada num bosque. Voltou para casa e, sem abri-la, escondeu-a num buraco atrás do armário. Ele, que era um homem triste, a partir deste momento, começou a transformar-se: ficou mais calmo, mais alegre, mais produtivo e mais amado pela mulher e pelos filhos. Seus artigos começaram a ser comprados pelos jornais, seus livros publicados e dava aulas na universidade. Tinha seu carro e nas férias alugavam uma casa na praia ou no campo. Não era um homem rico mas não passava necessidades. Estava tranqüilo porque metera na cabeça que dentro da valise havia um milhão de dólares. Não aceitava outra moeda. Tinham de ser dólares. Quando morreu, a mulher e os filhos, desolados, decidiram vender a casa e encontraram a valise atrás do armário. Abriram-na e encontraram um milhão de dólares.
UMA DAS 1002
No começo havia o Ser - Atman- sozinho, na forma de um homem. Ele olhou à sua volta e não viu outra coisa a não ser a si mesmo. As primeiras palavras que pronunciou foram: "Isto sou Eu". E assim ele tornou-se Eu e Eu era o seu nome. Por isso, mesmo hoje, quando perguntam a um homem que ele é, ele responde Eu e em seguida o nome que porventura tenha. Como antes de qualquer coisa, antes mesmo de reconhecer-se como Eu, ele queimou todas as maldades, transformou-se numa pessoa = Purusha. Na verdade, todos que sabem disso queimam quem quer que se meta na sua frente. Ele teve medo e por isso todos aqueles que estão sós têm medo. Ele pensou: "Se não existe nada além de mim, o que devo temer?" Quando disse isso, o medo desapareceu, pois na verdade, ele nasce de um segundo solitário. Mas ele - o Eu - não sentiu alegria com o desaparecimento do medo. Por isso, o homem só não tem alegria. Ele precisa de um segundo. Ele - o Eu - era tão grande como um homem e uma mulher juntos. Então ele se transformou num segundo e assim surgiram marido (pat) e mulher (patní) e ambos se chamavam Yagnavalkya, que falou: "Nós dois, cada um de nós, é como uma concha. Por isso mesmo o vazio que havia foi preenchido pela mulher. Ele a abraçou e nasceram os homens. Ela pensou: "Como ele pode me abraçar depois de me produzir de ele mesmo? Eu vou me esconder." Ela transformou-se numa vaca e o outro - o Eu, o Ser - transformou-se num touro. E assim nasceram as vacas. O ser transformou-se numa égua e o outro num garanhão. Um fez um asno e outro uma asna. Ambos se abraçaram e nasceram todos os animais, sempre em pares, do homem, passando pelo elefante e pelas baleias até as formigas. Segundos o Upmanishads dos hindus, o mundo foi criado por causa da solidão do Eu. ( Fausto Wolff in JB)

domingo, 9 de dezembro de 2007

Ridendo castigat mores....


quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

A chave do "por enquanto"

Villas-Bôas Corrêa, repórter político do JB
Do outro lado dos Andes chega como um lamento arrancado do fundo coração que sangra, a fingida desculpa do presidente Hugo Chávez para a derrota no referendo em que apostava todas as fichas para reformar a remendada Constituição da Venezuela e escancarar a porteira para as reeleições no formato de mandato perpétuo: "Por enquanto, não conseguimos".
O candidato a presidente por toda a vida escora-se na diferença do tamanho exato para provocar cócegas até tirar sangue: 50,5% para o xingamento do não e 49,3% de votos de incondicionais chavistas.
Não se pretende comparar situações inteiramente diferentes. Mas no vale-tudo da reeleição, tal como ensina a nossa experiência, entre o que se diz e o que rola na alma dos que acalentam a esperança do reconhecimento do eleitorado, a distância é menor do que o passo no impulso das pernas.
Para que negar o que se enxerga sem forçar a vista? O presidente Lula é e será candidato a mais um mandato enquanto contar com a inegável popularidade que continua resistindo aos muitos erros e omissões dos seus quase quatro anos de dois mandatos. Se puder, será candidato sempre.
O recuo tático é a manobra recomendável no momento. Mas a ambição foi internada para a terapia do longo sono, até a sacudidela para o despertar. Não depende apenas dele a decisão. Nem do PT, às voltas com uma chocha convenção quase ignorada pela mídia e pelo público e sem a menor importância. Que diferença faz para os destinos do país ou o jogo do governo que o candidato da poderosa corrente Construindo um Novo Brasil (para eles), Ricardo Berzoini, seja reeleito para mais dois anos para presidente do Partido dos Trabalhadores ou se o popularíssimo Jilmar Tatto surpreender e subir ao pódio para a glória que enfeita a biografia?
Lula sabe que o jogo para valer da sucessão só começará lá para meados, fim de 2008. E que antes tem vários nós a desatar. De imediato, a crucial aprovação da cobrança da Contribuição sobre Movimentação Financeira - a CPMF, mais identificável como o imposto do cheque, que promete engordar o cofre da viúva com R$ 40 bilhões por ano. A vitória difícil, ainda por um fio, obviamente facilitará a vida do presidente ao garantir a concentração de recursos no PAC, a última chance para acudir aos urgentes apelos para a realização das obras prometidas e que ficaram no ora-veja. A malha rodoviária em petição de miséria, um atoleiro de solenes promessas jamais cumpridas não pode esperar por mais acidentes, mortes e prejuízos materiais. Como os portos entupidos, que não atendem às urgências de exportadores e importadores. E o Nordeste, castigado por mais uma dramática estiagem, com a transposição do Rio São Francisco, ficou para quando?
Numa fase que não pode ser qualificada de tranqüila e otimista, o presidente encontrou a justificativa perfeita para fazer uma das coisas de que mais gosta: viajar pelo mundo nas asas do seu jato de uso exclusivo. Quase que o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, o surpreende com o apelo para adiar o giro programado para a próxima semana - quando irá a Argentina para a posse da presidenta Cristina Kirchner e de Buenos Aires segue para a Bolívia e a Venezuela - exatamente quando aqui aposta tudo na aprovação Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que prorroga a cobrança do imposto do cheque até 2011.
O governo assumiu o risco de decidir a parada esta semana.
Lula é imbatível no truque de mudar de idéia no meio de uma frase. Desde que não mexa na agenda de viagens internacionais.
[ 05/12/2007 ]

domingo, 2 de dezembro de 2007