domingo, 29 de julho de 2007

Pensar, livre pensar

Justiça tardia é justiça negada
Benjamim Disraeli (1804-1881), primeiro-ministro inglês, foi o autor da frase - que se encaixa em Waldir Pires- citada por Nelson Jobim em sua posse: “Nunca se queixe, nunca explique, nunca se desculpe. Aja ou saia. Faça ou vá embora”.
O grande rival de Disraeli na política foi o liberal britânico William Gladstone (1809-1898). São dele duas frases bem atuais:
"Justiça tardia é justiça negada".
"O dever do governo é dificultar que se façam coisas erradas e facilitar que se façam as certas".

Dentro do politicovil--André Petry-VEJA

Tudo já indicava que estamos cada vez mais distantes da política e mais próximos da politicalha, mas a tragédia de Congonhas jogou uma luz intensa sobre essa deformação nacional. A politiquice pós-tragédia dividiu Brasília em dois bandos. Os politiqueiros do governo torcem para que a principal explicação do desastre seja um defeito no avião ou erro do piloto, aliviando a barra governista. Os politiquetes da oposição fazem figa para que a pista de Congonhas seja a grande culpada, o que compromete o governo. Como as investigações iniciais sugerem que o problema principal ocorreu na cabine do avião, e não na pista do aeroporto, politiquinhos governistas talvez se sintam autorizados a voltar a brincar de top, top, top.
Essa versão amesquinhada da política não é exclusividade brasileira, mas nas democracias mais maduras os politicastros ao menos se empenham em esconder seus impulsos. Aqui, as coisas estão mais debochadas. É impressionante a incapacidade dos nossos politicantes de fazer a política grande, nobre, a política que, apesar de todas as divergências, leva em conta que, afinal, vivemos todos juntos. Mas nossos politicóides são indiferentes a esse projeto de bem comum. Vulgarizaram-se tanto que se apartaram do sentimento do brasileiro médio, que se espantou de verdade, se chocou de verdade com o avião explodindo, se solidarizou de verdade com o drama das famílias. O senhor Marco Aurélio "Top, Top, Top" Garcia é exemplo dessa alienação. Filmado, como ele diz, de "forma clandestina", Garcia mostrou preocupar-se menos com a comoção nacional e mais com o impacto eleitoral da tragédia. Coisa de politiquilho.
Com o mesmo alheamento, o presidente Lula sumiu por três dias depois do maior acidente aéreo do país, tal como fazem os oposicionistas na hora em que são postos à prova. José Serra desapareceu quando o PCC colocou São Paulo de joelhos. Agora, como Congonhas não é obra sua, Serra aparece em Congonhas. E Lula, como Congonhas é obra sua, some de Congonhas, some de Porto Alegre e cancela visitas a toda a Região Sul do país, exatamente para onde deveria viajar se vencesse a covardia da politicagem, se deixasse de fazer politicócoras.
Com politicalhões assim, corremos o risco de ficar numa situação algo parecida com a condição a que o nazismo relegou suas vítimas, conforme a formulação de Hannah Arendt: não eram consideradas seres humanos, apenas futuros cadáveres.
Basta de politicoveiros. Precisamos de políticos.

sábado, 28 de julho de 2007

Quem é quem by Antonio Miranda

Em que altura
ou dimensão
o poder dá tontura
ou dá tesão?
Anônimo burocrata

Que frágil é o equilíbrio
no organograma!

Um exercício de malabarismo
ou, antes,
a síndrome do artifício.

E o poder,
é vertical no cronograma?
É horizontal e sonoro,
auto-sustentável
no pentagrama?

Seria a dialética
dos antogonismos
ou o arbítrio
dos conformismos?
Um gesto de conciliação
nos dualismos
ou o prêmio à paciência
e à submissão?

Ato contínuo
e racional?

Anormal?

Um golpe de dados abolirá o azar?

E você, quem é,
na estrutura?

Sua ossatura
em que dossiê é sepultada?

Quem decide o seu nível de calorias,
as suas, as nossas mordomias?
E a inteligência
é sinônimo de sobrevivência?

Subserviência
eleva-se ao nível de ciência?

Quem resgata a vida,
enquadrada
em normas e preceitos?

(São dogmas ou são preconceitos?)

A nossa vida
alugada
e confinada
- é tudo ou nada?

Antonio Lisboa Carvalho de Miranda é maranhense nascido em 5 de agosto de 1940. Membro da Academia de Letras do Distrito Federal, foi colaborador de revistas e suplementos literários como o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil e também o La Nación (Buenos Aires, Argentina) e Imagen (Caracas, Venezuela).

Apagão aéreo R.Noblat

Da Agência Estado: "Sem poder legal para afastar a diretoria da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez avisar aos cinco diretores da agência, donos de mandatos fixos, que gostaria de que eles pedissem demissão. Segundo assessores do Palácio, Lula não vai passar por cima da legislação, mas já mandou recado que ''''espera um gesto'''' da diretoria, uma vez que a Anac virou uma protagonista da crise aérea". Leia mais aqui .
(Comentário meu: Lula não terá dificuldade alguma para despejar a diretoria da Anac. O presidente, ex-vendedor de passagens de avião no Rio Grande do Sul, deve o emprego à ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil. Uma das diretoras foi empregada pelo ex-ministro José Dirceu. Portanto, os companheiros não deixarão Lula na mão.
Tudo que Lula está fazendo agora depois que o Airbus da TAM se espatifou em Congonhas poderia ter feito antes - a troca do ministro da Defesa, a demissão em breve do presidente do Infraero e o despejo em massa dos diretores da Anac. E por que não fez? Por imprevidência. Cumplicidade com os amigos. E gosto de empurrar os problemas com a barriga.)

A falta de Duda Mendonça....Ancelmo Gois(OGlobo)

Sobre uma coisa não resta mais dúvida na crise atual: o presidente Lula fez os seus dois piores pronunciamentos em quatro anos e meio de governo.
Não se sabe qual o marqueteiro ou assessor de comunicação que o auxiliou, mas a aparição em rede de TV - tosca tecnicamente, com um corte abrupto de imagem que nem emissora do interior faria - e o discurso fora de tom de ontem na posse do ministro Nelson Jobim não honram o marketing político brasileiro.
Aliás, não honram a política brasileira mesmo.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Sobre viventes -- by Carlos Melo

São e salvo ao fim do dia, o cidadão que agradeça talvez à sorte, quem sabe a Deus; certamente, não ao Estado. À deriva, a vertigem é seu ponto de equilíbrio. No lugar e no momento, as instituições mais complicam que ajudam. Não planejam, safam-se. A gambiarra, nossa sina, acochambra a vida e reduz a cidadania a um papo-cabeça. Os direitos sucumbem e a sobrevivência assume o lugar da pátria ensolarada. As medalhas no PAN não escondem a mágoa: a nacionalidade é antes de tudo um desconcerto. E dói!
Nos centros urbanos, um inferno: assassínios, chacinas, latrocínios, PCCs; miséria, desemprego, trânsito, motoboys; cartórios, filas, companhias de aviação e celulares. No Brasil profundo, coisas de nem Dante acreditar. No oficial, paralisia decisória, agendas perdidas, juízes sob suspeita, senadores desnorteados, mensalões, sanguessugas, esquemas e esquemas. Caras de paisagem e sorrisos desolados de aeromoça diante da TV não resolverão a situação. Indiferente a tudo, a economia no seu ritmo salva a democracia.
O clichê vence a análise: no Brasil, as coisas funcionam mal. Polícia não policia; fiscal não fiscaliza; legislador não legisla; judiciário não judicia; governo não governa; avião não voa; aeroporto não comporta. Lei? Ora, lei! Que se vá queixar ao bispo! A canção tropicalista já dizia: “sobre a cabeça os aviões; sob meus pés os caminhões”; melhor manter distância de Aeroportos e obras do Metrô. Sinaliza-se o colapso em quase todas as esferas do Estado. Não é só o governo Lula.
Mas, no seu caso, contraria-se Einstein: um buraco negro se abre e nele Deus joga dados, sim. Tudo fica mais ou menos por conta da sorte e até para definir metas de inflação vai-se à conciliação: “pode ser de tanto, mas também pode ser que não seja”. Parece frevo: chuva, suor e cerveja! Regurgita-se ainda o sucesso eleitoral e se vive das glórias do passado. Presente e futuro dão trabalho demais; interessam a uns poucos.
Uma lengalenga, um lero-lero, um ramerrame e nada de transformação estrutural. Constrói-se um castelo com má argamassa: fisiologismo e falta de projeto. A aliança com o PMDB, por sinal, pode vir a ser a nova Viúva Porcina: por inútil, “aquela que foi, sem nunca ter sido”; ocupando cargos e deixando custos. Ironicamente, ao PT restará se fiar na maioria “que não anda de avião”; triste para quem sonhou distribuir riqueza. A socializa-se o medo: todos aprendem a conviver com o natural pânico dos pobres. Estranha forma de igualdade! A classe média urra e não se compreende sua vaia!
Só o acidente foi pior que a reação do governo. “Primeiro é preciso julgar”, mas é o próprio governo quem se condena. Bush e Giuliani foram às Torres Gêmeas imediatamente após o atentado; Serra e Kassab fizeram o mesmo, no Metrô e agora. Por que Lula desapareceu? A necessária racionalidade técnica e o cuidado institucional, como desculpa, substituíram a pessoalidade lulista. Coisa de livro texto logo com Lula, o emotivo? Não cola. Na verdade, os outros não tinham constrangimentos, por isso puderam aparecer ao lado das vítimas.
As autoridades tentam se defender, mas já perderam a guerra da comunicação. Acidentes acontecem, mas o “dado concreto” é que dez meses depois mais um grave acidente de avião deixa duas centenas de mortos. Estamos batendo recordes também nesse campo. O símbolo da crise é a inércia: deixar estar para ver como fica. O trocadilho é infame, mas a força da gravidade faz o resto.
Primarismo político é reclamar da mídia. Foi a inação e a falta de direção que fizeram com que todos se transformassem em especialistas em aviação. Definitivamente, esse governo não sabe como lidar com ela. A imprensa é um dado de realidade que ocupa os vácuos e joga o jogo ao nível dos que fazem e são notícia. Quando o governo se cala, qualquer um pode se manifestar. Já vimos o PT do outro lado da vidraça.
No mais, ninguém colocou palavras na boca de ninguém. Os comentários infelizes denunciaram modelos mentais: a barbárie como preço pelo crescimento foi de lascar! Além disso, houve a homenagem a Santos-Dumont. O semancol recomendaria declinar da honraria. Condecorações por serviços prestados a quem; mérito pelo quê, exatamente?
Quase cinco anos para perceber que as paredes são de vidro! O gesto do professor Garcia pode ter sido reflexo, stress, resultado de tensão. Mas a marcação foi imperdoável. Ao historiador não é permitida mímica do movimento estudantil. Assim como à psicóloga não cabe a permissividade da linguagem dos bugres. Antes de relaxar e gozar, feche as cortinas! Menos que sarcasmo, foi a incompreensão da dramaticidade do momento, do poder e de sua liturgia que fizeram a lambança.
Os gestos e a inação ficarão marcados: quando o avião caiu, a candidatura de Marta foi para o espaço. Já parte da biografia de Lula foi por água abaixo: basta perguntar às famílias. Em algumas décadas, ainda se dirá: foi no governo Lula! Dois terríveis desastres de avião. É bom bater na madeira. “Viver é muito arriscoso”, dizia o Riobaldo. Sempre foi. Mas a vida não precisa se transformar numa “tragédia de erros”.
Malvadeza Durão.
Morreu Antônio Carlos Magalhães: malvadeza para uns; durão com adversários; “ternura” para os íntimos; valente diante de muitos e considerado por todos. Figura controversa: fez sofrer, mas também com ele cruel foi a vida: o destino deu dimensão trágica e, portanto, humana ao líder de pedra; o rude coração definhou aos poucos. Futuras biografias mostrarão a dimensão do ser: o grandioso e o miserável no mesmo homem; estatura de personagem histórico.
Não deixa herdeiros e seu grupo tende à divisão. Seu neto, “ACMinho” precisará de muito cacau e acarajé para chegar à circunferência do avô. Uma liderança como aquela é construída ao longo de décadas e não se dá por gesto de vontade. Mas por sorte e perspicácia. No seu campo, haverá vazio na Bahia e ausência no Senado. Mas é precipitação afirmar que se trata do fim de uma era.
De fato, o senador foi remanescente da geração que viveu, fez ou sofreu o golpe de 1964. É o último dos caciques clássicos, mas nem por isso um tipo em extinção. As causas que lhe deram ânimo podem ter sido atenuadas, mas não foram eliminadas. Sobram “donatários” e mandantes entranhados nas culturas regionais; chefetes com menor talento para o poder sobrevivem “coronéis” em nova roupagem.
A mesma máquina ainda gira: força local, reconhecimento do povo; correia de transmissão entre prefeitos e poder central; poder regional como base da influência nacional; influência nacional alimentando o poder local; controle de bancadas e capacidade para promover barganhas; força local. São menos numerosos e menores que os caciques do passado, mas eles ainda existem no presente. ACM sintetiza muito disto tudo, mas nossos males ainda estão longe da sepultura.
Carlos Melo, Cientista Político, doutor pela PUC-SP, Professor de Sociologia e Política do Ibmec São Paulo. Autor de Collor: o ator e suas circunstâncias (Ed. Novo Conceito) (carlos.melo@isp.edu.br)

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Carta de uma mãe a Lula

A administradora de empresas gaúcha Adi Maria Vasconcellos Soares, de 58 anos, mãe de Luís Fernando Zacchini, de 41 anos, um dos mortos na tragédia de Congonhas, remeteu a Lula uma carta emocionada com data de 21 de julho que começa assim: "Aos governantes e à família brasileira. Perdi meu único filho.”
Seguem trechos da carta:
* “Ninguém, a não ser outra mãe que tenha passado por semelhante tragédia, pode ter experimentado dor maior”
* “Um governo alheio a vaias é responsável pelo desmonte de uma das mais respeitáveis e confiáveis empresas áreas do mundo, a Varig, em benefício da TAM”
* “Assessores do presidente deste país eximem-se da responsabilidade e do compromisso com a segurança de nosso povo exibindo gestos pornográficos”
* “Ao invés de se arrependerem de uma conduta chula, incompatível com a dignidade de um povo doce e amável como o brasileiro, ainda alardeiam indignação, único sentimento ao alcance dos indignos”
* “Aqueles que deveriam comandar a responsabilidade pelo tráfego aéreo no Brasil nada fazem exceto conchavos”
* “Não pensei que teria de passar por mais um insulto: ouvir a falsidade de um presidente, sob a forma de ensaiadas e demagógicas palavras de conforto (…) Que soaram tão falsas quanto a forçada e patética tentativa que demonstrou ao simular uma lágrima”.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Medalha,Medalha,Medalha ! pelo Senador Dem'ostenes Torres

Eu gostaria de ser um cínico elementar ou um pusilânime contente para não julgar ninguém e deixar que o caos do sistema aéreo brasileiro flua normalmente. Como um Plangloss da tragédia, eu diria que tudo vai ficar bem porque assim tem de ser, afinal esta é a forma cabal de se confirmar “a prosperidade do País”, como quer o ministro da Fazenda. Relaxado e no pleno gozo da minha faculdade de genuíno sem-vergonha, eu faria coro ao presidente da Anac para quem “a crise no transporte aéreo brasileiro está longe de ser uma crise.” Caso eu fosse um tolo na colina, eu faria uma interpretação literal do ultimato que o presidente deu naquele 21 de março e aceitaria o “dia e hora” para o problema acabar como um momento incerto, cujo implemento poderia acontecer a qualquer tempo, mesmo por que, “não pode haver pressa neurótica e temperamental”, conforme acredita o ministro da Justiça.
Hoje faz cinco dias do novo caos aéreo nos aeroportos. O problema virou uma versão do inferno à brasileira. O consolo do passageiro não é mais chegar ao destino, mas permanecer vivo. No placar da Infraero o anúncio de previsto virou uma grande notícia entre vôos com atrasos ilimitados e cancelamentos inexplicáveis. Tudo começou na sexta-feira, quando ocorreu pane ou sabotagem no sistema de fornecimento de energia elétrica do Cindacta 4 em Manaus. Depois, as chuvas de inverno inviabilizaram a pista secundária de Congonhas, um nevoeiro fechou o aeroporto de Porto Alegre, no Galeão o tumulto se instalou, enquanto em Guarulhos a imagem dos passageiros sendo torturados pelo atraso e a falta de informação virou regra.
Quem vinha do nordeste em direção à Belo Horizonte, quase aterrissou em Cumbica, por pouco não desceu em Viracopos e acabou no Rio de Janeiro. Há passageiro que deveria ter embarcado no sábado para Belém, mas só hoje, com muita bondade, deve seguir viagem. Agora há mais uma escusa esfarrapada para quem acredita que não se deve atribuir a ninguém a razão da crise. Falta tripulação de reserva porque os vôos estão sendo remanejados de Congonhas. Sobre a pista do aeroporto, no meio da tarde de ontem, a Infraero disse que a perícia da Polícia Federal atrasou a sua liberação, há buraquinhos para serem tapados e tudo ficaria bem ainda nesta semana. Quando a noite caiu, parte da pista desabou e escorreu na enxurrada de desculpas e protelações.
Eu seria um estulto mau-caráter caso afirmasse que a tragédia do vôo 3054 é o limite da crise. Todas as condições para que se produzam novos acidentes estão perfeitamente no ar. Continua a valer a insuficiência de comando do Ministério da Defesa, mãe de todos os males do setor. Os investimentos do governo permanecem precários, como se nada tivesse acontecido. A incompetência gerencial é a mesma, assim como vigora a negligência com o dever objetivo das autoridades de prover a segurança. A facilitação do interesse público à corrupção e à ganância das empresas aéreas é rigorosamente o resumo de um quadro geral de irresponsabilidade expresso em centenas de mortos.
As autoridades brasileiras não aprenderam nada com a tragédia do acidente da Gol ocorrido há dez meses. Ao contrário, assistiram inertes e pacientes o agravamento da crise do sistema aéreo quando deveriam ter realizado planejamento estratégico e executado as providências necessárias ao bem-estar e à segurança do povo brasileiro. Apostaram no esquecimento, fator que sempre dilui as crises neste País. Esquecimento da caixa-preta onde estão guardadas as gravações dos pilotos do Air Bus que explodiu. Esquecimento de uma vítima na lista dos mortos, justamente um co-piloto da própria TAM. Esquecimento da decência e do respeito com a dor alheia, patrocinado pelo senhor Marco top Aurélio top Garcia. Esquecimento do bom-senso ao se condecorar o presidente da Anac com o mérito Santos Dumont. Para mim, ele é o Muttley da aviação brasileira. Está aberta a eleição do Dick Vigarista. Medalha, medalha, medalha!
Demóstenes Torres é procurador de Justiça e senador (DEM-GO)

terça-feira, 24 de julho de 2007

Sargento Garcia

A melhor piada do governo
Governos são geralmente mal-humorados. O de Lula não é diferente. Mas em outubro de 2005, Marco Top Aurélio Top Garcia produziu uma polêmica pérola de humor.
Ele defendia a tese, certa por sinal, de que se pode aprender com as crises, quando derrapou:
-A única coisa que não tem lado bom é CD de Fagner.
Os fãs do cantor caíram de pau em cima de Garcia. O senador Tasso Jereissati saiu em defesa do seu conterrâneo.
O petista terminou pedindo desculpas públicas:
-Não me eximo de culpa. Confiei que uma boutade, que jamais faria em público, não acabaria no jornal. Quando se ocupa função pública, mesmo modesta, é prudente abster-se de comentários assim.
Pelo visto, o sargento Garcia esqueceu a lição.

Top Top Top e Goza!

A demissão do aspone Marco Aurélio Garcia livraria o governo trapalhão do assessor mais afinado: nada faz e, quando tenta ajudar, atrapalha ainda mais. A vantagem é que o presidente Lula, avesso a demissões, não teria que se torturar à procura de novo ajudante. Garcia é insubstituível.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Editorial JB: O marketing do desrespeito

O país inteiro aguardou o pronunciamento do presidente Lula sobre a tragédia do vôo 3054 em Congonhas. Quando este foi exibido, descobriu mais uma vez que havia esperado demais de um líder que tem medo de comandar. A reação tardia, três dias depois do acidente, não foi sublimada por ações que a justificassem. O chá de sumiço foi só a estratégia oportuna para impedir que a revolta nacional fosse, de novo, colada à figura presidencial. Como se isso já não estivesse acontecendo: o novo colapso aéreo de ontem, agora no Cindacta IV, três horas depois do pronunciamento, responde ao presidente e a um país apavorado.
Bem orientado, Lula falou com emoção, tentando tocar o coração dos enlutados pela dor. Foi mais respeitoso que seu assessor direto, flagrado festejando de forma obscena as revelações sobre os defeitos na aeronave que a empresa aérea manteria ocultos se a imprensa não os descobrisse. Menos que as vidas ou cobrar responsabilidade à companhia, falou mais alto a salvação política.
O novo apagão tornou o recado teatral do Planalto ridículo diante das demandas que se propunha resolver e não o faz. Deixou de aplacar o sentimento de indignação alimentado pelas omissões que conduziram a mais uma tragédia e por revelações cujo contorno parece emoldurar a negligência quase criminosa.
Para a população brasileira, o governo simplesmente não agiu. E não age. Lula quis transparecer o sentimento de pesar que não resiste à comparação com as decisões que anunciou. Afinal, para quem vai voar hoje, sejam passageiros ou pilotos, a situação é rigorosamente a mesma que culminou em 188 mortes. Ou até pior, como se viu no grau de risco que envolveu a pane em Manaus. O pesar presidencial faz parte da maquiagem.
A reorganização do tráfego aéreo em Congonhas e em outros pontos saturados deveria ter saído há muito tempo. Mas as empresas sempre dominaram essas discussões. O resultado do veto ainda está fumegante.
O maior desastre aéreo da aviação brasileira equilibrou o contencioso. As empresas perderam, mas nem por isso deixaram de ganhar algo essencial em um setor que trabalha sete dias por semana, 24 horas por dia: tempo. Serão mais dois meses, além de todos os prazos, dias e horas que o presidente já exigira desde o início do apagão aéreo. E no qual a única mudança no céu está nas almas que ali aguardam por uma explicação que não virá tão cedo.
Da mesma forma, anunciar a construção de um novo aeroporto em São Paulo foi outra medida para empurrar a crise de emergência para um tratamento à base de homeopatia. Como governar é contrariar interesses, a melhor forma de evitar isso é dissimular a falta de vontade em meio às brumas vagas dos projetos de longo prazo. Como medida de ação, ante à gravidade da hora, o anúncio do pacote foi o benchmark de um mórbido marketing oportunista. Deu a um governo omisso no assunto um caráter proativo que jamais demonstrou. Os funerais em Porto Alegre tornaram a manobra inócua e expuseram seu caráter desrespeitoso.
O discurso presidencial também foi alvo de fogo amigo. Ver o presidente da inepta Agência Nacional de Aviação Civil sorrindo, ao ser agraciado pelo comandante da Aeronáutica com a medalha do Mérito Santos Dumont, foi como matar novamente as 188 pessoas a bordo do Airbus.
O semblante orgulhoso dos homenageados diante da dor de tantas famílias conspurcou o valor do prêmio e de quem o concede, já que a honraria é pregada no peito de brasileiros que prestam serviços relevantes à aviação. Nesse caso, deve ter sido outorgada pela tenacidade da Anac em bloquear as mudanças em Congonhas que poderiam ter evitado o horror.

domingo, 22 de julho de 2007

Tragédia de Congonhas --R.Noblat

Top,top,top de Garcia ganha espaço nobre na França
Esta noite, no Jornal Nacional das 20h do Canal France 2, Marco Aurélio Garcia, assessor especial de Lula, e Bruno Gaspar, assessor de imprensa dele, brilharam intensamente. Foram as estrelas do noticiário sobre os riscos de se voar no Brasil.
A tv mostrou a célebre cena onde os dois, com gestos obscenos, comemoram a descoberta de que o Airbus da TAM posou em Congonhas com um dos reversores desativados.
Nunca jamais na história deste país autoridades extravasaram dessa forma seus instintos mais primitivos.

sábado, 21 de julho de 2007

Inexoravelmente empacado? Helena Rubinato Rodrigues de Sousa

Em tudo e por tudo, o Brasil está estacionado no passado de futuro brilhante. Somos sempre o país do futuro, pois a esperança é a última que morre, etc.etc. Durante muito tempo, acreditamos que esse era um desígnio de Deus. Já sabemos que não é assim. Deus não nos quer burros, pobres, medíocres.
Não vou me estender sobre a desgraça que nos atingiu esta semana. As mortes. A dor. A angústia. A agonia da espera. Não sabemos exatamente o que aconteceu, ainda. Nem sei se chegaremos a saber com exatidão. Parece que as caixas pretas não saíram ilesas do fogo. Além do que, não sou piloto, não sou técnica em nada, e não entendo nem de administração de aeroportos, nem de engenharia.
O que me dá o direito de estar indignada é o descaso do Governo Federal com as palavras de quem entende do assunto. Congonhas fica no meio de uma área hoje densamente povoada. O Santos Dumont entre água e pedras. Ambos têm edifícios luxuosos, quilômetros do mais fino mármore, lojas, cafés e restaurantes. Mas alguém se preocupou em ouvir – não é fazer uma pergunta aqui, outra acolá – é em ouvir os pilotos e dar a devida atenção ao que eles dizem? Ou em levar a sério os controladores?
A preocupação foi uma só. Desculpe, corrijo: duas. Não aborrecer os donos das companhias aéreas, e nossa imagem lá fora. Bonita preocupação, não é? Tenho visto na BBC internacional, na CNN, na TV5 francesa, na RAI e nas TVs portuguesa e espanhola, as dantescas imagens do Brasil. Lido nos jornais internacionais, os de grande circulação, notícias sobre nosso país. Saudade do tempo em que, lá fora, procurava-se uma notícia do Brasil e não se encontrava uma linha. Era a máxima do “pas de nouvelles, bonnes nouvelles...”.
Hoje, isso acabou. O que aqui se faz, aqui se paga, segundo os calvinistas. Mas também é rapidamente divulgado no mundo todo. Por exemplo, a linda cena que presenciamos ontem: o comportamento apolíneo do Marco Aurélio Garcia, aspone do Lula, e de seu próprio pequeno aspone, chamado Bruno. Ambos mostraram ao mundo como procedem auxiliares do presidente, seus gestos impudentes, expressivos. Não estavam em suas casas, nem num boteco entre rapazes, nem numa festa privada. Estavam numa das salas que compõem o gabinete da Presidência da República, naquele palácio que Oscar Niemeyer fez em vidro branco transparente, para que ali tudo se desse à luz do sol.
Até agora não compreendi o que comemoravam Garcia e seu amigo. E a quem pretendiam ofender. Se comemoravam a possibilidade de um defeito técnico na aeronave ser a causa do acidente, comemoravam a morte de mais de 200 pessoas. Não acredito que isso seja possível. Não vi em nenhum dos dois rabinhos, chifres ou pés de cabra. Se comemoravam o que acham ter sido uma perfídia da Imprensa, desmentida, coitados: estavam assistindo a um jornal da maior e melhor cadeia de televisão brasileira, que se encontra entre as melhores do mundo, justamente porque é livre a sua expressão. Um jornal que tem sido de grande utilidade para o Governo Federal. Que bom que ele pode alertar o Lula sobre muitas coisas. Se não fosse o JN...
Nosso blog ontem estampava uma frase também reveladora: a do Ministro das Relações Institucionais, Mares Guia. Era um embaralhado de idéias que no fundo queria dizer que foi falha humana e portanto o Governo nada tem a ver com isso (não é humano?). Hoje, acabo de ver que o Noblat escolheu outra frase, essa do Lula: “Não importa discutir causas. A responsabilidade pela solução dos problemas é do governo, e disso não podemos fugir”. Não sei qual das duas é mais sincera. Espero que o Lula tenha caído em si, que as vaias lhe tenham feito muito bem. Que o alarido que penetrou sua alma e seu coração vaidosos, tenha tido um efeito salutar e que essa frase seja o prenúncio de uma virada.
O que ele não pode é continuar a passar as mãos na cabeça de corruptos e ter essa dificuldade cósmica em demitir os errados. Na cadeia de comando de nossa segurança aérea está a culpa de tudo que vem acontecendo há meses, de todas aquelas cenas vergonhosas nos aeroportos brasileiros. Agora, piorou muito: são, ao que se saiba, mais de 356 vidas ceifadas estupidamente.
Parece que hoje ele fala à Nação. Vem tarde. Já deveria tê-lo feito. Mas vamos esperar que venha com notícias positivas e com palavras prenhes de verdade e não vazias e fátuas. Que demita quem autorizou a abertura daquela pista cujas obras ainda não estavam prontas. Se a falha foi do piloto, se a falha foi da máquina, nada retira a culpa dos levianos que liberaram a pista inacabada, ainda mais em dia de chuva.
Que a zoada das vaias não saia do ouvido do Presidente tão cedo. Sabe ao que as comparo? A uma palmada bem dada que damos numa criança pequena que se solta de nossa mão e corre para a rua cheia de carros. A vaia é igualmente profilática. Li, a respeito de vaias, uma crônica do Ruy Castro que adoraria ter escrito, na qual ele conta como Julio, um grande jogador de futebol brasileiro, dominou as vaias torturantes que recebia no Maracanã: com garra e mostrando todo seu talento.
Também li sobre as vaias que Churchill, ainda Primeiro-Ministro, recebeu no primeiro grande comício do pós-guerra. O povo, cansado das agruras que sofrera e ouvindo as promessas de fartura que lhe fazia o candidato trabalhista, Attlee, foi estrepitoso em suas vaias. Churchill, com a lucidez e a mente brilhante que Deus lhe deu, disse ao microfone: “Feliz o povo que pode vaiar seus governantes...”. As vaias até recrudesceram. Então, ele encarou a platéia e naquele seu belo vozeirão, disse: “Vim falar sobre o extraordinário desempenho de Londres durante a guerra. Vocês querem vaiar isso também?”. Claro que pode terminar seu discurso, sob aplausos..
O que nós precisamos, sem dúvida alguma, é dessa liberdade à qual Churchill se referia. E da qual, até agora, vimos gozando. Que continuemos a poder vaiar os nossos dirigentes quando não estivermos satisfeitos com eles. Que a Imprensa continue a poder noticiar o que acontece em todos os cantos deste enorme e destrambelhado país. E que os governantes tenham bons exemplos para mencionar.
O dinheiro é essencial, claro. Mas não é o mais importante: para que o Brasil desempaque, é vital que tudo seja feito às claras e que o Lula possa assistir ao JN, e aos outros noticiários, diariamente, a fim de se inteirar da vida real e não da vida de fantasia que lhe pintam esses que o cercam e que não são, mas não são mesmo, seus amigos.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Rodrigo Maia comenta gestos de assessor de Lula

Nota oficial de Rodrigo Maia, presidente do DEM, sobre a reação do assessor especial de Lula, Marco Aurélio Garcia, à notícia de que o avião Airbus da TAM que caiu com 186 pessoas a bordo apresentou problemas no reversor de uma de suas turbinas:
"É estarrecedor e inaceitável que Marco Aurélio Garcia, o assessor mais próximo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, falte com o respeito ao povo brasileiro e apareça, de público, fazendo gestos obscenos no interior de uma sala da Presidência da República. Todos fomos atingidos pelos gestos desqualificados. Não é mais possível tolerar tanta indignidade. Não é possível que o assessor do presidente Lula se julgue no direito de atingir as famílias e a memória das quase 200 vítimas do vôo 3054 comemorando a hipótese de o Airbus 320 da TAM ter voado com um defeito no reversor da turbina direita. Não há o que comemorar, Marco Aurélio. Tudo que estamos vivendo é lamentável, deplorável e indesculpável. Em vez de ter preocupação com a dor das pessoas, ou manifestar interesse na busca de saídas para o caos aéreo, o governo, lastimavelmente, só se importa com a popularidade do presidente da República. E a Nação, além da dor, convive com o desamparo. Mas não somos obrigados e nem vamos conviver com a obscenidade. Peça desculpas, Marco Aurélio. E reze para que as pessoas tenham, em relação a você, a tolerância e o respeito que você não teve em relação a elas.
Rodrigo Maia-20 de julho de 2007
Presidente do Democratas"

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Reforço do lobby bancario.....

A Circular nº 3.339 do Banco Central, que entrou em vigor no último dia 2 na maior moita, obriga os bancos a acompanhar a movimentação financeira de clientes considerados "pessoas politicamente expostas (PPE)", ou seja, ocupantes de cargos no Executivo, eleitas ou nomeadas, como ministros, presidentes e diretores de estatais, além de membros de Cortes Superiores e do Tribunal de Contas da União, governadores, deputados, senadores etc.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Tragédia de Congonhas

"Pise no chão da realidade, presidente Lula"
Nota distribuída há pouco por Arthur Virgílio (AM), líder do PSDB no Senado:
"Estou muito ferido. O PSDB está em prantos e o Brasil também.
Depois do acidente do avião da Gol, que se chocou com o Legacy, matando tantos inocentes, a começar pelo grande número de conterrâneos meus, vem agora o desastre da TAM.
Até quando? Esperar a próxima mortandade? Ou enfrentar a crise do setor aéreo com caráter, coragem e competência?
Inventar culpados? Tirar o corpo fora? Assumir o desgoverno?
O Presidente Lula precisa agir e não falar. Ou seu período se marcará pelo sofrimento e pela dor de tantos brasileiros que poderiam estar vivos, lutando, sofrendo, sorrindo e construindo um Brasil mais justo.
Meu sentimento é de dor e frustração. Essa crise passa por incompetência gerencial, corrupção e insinceridade.
Para mim basta! O Brasil está desesperado, também!
O Deputado Júlio Redecker está nesse avião. Líder da minoria, corajoso, fraterno, amigo querido.
A Nota oficial da Bancada do PSDB no Senado está formal. Esta aqui é minha pessoal, escrita entre lágrimas.
Pise no chão da realidade, Presidente Lula. Exijo-lhe isso mais como brasileiro ferido, prostrado, do que como parlamentar".

sábado, 14 de julho de 2007

Lula no Maracanã (por Ricardo Noblat)

A cerimônia de abertura do PAN 2007 no Maracanã, nesta noite, revelou duas novidades ao país: a auto-estima recuperada do Rio de Janeiro, depois de tantas notícias negativas e sangrentas, e a baixa-estima popular escancarada com a vaia monumental de 90 mil pessoas ao presidente Lula, depois de tantas pesquisas de opinião triunfais e inebriantes.
A festa, belíssima, com as cores e a energia que só o Rio seria capaz de produzir, pode ser o marco de uma trajetória de alto astral que sempre foi a marca da Cidade Maravilhosa, até ser acuada e desfigurada anos atrás pelo crime organizado e pelo tráfico de drogas, que mata, vicia, assusta e corrompe.
A vaia, estrondosa, pode ser um ponto de inflexão na curva estável de popularidade de um presidente que resiste a tudo – navalha, Zé Dirceu, sanguessuga, Palocci, mensalão, vampiros da Saúde, Delúbio, os aloprados do PT, Waldomiro Diniz, furacão, Vavá.
Impávido, Lula atravessou este circo de horrores indiferente, cego e surdo a tudo e a todos. Não era nada com ele, embora respingando no ministro do peito, no assessor de confiança, no gabinete ao lado, no irmão ingênuo e simplório.
Na rede de Lula, era tudo lambari, incapazes de serem confundidos com os verdadeiros tubarões da corrupção. E isso, segundo as pesquisas de vários institutos, medida ao longo de meses a fio, era a percepção dos brasileiros, pacientes e complacentes, cada vez mais encantados com o presidente da República e com os números vigorosos de uma política vigorosa e estável.
Estádio nunca foi problema para Lula. Desde o campo de Vila Euclides, no ABC paulista, onde ele se projetou como herói da classe trabalhadora em plena ditadura, comandando greves e plantando as sementes do primeiro partido operário de massa da política brasileira.
Só agora, mais recentemente, num ou noutro evento Brasil afora, Lula experimentou o sabor amargo de vaias, geralmente de grupos menores que se infiltravam na solenidade. Parecia coisa de xiitas do MSLT ou de ressentidos da esquerda radical do PSOL e do PSTU.
Agora, no Maracanã, foi diferente. Nunca antes na história deste país, como diria o próprio Lula, um presidente foi vaiado por um Maracanã lotado.
Quando o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Nuzman, agradeceu ao microfone pelo apoio das três esferas de governo – federal, estadual e municipal -, ouviu-se o que milhares de pesquisadores dos institutos de opinião não escutaram nos últimos cinco anos. Uma sonora, clara, uníssona, retumbante vaia, capaz de consolar o juiz de futebol mais salafrário.
Nuzman teve o cuidado de não citar o nome, falou apenas em "presidente". Não adiantou. Na seqüência, quando o orador homenageou o "governador", sem citar o nome de Sérgio Cabral, a vaia prosseguiu, firme e forte. Só ao citar o "prefeito", sem declarar o nome de César Maia, é que a platéia, convertida, se derramou em aplausos e nítida aprovação. O que só deve ter piorado o impacto da cena na cabeça do presidente.
Minutos depois, quando o mexicano presidente do Comitê Olímpico das Américas anunciou a palavra iminente de Lula, nova e consagradora vaia. A cena final mostrou Lula, com um papel na mão, pronto para declarar o Pan do Rio oficialmente aberto, distinção reservada à maior autoridade do país. Diante do caos iminente, Nuzman retomou o microfone e poupou Lula do vexame final, fazendo ele mesmo a declaração de abertura.
Lula conseguiu ser o primeiro brasileiro amedalhado do Pan 2007. Não foi ouro, nem prata, nem bronze. O que foi, talvez só as novas pesquisas poderão mostrar.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Viva o Rei!

O Dia Mundial da Pizza não poderia terminar sem uma homenagem especial a ele – nosso inigualável, nosso imbatível, nosso incorrigível Rei da Pizza.
Seus escândalos, até onde a memória alcança, começaram na década de 70 – e, de lá para cá, são quase quarenta anos bem vividos de completa impunidade.
Sim, recentemente ele passou quarenta dias na carceragem da Polícia Federal, acusado de intimidar testemunhas num processo em que é acusado de lavagem de dinheiro, corrupção e formação de quadrilha.
Sim, ele não pode pisar nos Estados Unidos, sob pena de ser preso.
Mas ele também nunca, jamais pagou por qualquer crime, qualquer suspeita ou qualquer acusação. Ele é um herói da impunidade.
Um levantamento feito em 2005 informa que ele já respondeu a mais de 150 processos. Nenhum deu em alguma coisa. Nenhum. Restavam, ainda, alguns processos em aberto. Eram dois no Supremo Tribunal Federal. Seis no Superior Tribunal de Justiça. E dois no Ministério Público Estadual.
Neste momento, é acusado, com base uma impressionante tonelada de documentos, de manter no exterior uma fortuna espetacular, digna de ditador africano. Quase meio bilhão de dólares. Nem um centavo voltou para o Brasil.
Quem é ele?
Claro, ele é o nosso Paulo Salim Maluf, nosso inigualável, nosso imbatível Rei da Pizza. Sem ele, não teríamos o melhor, o maior, o mais completo símbolo de impunidade nacional.
Sem ele, a pizza não seria o que é.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Para PENSAR ---- Luiz Fernando Verissimo

Foi só no século dezenove que a evacuação passou a ser uma atividade privada. Desculpe, eu sei que este não é um bom assunto para domingo, mas prometo ser sério. Até o século dezenove fazer cocô podia ser um ato social, e até reis se reuniam com seus ministros sentados em "tronos" eufemísticos. Há quem diga que se deve à transformação da evacuação num hábito solitário, propício à leitura e à reflexão filosófica, o nascimento do pensamento moderno na obra de gente como Hegel, Marx, Nietzsche e etc. A privada também é uma grande niveladora. O pensamento pode ser diferente, mas na posição e em tudo o mais, somos iguais aos grandes pensadores.
Paralelos históricos nunca são exatos e por isso sempre são suspeitos, mas na Europa do século dezenove, além da mudança nos hábitos de higiene pessoal, acontecia algo parecido com o que aconteceu agora, depois das experiências fracassadas do socialismo aplicado. Na restauração pós-Bonaparte a frustração com a promessa libertária esgotada da Revolução Francesa também deu força à reação e dúvidas mortais à esquerda, que custou a se reencontrar na resultante salada ideológica. Como agora.
O espírito da Restauração depois do terremoto bonapartista também determinou uma mudança no pensamento econômico. Adam Smith, por exemplo, cuja obra antes da Revolução podia ser confundida com pregação reformista (ele era invocado até por Tom Paine, o Che Guevara da Revolução Americana) e incluía uma "Teoria do sentimento moral" passou a ser o profeta da economia como uma ciência moralmente neutra — "aética" é o termo preferido — e um herói da reação, como é até hoje.
O que só significa que ainda somos todos filhos do século dezenove — e da pior parte.
Outra coisa para pensar no banheiro. Nas suas elegias pelo fim de uma Europa que ele amava, o poeta T. S. Eliot culpava a sua vulgarização e queda na modernidade. Um paradoxo, pois ele foi um dos que revolucionaram a poesia da sua época. Para Eliot, a grande ameaça aos valores cristãos da Europa vinha do novo, do que desdenhava dos fundamentos de uma cultura tradicional em nome de uma vanguarda vazia ou de uma democratização banalizadora. Sua posição era a mesma, só que dita em melhores versos, de todos os nostálgicos pela velha ordem européia diante do desafio de novos bárbaros. É difícil imaginar o que Eliot pensaria da ironia histórica que ele não viveu para ver. Hoje a grande ameaça à identidade cristã da Europa é a invasão muçulmana, que pode ser bárbara no caso de ativistas islâmicos, mas, na sua maior parte, é de gente tão religiosa, e tão fundamentalista na sua devoção a tradições, quanto ele. A "Eurábia" em formação, que tantos temem, seria o ideal de um conservador como Eliot — só trocando-se um deus por outro, e alguns hábitos e rituais. O horror à modernidade seria o mesmo.

Incrivel mundo dos muito, muito ricos

Supermilionários vivem no 'Riquistão', um país sem contato com pobres, onde o medo dos germes é obsessão e o horizonte vai até onde o dinheiro compra
Talvez não faça a mínima diferença para você, prezado(a) leitor(a), mas o fato é que o empresário mexicano Carlos Slim ultrapassou Bill Gates na lista dos mais ricos do mundo. Ele está em primeiro lugar no ranking, com US$ 67,8 bilhões, contra os US$ 59,2 bilhões de Gates. É uma quantidade absurda de dinheiro. Apenas um quarto dos países do mundo têm PIB maior do que a fortuna de Slim. E o patrimônio de ambos, feita a soma, representa mais do que o PIB de Cingapura.
Slim e Gates, contudo, não estão sozinhos no seletíssimo clube dos bilionários. Segundo cálculos da revista Forbes, há 946 pessoas com mais de US$ 1 bilhão em todo o mundo. Eram apenas 140 em 1986. Nunca houve tantos super-ricos e fortunas jamais foram feitas tão rápido - fenômeno típico da globalização econômica, apesar do mal-estar social que isso possa gerar. Este é justamente o campo de pesquisa do economista Robert Frank, que assina uma coluna dedicada ao mundo do luxo e das abundâncias no prestigiado Wall Street Journal.
Há um mês, Frank , o colunista, virou notícia nas seções literárias. Ao lançar nos EUA Richistan - ou Riquistão, livro em que relata usos e costumes dos novos super-ricos - atraiu um bocado de resenhas e comentários estimulantes. Original no tema e rigoroso na pesquisa, Richistan tem tudo para ser um best-seller. 'Eu estava conversando com um milionário certa vez', conta Frank nesta entrevista ao Aliás, 'quando ele me falou que se sentia vivendo num outro país'. Daí vem o nome: baseando-se em dados concretos, Frank explica esse Riquistão de poucos, país excêntrico, com códigos secretos e fobias particulares, um mundo cujas fronteiras se estendem até onde o dinheiro compra.
De onde saem os 300 mil novos milionários feitos anualmente só nos EUA? Basicamente de três setores: tecnologia, mercados de capitais e corporações. Com a possibilidade de atalhos, bem de acordo com o momento atual: a partir de uma boa idéia, é possível abrir uma empresa gastando quantidades mínimas de dinheiro, já desfrutando do acesso ao mercado global. Em questão de meses, uma empreitada da nova economia pode ser vendida a grupos maiores, produzindo um ou dois repentinos milionários.
Neste país quase quimérico, não fosse a realidade das cifras, os habitantes não têm mordomos, mas household managers, ou seja, 'gerentes do lar' que programam aparatos tecnológicos, comandam batalhões de empregados e funcionam até como agentes de viagem - para os patrões, claro. Símbolos de status são aviões - o Gulfstream, o melhor jato executivo do mundo, virou coqueluche -, iates de 300 pés e automóveis de milhão de dólares. Carros Mercedes estão fora. Os muito ricos dirigem Maybach - fala-se máibók, nos EUA. São feitas apenas mil destas máquinas por ano, em uma fábrica alemã que construía motores de tanques e zepelins na Segunda Guerra. Poucos reconhecem um Maybach na rua, mas, para os incrivelmente ricos, é assim. Seus símbolos do luxo são tão exclusivos que só podem ser compreendidos 'intra-mundo'.
O Riquistão é um planeta à parte, tanto que seus habitantes não têm contato com pobres, nem mesmo com a classe média. Um mundo no qual, a partir do primeiro bilhão, extingüe-se a divisa entre o que pode e o que não pode ser adquirido. A diferença mede-se em algarismos. O número pelo qual se avalia cada fortuna. O número no ranking da Forbes. É assim o espírito de competição velada no Riquistão. 'Certa vez perguntei a um bilionário se ele era rico', conta nosso entrevistado. 'Ele respondeu que não. Este sujeito é amigo de Bill Gates. Quando compara sua fortuna com a dele, sente-se classe média.'
Diz Robert Frank que o Riquistão está se globalizando. Fora dos EUA, também cresce a quantidade de milionários no Reino Unido, na França, Alemanha, Rússia, no Japão e Oriente Médio. Mas há um novo grupo de países produzindo riquistaneses: China, Cingapura, Quênia, México, Argentina e, pasmem, Brasil.
Há mais milionários, hoje, do que jamais houve. Por quê?
O que aconteceu foi a união entre novas tecnologias, globalização e mercados financeiros. É o que chamamos de 'a tormenta perfeita'. Três tempestades se encontram e criam uma tormenta exuberante. O choque destas três forças criou uma economia na qual quem ganha, ganha muito. Nunca foi possível enriquecer tanto e tão rápido na História. Não bastasse isto, tanto o governo Clinton quanto o Bush diminuíram os impostos para os mais ricos, nos EUA. Na última década, o número de milionários mais que dobrou. São 3 milhões de milionários e 400 bilionários.
Como estas três forças se relacionam para enriquecer pessoas?
O primeiro bilionário foi John D. Rockefeller. Ele precisou escavar poços de petróleo, erguer refinarias, depois construir ferrovias para transportar o combustível. São progressos que levam tempo para acontecer. Hoje, se você tem 20 anos e uma boa idéia, pode conseguir investimento e lançar uma empresa com quase nenhum dinheiro. Não precisará erguer um edifício, nem comprar caminhões. Ainda assim, pela internet, terá acesso ao mercado global. No fim, terá duas opções. Poderá vender seu negócio bem-sucedido para outra empresa ou para o público, se abrir o capital na bolsa de valores. É um processo que toma meses, não décadas. Rockefeller já era um homem de meia idade quando fez seu primeiro milhão de dólares. Um dos homens que entrevistei para o livro, Jerry Polis, abriu 12 empresas diferentes antes de completar 30 anos. Cada um dos quatro filhos de Sam Walton, fundador da Wal-Mart, tem uma fortuna superior à de Rockefeller no momento em que este que morreu, mesmo corrigidos os valores pela inflação.
O fato de que fortunas sejam feitas com facilidade lhes diminui o mérito? E como fica o mito americano do self made man?
Nos EUA, não importa quão rico você é, o que você compra ou como fez sua fortuna, desde que tenha sido honesto. Entrevistei um homem que tem três jatos, dois iates e uma casa na Califórnia onde trabalham 105 empregados. Ninguém acha que ele esbanja porque começou pobre e enriqueceu legalmente. Não corrompeu ninguém, não cometeu fraude. Por outro lado, se o patrimônio foi herdado de mão-beijada ou ganho desonestamente, então nem todo o dinheiro do mundo comprará o respeito dos outros. Esta ética protestante é o motivo pelo qual americanos celebram os ricos. Nisto, os EUA são diferentes de países como o Brasil, ou países da Ásia, onde o dinheiro em geral vem acompanhado de conexões políticas, laços familiares e corrupção.
O homem mais rico do mundo, hoje, é latino-americano. A fortuna de Carlos Slim foi adquirida por conta desta 'tormenta perfeita'?
Carlos Slim é um caso à parte. Por um lado, sim, ele é representante de um novo México que se beneficiou muito do mercado de capitais e da globalização, atraindo investidores para suas empresas. Mas, por outro lado, Slim também se beneficiou do velho México, é acusado de monopólio da telefonia celular em seu país, de manipular o governo para obter favores. Seu sucesso depende destas relações. Os ricos dos EUA enriquecem por conta própria.
Quanto dinheiro é preciso para fazer alguém rico?
US$ 10 milhões.
Que cálculos fez para chegar a este número?
Há dois métodos. Um: perguntar aos bancos privados que gerenciam o dinheiro de ricos quanto tem seu cliente mais pobre. Outro: descobrir quanto dinheiro é necessário para se viver de renda, com luxos, sem jamais gastar o principal. Das duas maneiras, chega-se a US$ 10 milhões. Ainda assim, conheci muitas pessoas que têm esta quantidade de dinheiro e se sentem na classe média.
Afinal, o que é luxo? O que faz de um produto algo exclusivo?
Ao invés de iates de 100 pés, passou-se a construir iates de 200. Mas, para impressionar, hoje, é preciso de um iate de pelo menos 300 pés! A outra forma de definir um produto como exclusivo é aumentar seu preço. Ao invés de comprar um automóvel de US$ 100 mil, alguns compram carros de US$ 1 milhão. O mercado de arte é outro divisor. Recentemente, uma tela de Jackson Pollock foi vendida por US$ 140 milhões; um Mark Rothko, por US$ 73 milhões. Para ter na parede um quadro de grande qualidade, pintado por um artista muito conhecido e de alta cotação, é preciso estar num nível muito superior.
Mas, com US$ 10 milhões o rico está apenas na classe média dos milionários?
É isso. A inflação para produtos que os milionários querem é o dobro da inflação para o resto da economia. Como há milhões de milionários procurando as mesmas roupas, os mesmos automóveis e os mesmos jatos, tudo muito exclusivo, então a demanda é muita e a oferta, pouca. Veja o caso das Ferraris. Se você quiser comprar uma Ferrari, hoje, precisará entrar numa lista de espera e ela só estará disponível daqui a dois anos. Os preços para estes símbolos de status sobem muito mais do que os índices de inflação.
Quanto dinheiro é preciso para dinheiro nunca mais ser problema?
Divido os ricos em três categorias. Aqueles que têm entre US$ 1 milhão e US$ 10 milhões, os que têm entre 10 e US$ 100 milhões e os que passam disto. O primeiro grupo certamente é rico para padrões americanos, mas está na base desta pirâmide. Certa vez, perguntei a um bilionário se ele se sentia rico. Ele me respondeu que não pois conhecia muitos que tinham mais do que ele.
Com US$ 1 bilhão, o que não se pode comprar, em termos materiais?
Neste nível, não é mais uma questão de o que pode ser comprado ou não. Bilionários compram o que quiserem. É o número que importa para eles. Este homem que não se sente rico, como mencionei há pouco, é justamente o dos três jatos e dois iates. Para ele, tomar a decisão de comprar uma casa é como, para mim, tomar a decisão de comprar ovos no supermercado. Só que ele é amigo do Gates e, ao comparar fortunas, sente-se por baixo.
Nesse nível, as pessoas continuam produtivas? Ou passam apenas a administrar a fortuna?
Alguns vivem de fazer com que o dinheiro que já ganharam aumente. Outros, quando percebem que já compraram tudo o que queriam, sentem-se vazios. A solução que muitos deles encontram é dedicação à filantropia. Uns montam organizações para ajudar países pobres. Outros buscam uma carreira política. Apenas em 2003, os ricos americanos doaram 30 bilhões de dólares para caridade.
O que é isso comparado ao investimento de governos em programas humanitários?
Não passa de um pingo d'água no oceano. Governos de países ricos doam incrivelmente mais do que isso. A diferença é que governos e ongs muito grandes acabam desperdiçando em burocracia e corrupção. Veja o exemplo de Philip Berber, um bilionário texano do setor de tecnologia, que luta contra a pobreza na Etiópia. Ao invés de doar o dinheiro para, digamos, a Unicef, ele contrata um etíope para ir às aldeias e perguntar do que o povo precisa. Em alguns casos é um poço para água fresca, mas também pode ser uma clínica ou uma escola. Berber então promove um leilão para descobrir quem executa a obra mais barato, chama gente da aldeia para trabalhar nas construções, a comunidade está sempre envolvida. Segundo as contas dele, seus projetos custam a metade do que custariam nas mãos de uma ONG grande. Mas, verdade deve ser dita, projetos de filantropia como o de Berber ou o de Bill Gates são a exceção entre milionários.
Eles têm contato com a pobreza?
Nenhum. Não têm a menor idéia de como é a vida de uma pessoa pobre. Hoje, se você é muito rico, provavelmente vive numa bolha. Seus filhos vão a escolas que apenas outros ricos freqüentam, sua casa é cercada de outras mansões, suas férias são passadas em lugares muito, muito exclusivos, suas viagens são em aviões particulares. Ricos não interagem sequer com a classe média. Não têm idéia de como é o resto dos EUA, quanto mais o resto do mundo. Berber é uma exceção. Mesmo aqueles que nasceram pobres estão tão longe deste mundo, e não conseguem compreender a situação de desespero de muitos.
Então seguem o estereótipo do novo rico alienado?
São novos ricos, sim. Ter uma fortuna é muito novo para eles. Não importa em que lugar do mundo isso aconteça, quando alguém faz muito dinheiro, no primeiro momento não sabe muito bem como gastar. Aqueles que herdam dinheiro têm gerações de experiência sobre como lidar com fortunas. Sabem como se portar, como gastar, como economizar. Mas os novos ricos de hoje, não. Eles podem gostar muito de badalações, mas querem trabalhar o resto da vida.
Então eles não são como Paris Hilton, que vive de festa em festa?
Não, embora gostem de festas, insisto. Steve Schwarzman, um dos principais nomes de Wall Street atualmente, deu uma festa de aniversário que custou milhões de dólares este ano. Outro milionário, que conheci, deu uma festa na qual apareceram em vídeo lhe dando felicitações um ex-presidente e um ator importante. Dinheiro e celebridades andam juntos. A maioria destes milionários não é famosa, mas eles gostam dos famosos. Há dez ou vinte anos, identificávamos os ricos do mundo, porque eram poucos. Hoje, há bilionários dos quais nunca ouvimos falar. São anônimos. Querem ter mansões e iates, mas não querem que as pessoas saibam. Querem privacidade.
Então são pessoas mais práticas e objetivas?
Elas acham que sim. Larry Page e Sergei Brin, que fundaram o Google, compraram recentemente um Boeing 767. Argumentam que o avião custou apenas US$ 15 milhões e um jato Gulfstream, mais compacto, custaria três vezes isto. Para eles, foi uma decisão prática. Comprar um 'jumbo' para fazer papel de jato particular não é demais? Ricos se acham práticos, mas não são.
Como são suas casas?
Uma casa que visitei tinha 14 TVs de plasma e mais de 100 caixas de som, todas conectadas a uma central que gerencia do entretenimento à segurança. É comum, nestas residências, que as cortinas sejam automatizadas de forma que, conforme elas fechem, a luz seja acendida. Noutra casa, você põe um bótom na roupa ao entrar, de forma que sua localização seja rastreada por satélite. Assim, quando vai de um cômodo para o outro, as portas se abrem e se fecham. Ajuda também a não se perder. A casa é muito grande.
O senhor cita, no livro, que eles têm obsessão por limpeza.
Sim. Nas escolas para mordomos, que hoje são verdadeiros gerentes das mansões e da vida de seus patrões, uma das primeiras coisas que aprendem é que nada assusta mais os milionários do que germes. Nisto, todos os ricos, de todos os tempos, são iguais. Há um século, John Rockefeller já tinha planos de viver até os 100 anos - e ninguém vivia tanto assim naquela época. Milionários querem viver para sempre, são pessoas egocêntricas. E trabalham tanto, e o tempo todo, que não querem parar, porque senão adoecem.
Onde ficam os rincões nos quais vivem os ricos de hoje?
Nos EUA, os milionários vivem na Califórnia, em Nova York, Flórida e Texas. Mas você pode encontrar alguns deles até nos estados mais pobres. Um dos que descobri, enriqueceu produzindo casinhas de cerâmica em miniatura na qual você coloca uma lâmpada dentro. Fez mais de US$ 100 milhões e vive num lugar pacato. No mundo, a maior concentração está no Japão, no Reino Unido, França, Alemanha, Rússia e Oriente Médio. Você os encontrará também na China, em Cingapura, no Quênia, na Argentina, México e Brasil. Nos próximos anos, os super-ricos serão uma comunidade internacional.
Quer dizer, de alguma forma, os mais ricos ficarão mais ricos e os pobres mais pobres?
A economia está crescendo tanto para ricos quanto para pobres. Mas haverá mais milionários. O número deles aumentará em uns 10% por ano. É uma boa época para escrever sobre gente rica. Os ricos têm feito tanto coisas impressionantes quanto ridículas com seu dinheiro.
Entrevista transcrita do Estado de S.Paulo, dia 08 de julho

domingo, 8 de julho de 2007

Apesar de tudo....

Antes, corríamos riscos e tínhamos objetivos. Agora, não há mais objetivos e os riscos parecem não existir. Corríamos riscos de morte, tortura, prisão, exílio, mas tínhamos adiante, palpável, o sonho a realizar: a construção de uma sociedade justa e democrática, com igualdade e plena liberdade. O fim da exploração e da pobreza. A primazia da cultura, sobre o consumo material. E tínhamos certeza, certeza absoluta, de que nossos sonhos se realizariam. Valia a pena correr o risco. Era assim a prática da política nos meus anos de juventude. Havia uma razão para a vida e para a morte, e um céu posterior: a história com a democracia e a justiça.
Acreditávamos que, estatizando a propriedade, distribuiríamos a renda; que a revolução se faria organizando os operários; que o planejamento acabaria com a ineficiência. Descobrimos que isso seria impossível, e que os resultados não seriam aqueles que esperávamos.
Hoje, a política não exige a coragem de enfrentar a morte, mas o cinismo de enfrentar a desonra da omissão, da impotência, da defesa de privilégios e interesses corporativos, próprios ou de financiadores de campanha. Às vezes, envolve o risco de tangenciar ambientes de corruptores. E não parece haver propósito.
A política ficou sem utopia, sem finalidade histórica, prisioneira do seu dia-a-dia. E se perdeu nessa rotina vazia. Por isso, não atraímos o aplauso dos adultos, nem a militância dos jovens. A política virou profissão, e não função. Esfera de acordos e conchavos, e não de ação transformadora. Os partidos que há pouco pareciam resistir se perderam quando chegaram ao poder: sem utopia, sem vigor transformador.
Muitos acham um horror os anos de chumbo da ditadura. Outros, os anos vazios da democracia.
Apesar disso, ainda há objetivos adiante, e os riscos têm de ser enfrentados. Com o mesmo cuidado com que nos protegíamos da polícia quando descumpríamos as leis da ditadura, fazendo o que era preciso para subverter a ordem ditatorial implantada, agora precisamos cultivar o rigor pessoal no dia-a-dia, no uso de recursos públicos, no cumprimento das leis, na permanente vigilância contra desvios e desesperança. E, sobretudo, manter o foco em projetos utópicos, no compromisso com a transformação social no País.
O objetivo não é mais a democracia política, já conquistada. Já não é mais a igualdade socialista, desmoralizada, tecnicamente impossível e eticamente desnecessária. O que nos move agora deve ser retirar o Brasil do atraso e oferecer a mesma chance a cada brasileiro. O atraso só será superado quando nosso país se tornar um centro produtor de capital-conhecimento. E isso só será possível em função da dinâmica criada por uma revolução na educação de qualidade para todos.
Isso é preciso e é possível. O Brasil dispõe de todos os recursos necessários. Nosso desafio, maior do que foi derrubar a ditadura, é convencer os pobres de que é possível, e os ricos de que é preciso. Propor as medidas corajosas e revolucionárias, e reservar os recursos necessários.
Vale a pena fazer política para construir essa utopia, mesmo que seja apenas para convencer os brasileiros de que é necessário, preciso e possível. Vale a pena correr riscos, ainda que sejam maiores do que antigamente. Antes, o pior que podia acontecer era morrer com honra, lutando. Agora, é viver com a honra ameaçada pela omissão e pela lama.
A política na sua ação cotidiana é um dos jogos mais chatos do ser humano. Mas quando ela é feita como o trabalho de operários – com dedicação e voltada para a construção do futuro –, torna-se uma das mais excitantes atividades do homem. Política com um propósito utópico para a nação, com vontade de mudar a realidade, dedicação para convencer os eleitores e articular as lideranças. Fugindo da rotina do dia-a-dia e das tentações do poder.
Apesar de tudo, é preciso continuar lutando. E também sonhando.
Cristovam Buarque é senador (PDT-DF)

sábado, 7 de julho de 2007

Disfuncional e combinado

“Não se trata de crise institucional, mas ‘crise das instituições’”; atalhou o amigo e cientista político Aldo Fornazieri. Está certo; fica melhor assim: “das instituições”! Não por semântica e nem locução, mas clichê: “crise institucional” não permite perceber dinâmica e nem processo. Ademais, não há “sistema” (outro clichê) que não funcione. O que se tem obedece a leis próprias e cria suas contradições. Não há exatamente uma “anomia” (mais clichê). Há, sim, crises setorizadas, pontuais, intra-institucionais; crises em pedaços, que formam um mosaico embaraçoso, disfuncional e combinado.
Executivo, Legislativo e Judiciário enfrentam suas crises: anacronismo, ineficiência, burocratismo, falta de perspectiva histórica, pouca transparência, sistemas superados e problemas de credibilidade de todo tipo que só não são maiores em virtude da economia. Mas, enquanto satisfizer minimamente as necessidades dos que dependem do Estado, a popularidade do presidente ficará em alta; enquanto a estabilidade for preservada, a letargia tornará o resto irrelevante. Não é só aqui; o mundo também tem seus “bois”. Talvez – e se for mesmo inevitável –, sem afobação, como batatas, as instituições se ajeitarão com o andar da carruagem.
O Brasil avançou muito, e daí? É difícil negar a precariedade: corrupção, violência, crime, miséria e vandalismo; risco regulatório e agenda perdida... Tudo à espera do inesperado. À falta de diagnóstico, não se compreende – e talvez nem se queira compreender – para onde vai o mundo. Como organizar o país: que Estado, Parlamento, Economia, Educação, que tipo de Cidadão? A sociedade não questiona; perde-se a dimensão coletiva, o sentido e o charme da política. Perdidos, meninos de classe média agem como imbecis. É a crise das instituições e dos homens, velhos e moços!
Escândalos e desacertos de todos os gêneros convivem com a perspectiva de uma economia pujante, baseada na liquidez internacional e na demanda por commodities; no aquecimento interno e na esperança do álcool, remédio para todos os males. O momento é estranho: sem saber exatamente para aonde, sabe-se que a fase é de transição. Tudo precisa se renovar ao mesmo passo em que os mortos enterram seus mortos (Marx). Cadáveres insepultos, no entanto, preenchem o sistema político e ocupam a cena. Não é fácil, Epitácio! O ritmo da história é exasperante.
E não se trata apenas de corrupção ou da perda do lado fashion. Há um enorme desconcerto nestes tantos eventos de um mesmo escândalo que não tem fim e nem dono. O governo Lula tem lá suas (muitas) culpas, mas não inventou isso tudo sozinho. Seu pecado original foi, no passado de oposição, jogar pedra na cruz, para o quê uma oposição menos competente não consegue dar troco e nem resposta. Seu pecado mortal, no entanto, tem sido mesmo omissão. Subjetivamente, no entanto, todos carregamos o remorso da impotência e o vírus da resignação.
Não há crise institucional, mas intra-instituicional. À falta de agenda baseada em bom diagnóstico, desvitaliza-se o governo, imobiliza-se o Congresso e “constitucionaliza-se” a política: tudo se resolve (ou não) no Judiciário, que também tem lá seus cistos, tumores e metástases. Ao final, faltando força hegemônica e liderança, fica-se no vai-e-vem do que poderia ser e não é; de tudo o que não se realiza. O Brasil precisaria de reformas, mas para quê encarar o desgaste que sequer é consenso?
Chamada “a mãe das reformas”, a reforma política seria o princípio. Mas, garantida a governabilidade pelos métodos de sempre, por que razão o Executivo insistiria em algo que só serviria para lhe colocar freios? Para quê o Legislativo alteraria regras que, ao fim, lhe são favoráveis? E o Judiciário – que nada tem com isso e “só se manifesta quando provocado” – fará ou desfará, na superioridade togada, aquilo que mais tarde no Congresso remendará. A soma é zero!
Se não for apenas daninho, o que resta da “reforma-política-que-nasceu-morta-e-sem-surpresas” padece da inocuidade. Há quem aposte no aperfeiçoando da confusão: financiamento misto! Os efeitos são óbvios. Com notórios problemas, o voto em lista, talvez consolidasse “mercado político” e eleitores mais exigentes. A cacicaria, um dia, teria que apresentar lista que prestasse. Não foi à toa que, na perspectiva da lista, o PFL (atual Democratas) renovou a direção, a marca e os rostos.
Como notou o PSDB, sendo o mais conhecido, o PT se favoreceria; e dentro do PT, a favorecida seria a direção. Mas a revolta de um terço da bancada petista já é sinal contundente de que o pau interno quebraria prá valer. Quem quisesse se garantir, que corresse às bases, ampliando-as e politizando-as. A impessoalidade das disputas, talvez, trouxesse fundo programático. Não custaria tentar. Adicionalmente, é possível que também a corrupção diminuísse.
Mas, ficou para trás; já era. Diziam retirar a liberdade do eleitor. Liberdade para se perder na confusão de candidatos; liberdade para votar no primeiro “santinho”, no mais simpático, no Primo-do-Vizinho. E por que não mencionaram a liberdade do voto facultativo, eliminando o mercado cativo, compulsório, irritadiço e carente de informação e educação política? Os tucanos preferiam, porém, o ideal do Voto Distrital. No Brasil, tudo fica bem quando fica como está!
Entre os Poderes, há sintonia na mesma paralisia, no mesmo ciclo vicioso, na tenebrosa harmonia à qual se juntam instituições privadas. Indiferenciadas, essas se enrijeceram no mesmo corporativismo, cooptação e anacronismo que os partidos. A “sociedade civil” dos anos 80 se diluiu em vários ramos igualmente perniciosos: uns modernos, mas isolados e arrogantes; outros arcaicos, mas agrupados e patrimonialistas. O bordão já virou múmia: “Que fazer?” (é de Lênin).
A engrenagem funciona mal, mas sem surpresas, como que acostumada ao ranger de um carro de bois. No ar, certa melancolia; um banzo pos-moderno, sentimentos assim típicos de transição. O problema maior é mesmo não ter respostas para o futuro. Respostas que somente a política poderia dar; chamem a política do nome que quiserem: economia, mercado, ou racionalidade administrativa. Tudo é política, porque pressupõe interesses, escolhas e conflitos mais ou menos negociáveis, além de poder, é claro.
Parodiando o samba, o risco do lugar “prá se entender, tem que se achar que a vida não é só isso que se vê; é um pouco mais”! A economia e o presidente vão bem, mas a política vai mal. A dinâmica imediatista elimina o horizonte. O meio-de-campo está embolado: logo estaremos diante da DRU e da CPMF e o PAC ainda não desempacou. Cada um que trate do seu agora; “depois de amanhã é domingo e segunda-feira e ninguém sabe o que será”, se é que virá. Por enquanto, basta sobreviver ao tumulto.
Carlos Melo, Cientista Político, doutor pela PUC-SP, Professor de Sociologia e Política do Ibmec São Paulo. Autor de Collor: o ator e suas circunstâncias (Ed. Novo Conceito) (carlos.melo@isp.edu.br)

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Grampos e mulheres nuas - Luiz Fernando Verissimo

Transcrições de conversas em telefones grampeados têm sido publicadas com tanta freqüência que já merecem ser consideradas um gênero literário. Além de satisfazerem o nosso gosto pela bisbilhotice, preenchem uma falha antiga na literatura brasileira que é a falta de diálogos realistas. Os diálogos grampeados são hiper-realistas, cheios de erros gramaticais, descontinuidade, frases incompletas - enfim, como a gente realmente fala, principalmente quando nem desconfia que estão gravando. (Parece até que existe uma regra informal entre investigadores: quando a pessoa cuida onde põe o pronome é porque sabe que o telefone está grampeado.)
O gênero transcrição não é exatamente novo. Quem não se lembra de grampos do passado, como os que gravaram as negociações para as privatizações das teles? Mas era mais raro vê-los publicados, e eram conversas entre pessoas mais finas do que os grampeados de agora, portanto muito menos divertidas. Especula-se que as revelações das gravações do governo anterior circularam tão pouco e tiveram tão pouca conseqüência não porque as maracutaias fossem menores mas porque a sua leitura era mais aborrecida. Agora sim, o gênero encontrou seu estilo e seu mercado.
Mas o que atrai acima de tudo nas conversas gravadas é a deliciosa indiscrição que nos permitem. É o que nos atrai também na idéia de ver, por exemplo, a bandeirinha Ana Paula nua na Playboy. Temos pelos detalhes da falcatrua combinada o mesmo tipo de curiosidade que nos faz antecipar os detalhes da bela celebridade sem roupa. Num caso a indiscrição é sub-reptícia, no outro a indiscrição é consentida, mas nos dois casos temos acesso, esfregando as mãos, a uma intimidade antes escondida. A bisbilhotice é igual. E faz muito sentido que no futuro presumido de celebridades femininas (algumas de 15 minutos) produzidas pelos repetidos escândalos da República esteja sempre um convite para aparecer nua na Playboy. (Desde que mereçam a nossa curiosidade, claro. Ouvi dizer que uma testemunha na longínqua CPI do mensalão se ofereceu para posar e a Playboy recebeu milhares de mensagens horrorizadas pedindo 'Não aceitem!')
As conversas gravadas são uma espécie de desnudamento público, e provocam as mesmas frases com que muitas vezes reagimos a detalhes insuspeitados de uma nua da Playboy. Como 'Mamma mia...', 'Meu Deus do céu...' e, principalmente, 'Quem diria...'

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Aqui jaz o NoMínimo

Editores, blogueiros, colunistas, funcionários, colaboradores assíduos ou ocasionais, enfim, todos os nomes abaixo relacionados que ajudaram a criar o site de jornalistas mais querido do Brasil comunicam sua morte súbita neste 29 de junho de 2007, vítima de inanição financeira decorrente do desinteresse quase geral de patrocinadores e anunciantes em sua sobrevida na web. NoMínimo deixa órfãos cerca de 150 mil assinantes entre os mais de 3 milhões de visitantes que, em média, se habituaram a passar por aqui todo mês nos últimos 5 anos. Seus realizadores também sentem muito o triste fim desse espaço livre, democrático e criativo de trabalho, mas se despedem com a sensação de dever cumprido com o jornalismo e a camaradagem que nos une. Foi bom, foi muito bom enquanto durou. Quantos no país têm a oportunidade de tocar seus próprios projetos com prazer, independência e alegria? Aos leitores, nossas desculpas pela falta de talento empreendedor, o que talvez pudesse transformar o site num bom negócio financeiro. Fica para a próxima. Até breve.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Todos Ouvidos

Má notícia para quem usa Skype e Voip tentando escapar de grampo: a France Telecom criou um sistema que intercepta esse tipo de telefonema. Já em poder da Polícia Federal e da Agência Brasileira de Inteligência.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Justiça Junina.....

No momento de festas e impunidade que vivemos, dançar quadrilha é fácil. Difícil é uma quadrilha dançar...

domingo, 1 de julho de 2007

texto anônimo

Vivemos uma época de celebridades, apelos fáceis à riqueza, ao consumismo, às paixões avassaladoras. Transitamos aturdidos por um mundo em que o destaque vai para aquele que mais tem.E a todo instante os comerciais de televisão, os anúncios nas revistas e jornais, os outdoors clamam: “Compre mais. Ostente mais. Tenha mais e melhores coisas”.É um mundo em que luxo, beleza física, ostentação e vaidade ganharam tal espaço que dominam os julgamentos.Mede-se a importância das pessoas pela qualidade de seus sapatos, roupas e bolsas.Dá-se mais atenção ao que possui a casa mais requintada ou situada nos bairros mais famosos e ricos.Carros bons somente os que têm mais acessórios e impressionam por serem belos, caros e novos. Sempre muito novos.Adolescentes não desejam repetir roupas e desprezam produtos que não sejam de grife.Mulheres compram todas as novidades em cosméticos. Homens se regozijam com os ternos caríssimos das vitrines.Tornamo-nos, enfim, escravos dos objetos. Objetos do desejo que dominam nosso imaginário, que impregnam nossa vida, que consomem nossos recursos monetários.E como reagimos? Será que estamos fazendo algo _ na prática _ para combater esse estado de coisas?No entanto, está nos desejos a grande fonte da nossa tragédia humana. Se superarmos a vontade de ter coisas, já caminhamos muitos passos na estrada do progresso moral.Experimente olhar as vitrines de um shopping. Olhe bem para os sapatos, roupas, jóias, chocolates, bolsas, enfeites, perfumes.Por um momento apenas, não se deixe seduzir. Tente ver tudo isso apenas como são: objetos. E diga para si mesmo: “Não tenho isso, mas ainda assim eu sou feliz. Não dependo de nada disso para estar contente”.Lembre-se: é por desejar tais coisas, sem poder tê-las, que muitos optam pelo crime. Apossam-se de coisas que não são suas, seduzidos pelo brilho passageiro das coisas materiais. Deixam atrás de si frustração, infelicidade. Revolta.Mas, há também os que se fixam em pessoas. Vêem os outros como algo a ser possuído, guardado, trancado, não compartilhado.Esses se escravizam aos parceiros, filhos, amigos e parentes. Exigem exclusividade, geral crises e conflitos.Manifestam, a toda hora, possessividade e insegurança. Extravasam egoísmo e não permitem ao outro se expressar ou ser amado por outras pessoas.É, mais uma vez, o desejo norteando a vida, reduzindo as pessoas a tiranos, enfeando as almas.Há, por fim, os que se deixam apegar doentiamente às situações.Um cargo, um status, uma profissão, um relacionamento, um talento que traz destaque. É o suficiente para se deixarem arrastar pelo transitório. Esses amam o brilho, o aplauso ou o que consideram fama, poder, glória.Para eles, é difícil despedir-se desse momento em que deixam de ser pessoas comuns e passam a ser notados, comentados, invejados.Qual o segredo de libertar-se de tudo isso. A palavra é desapego. Mas...Como alcançá-lo nesse mundo? Pela lembrança constante de que todas as coisas são passageiras nessa vida. Ou seja: para evitar o sofrimento, a receita é a superação dos desejos.Na prática, funciona assim: pense que as situações passam, os objetos quebram, as roupas e sapatos se gastam.Até mesmo as pessoas passam, pois elas viajam, se separam de nós, morrem...E devemos estar preparados para essas eventualidades. É a dinâmica da vida.Pensando dessa forma, aos poucos a criatura promove uma auto-educação que a ensina a buscar sempre o melhor, mas sem gerar qualquer apelo egoísta.Ou seja, amar sem exigir nada em troca.
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