sexta-feira, 29 de junho de 2007

ALEGRIA PASTORAL......

29/06/2007

A atual diversão do brasileiro é ouvir histórias para boi dormir e pensar na morte da bezerra

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Cotação

27/06/2007 0:00

A Bolsa de Mercadorias informa: bezerro de senador vale "150 paus" de Vavá.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

A política, o tempo, o circo

O bom momento tudo perdoa. Voltado para o curtíssimo prazo, surfa a onda de liquidez internacional; interessa apenas que o governo não atrapalhe; que seja prudente. Quando a economia vai bem, tudo se releva; quando vai mal, pingo vira letra. Fossem outras as circunstâncias, o qüiproquó em torno de Renan Calheiros e o constrangimento de Lula com seu irmão, Vavá, seriam a anunciação do apocalipse. Como o quadro econômico é bom, tornam-se apenas entretenimento para curiosidades mórbidas.
Por mais importante que seja para a articulação, no curto prazo, o destino de Renan não importa. O governo pouco articula e não há projeto relevante mesmo. Além do mais, o mais provável é que seja agasalhado pelo manto do corporativismo ou protegido pelo receio de atirarem a primeira pedra. Salvo a mídia, Renan estará a salvo. E se cair, que aprenda a levantar; e se ficar, será um pato manco a mais. Mais um; só isso. Quanto a Vavá, trata-se, afinal de contas, de “um lambari” fisgado pela boca. Menos um!
Os fatos e o desprezo pelos fatos não escondem, porém, sintomas de uma crise mais profunda. Reconheçamos a precariedade institucional: policiais envolvidos com máfias, juízes na cadeia, política na sarjeta, polícia que traz o medo; falta de projeto que já não indigna; pane do Congresso que não importa; crise de valores que já pode ser sentida e até o carnaval que ficou uma bagaceira. É pouco? Nada disso é pouco.
Mas, nada disso parece fazer sentido ou ter importância. Recentemente, Ricardo Noblat, no seu Blog, postou nota intitulada: “tristes bons tempos”. O paradoxo não traz nostalgia, mas resignação. Realmente, tudo parece desmoronar e, surpreendentemente, a calma reina. Uma calma de ocasião; uma calma pré-tsunami. Mas, a calma. Tristes ou não, bons ou não, tempos estranhos!
Teria o Estado e a política perdido o sentido? Teria a dinâmica econômica estabelecido hegemonia sobre qualquer outro valor? Estaria a economia impondo seu consenso e o seu pacto, independente da negociação e do conflito político? Pouco provável.
Neste momento, os olhos do curto prazo não permitem acreditar nisto. Mas, os conflitos permanecem: a “miséria é miséria em qualquer canto”; o meio-ambiente assumiu centralidade. Muito ainda há para pressionar, deixar o clima quente e o céu mais carregado. As diferenças culturais e econômicas continuarão como empecilhos à unificação do planeta num único e incontestável mercado. A política, embora não pareça, ainda é o instrumento de negociação.
O que vivemos é apenas um bom momento em outras esferas. Pode se alongar, mas não sufocará esses desacertos indefinidamente. Vive-se agora uma euforia tola: o momento é bom, mas, ora bolas, o ambiente não. Retira momentaneamente a pressão sobre a política, mas o desajuste permanece como estigma e risco.
Economistas poderão explicar melhor: assim como há efeito manada na saída, vê-se agora que também existe na entrada para o curral. Não se trata exatamente de segurança, mas excessos de liquidez que aumentam a ousadia e diminuem o rigor. A propensão para o jogo e a sedução do bom momento são sereias: o canto da exuberância traz consigo grande dose de irracionalidade.
O mundo cresce, sem o imperativo esforço de melhorá-lo. Com a China, há irrefreável onda de otimismo justificada pela expansão do mundo capitalista. O curto prazo torna-se o nosso tempo. Mas o curto prazo não esgota a perspectiva do tempo. A história não acaba. Apenas, como é natural, a vida pública se acomoda e empurra, com a barriga, o desastre anunciado.
As instituições, hoje, são melhores que há 40 anos. Mas, permanecem ainda frágeis como que esperando a reforma pelo trauma. Quebram um galho no que tange à estabilidade e à segurança dos contratos; mas é pouco: as tais “PPPs” encalham. São os limites da história. Quando teremos mudanças, aperfeiçoamento institucional e renovação política? Ouve-se esta pergunta com surpreendente freqüência. Sabe-se lá.
Os movimentos da história são mesmo imprevisíveis. Mudanças transcorrem, mas não edificam nada imediatamente; um dia a minúscula pedra rola e desarranja tudo, como as tais borboletas que batem asas no Japão e fazem vento no Sapopemba. Cai o velho agonizante, surge o novo. Em meio a dívidas e furúnculos, um profeta do passado dizia que “os homens fazem a história, mas não a fazem sob condições de sua escolha”. O negócio é esperar.
Com o circo na alma
O encanto do palhaço, o perigo da corda bamba, a habilidade do malabarista, a coragem do trapezista, o Globo da Morte e a mulher do invejável atirador de facas... O circo é a mais antiga forma de espetáculo popular. Atualmente, seu problema reside em não acompanhar a transformação da sociedade; deixar-se ultrapassar pelas ondas renovadoras da história sem se reinventar.
Assim como o circo, a política prende atenções ancestrais: o poder, os rituais, os palácios, os áulicos, o arrebatamento do tribuno, a determinação do líder, a força, o conflito, a disputa; a possibilidade de superação e o consenso. Mas, também não empolga mais; se queda decadente como espetáculo de segunda categoria perdida entre telenovelas.
No Brasil atual, a política é um circo pobre, de palhaços sem graça, equilibristas com vertigem, mágicos de almanaque, leões desdentados, estrábicos atiradores de faca. Clama pela atenção do respeitável público, mas o seu número é batido. Uma parte do respeitável público zapeia; a outra, bovinamente, pensa nos preços das picanhas e das pensões cobradas pelos amores fugidios.
O que estaria acontecendo com o circo e com a política? O problema reside no ocaso de um tempo romântico. Ninguém mais abandona a família para se entregar a atividade, fascinado por suas mágicas e encantamentos. Há preconceito e a falta capital humano estabelece a mesmice. Se acreditarmos que a coisa é apenas para malandros, acreditem, os malandros agradecerão.
Perdeu-se o glamour e isto comprometeu a qualidade dos artistas; com a menor oferta, recruta-se pior. Novos atores surgem com papéis pré-determinados, sem a dimensão da sociedade, sem utopias, projetos e nem brilho: representam currais, corporações, igrejas; são celebridades decadentes, herdeiros mimados ou heróis decaídos, letárgicos e paquidérmicos. No mais, acostumaram a pensar pequeno. Como dizia Ulysses Guimarães, “quem pensa pequeno fica anão”.
Entre bastidores e picadeiros, contorcionistas vagam perdidos; a platéia sem empolgação, já acostumada com outra linguagem, nada entende. Mas, ainda assim, agradece a gratuidade das pipocas e a segurança dos mastros que seguram a lona. À falta de melhor alternativa, aceita-se o bis.
O circo é boa metáfora para a política. Ambos, de uma forma ou de outra, sustentam o mesmo bordão: “o espetáculo não pode parar” por conta do palhaço que é ladrão de mulher!
Carlos Melo, Cientista Político, doutor pela PUC-SP, Professor de Sociologia e Política do Ibmec São Paulo. Autor de Collor: o ator e suas circunstâncias (Ed. Novo Conceito) (carlos.melo@isp.edu.br)

domingo, 17 de junho de 2007

Livre pensar...é so PENSAR!

O filósofo grego Aristóteles em sua Ética a Nicômaco alertou para o fato de que as qualidades morais precisam ser praticadas até se tornarem um hábito. O código Cafeteira é a negação dessa verdade".

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(O problema atual da pratica ética terceiro mundista--animalesca e desperdiçadora, em todos os sentidos--é seguir adiante e prender ou comprometer o prevaricador que OUSE dizer que esta é uma Verdade insofismavel, da Humanidade)
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Pra pegar peixe grande

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Política/////O jeito Lula de governar
Frei Betto acaba de lançar o livro "Calendário do Poder" (Editora Rocco), diário de sua atuação como assessor de Lula nos anos 2003 e 2004.
É um excelente livro que mostra as entranhas do poder petista e, digamos, o jeito Lula de governar.
Em 2004, por exemplo, Betto criticou junto a Lula o fato de Zé Dirceu ter assumido a gerência do governo: "Que experiência de gestor ele tem ?
Veja o que Lula respondeu:
- Também fiquei surpreso. Na reunião da coordenação, quando falei que era preciso separar as áreas política e administrativa, eu estava convencido de que o Zé escolheria a área política. Mas preferiu a administrativa. Não quis contrariá-lo, porque sei o quanto sofreu com o caso Waldomiro.

Ex-amigos desiludidos mas esperançosos....

"Lula não tinha de saber"///Da Folha de S.Paulo, hoje: 11/06/2007
"Segundo o ministro da Justiça, Lula soube antes da operação que vasculhou a casa do irmão dele. Isso é correto?
Frei Betto - Nenhum de nós está acima da possibilidade de ser investigado. Não tem que avisar ninguém. O Lula não tinha de saber, não tem de saber. Só têm de saber as pessoas que são responsáveis pela investigação.
Pessoas próximas ao presidente se envolveram em dossiês contra adversários e, agora, um amigo é acusado de ser dono de bingo. O irmão do presidente é acusado de de ser lobista. O sr. conhece Lula faz tempo. Era possível imaginar que isso aconteceria?
Frei Betto - Foi uma grande surpresa. Quanto ao Vavá, acho que é inocente. Ele tem bom coração, para ele todo mundo é bom, às vezes é ingênuo até demais. Quanto aos outros, foi surpresa, mas devo dizer que nunca fui próximo a essa turma. Não quero fazer prejulgamento, vamos esperar. Continuo aguardando que o PT cumpra a promessa de investigar e, se preciso, punir os envolvidos em todos os escândalos. Mas, até agora, não aconteceu nada.
Qual a principal característica desse governo?
Frei Betto - O governo Lula fez uma grande reforma na pintura e na disposição da casa, mas não mexeu na estrutura da casa. A palavra mais forte do discurso de posse do primeiro mandato foi mudança. E as mudanças não ocorreram.
E o que aconteceu com o programa do PT? O Lula se "emancipou" do PT?
Frei Betto - O PT virou sujeito oculto ou correia de transmissão, quando deveria ser justamente a voz da sociedade junto ao governo, é papel do partido, e não ser a voz do governo junto à sociedade. O lulismo superou o petismo."

sexta-feira, 8 de junho de 2007

O irmão, o compadre e a batota


Todo político tem um séquito: é da natureza do ofício. O séquito, naturalmente, tem uma hierarquia. No topo, ficam os poucos e bons operadores da mais estrita confiança do prócer - a exemplo do falecido Sérgio Motta, no caso de Fernando Henrique, e de Gilberto Carvalho, no caso do presidente Lula. Eles não apenas são incumbidos de missões delicadas e sigilosas, como ainda funcionam como conselheiros do chefe. No sopé dessa estrutura estão os seus paus-para-toda-obra, tarefeiros que abrem portas, guardam costas, dirigem carros, carregam volumes, para o político e seus familiares.

Nada mais natural que, subindo o político na vida, membros dessa arraia-miúda de autodenominados “assessores” sejam procurados por espécimes do submundo da periferia do poder e a eles se associem no crime. São figurantes que o chefe pode ou não conhecer pessoalmente, mas há de saber quando se valem da sua conexão consigo, ainda que remota, para conseguir uma boquinha numa repartição - no mínimo.

Eis o material com que habitualmente se confeccionam as teias pegajosas como a que a Operação Xeque-Mate, da Polícia Federal (PF), acaba de romper, no combate à máfia dos caça-níqueis. A peculiaridade, agora, é a presença nesse circuito de um irmão e de um compadre do presidente da República. O primeiro, Genival Inácio da Silva, o Vavá, foi indiciado sob a acusação de tráfico de influência no Executivo e exploração de prestígio no Judiciário. O segundo, Dario Morelli Filho, apontado como sócio do batoteiro Nilton Cezar Servo, o 79º preso pela PF em seis Estados, é acusado de corrupção ativa e formação de quadrilha. Desta vez respeitando estritamente o sigilo de Justiça que recobre a operação, os federais não divulgaram os nomes das autoridades junto às quais teriam delinqüido. De outra parte, não há o mais tênue indício de que, a serem verdadeiras as ações de que são acusados o irmão e o compadre, Lula tivesse motivo para delas suspeitar, antes de ser informado pelo ministro da Justiça, Tarso Genro, da operação em preparo.

A conduta do presidente, aliás, foi nada menos do que irretocável. Ao que se sabe, não moveu uma palha para impedir que se expedisse o mandado judicial de busca e apreensão na casa de Vavá. Ao ser entrevistado, em Nova Délhi, pelos jornalistas que o acompanham na viagem, tomou a iniciativa de revelar que é padrinho de um filho de Morelli. Foi elegante com o irmão - a quem repreendera de público, em 2005, quando se divulgou que tentava fazer lobby para empresas do ABC junto ao Planalto -, dizendo enfaticamente “não acreditar mesmo, de verdade”, que ele tenha parte com a gangue da tavolagem, que contrabandeava componentes eletrônicos para os caça-níqueis e, de quebra, traficava drogas. Mas, falando “como presidente”, emendou, “se a Polícia Federal tinha uma autorização judicial e o nome dele aparecia, paciência”. Do compadre, disse pouco: “Se foi preso, será investigado, interrogado e, depois, haverá um veredicto.” Morelli é o típico sequaz de político descrito no início deste texto.

Faz-tudo da família de Lula, escoltou o candidato presidencial em eleições anteriores (e José Dirceu, em 1994), fez bicos para o PT e o sindicato dos metalúrgicos, abriu uma firma de segurança e, apadrinhado do petismo, enveredou pelo setor público: conseguiu emprego numa empresa municipal em Mauá, numa secretaria da Assembléia Legislativa e, ultimamente, na área de saneamento da prefeitura de Diadema, da qual foi afastado anteontem. Aparentemente, envolveu-se com caça-níqueis ao cuidar da segurança de uma casa de bingos. Então teria conhecido o ex-deputado estadual paranaense Nilton Cezar Cervo, tido como o capo da quadrilha. Este é outro personagem do submundo da política: ao trabalhar nas campanhas de Zeca do PT, em Mato Grosso do Sul, acabou conhecendo Lula, de quem passou a se dizer amigo e comensal. Depois, teria pedido ao presidente que legalizasse os bingos. A PF registrou pelo menos um telefonema dele a Vavá. Em suma, ele, Morelli e o bingueiro estavam na mesma ciranda.

Deveria o presidente ter se informado dos negócios do irmão e do compadre? Seria o ideal. Mas essa saudável curiosidade é incomum entre os políticos brasileiros. Talvez porque saibam que quem procura acha.
O governo da história: a história do governo
Político experiente e economista respeitado, Antônio Delfim Netto publicou, na Folha, artigo dirigido a “cientistas sociais” que andam desancando o governo. Alertou para o fato de Lula ter “1º) implementado um programa de diminuição das desigualdades e redução da pobreza absoluta que o reelegeu; 2º) devolvido à mesa a questão do crescimento; 3º) enfrentado pela primeira vez os verdadeiros problemas que explicam a precariedade do ensino fundamental público e 4º) que isso foi feito com respeito à política fiscal e plena autonomia do Banco Central”. É possível intuir que a seta de Delfim tenha o endereço de certo “cientista social” que passou pelo poder. Mas, serve também para muitos outros de nós.

Sob esses aspectos, realmente somos frequentemente injustos se não apenas com Lula também com limites da história. Ansiedade e aflição com o ritmo da política, diria. O fato é que governo tem realizações e quem não for anti-lulista de profissão e fé se verá obrigado a lhe atribuir o mérito de, no mínimo, não tornar as coisas piores do que são. Com as idiossincrasias do PT e o sistema político que o rodeia, feitos como esses não deixam de ser excepcionais.

Mas, é verdade também, muito “se fez” pela própria dinâmica dos fatos: se o “programa de diminuição das desigualdades” foi “implementado” pelo presidente, foi também o mínimo diante da expectativa gerada; “o debate sobre o crescimento” foi forjado na substituição agenda da estabilidade e no previsível esgotamento das políticas sociais; “o enfrentamento da precariedade do ensino fundamental” mal começou e, por fim, o “respeito à política fiscal” e a “plena autonomia do BC” foram impostos como premissa para a trégua econômica, em 2003. Na marra, praticamente.

O mérito de Lula está em deixar o barco fluir; ser seu fiador. Para as condições brasileiras e ilimitada capacidade de atrapalhar, de seus aliados, não foi pouco. Agiu no espírito da arte do possível. Ao fim, não importam os caminhos, chegou-se nas cercanias de Roma. Delfim não deixa de ter razão.

Pode-se objetar que “a régua do possível” ficou abaixo do plausível; faltam projeto e liderança ousada para articular instrumentos mais consistentes de reforma e crescimento, além arrojo no debate reformista. Mas, também é verdade que não há sistema político para isto e mesmo seu partido, o PT, não é lá uma Brastemp que se possa confiar. O jogo ficou truncado.

É claro que, diante da popularidade de que dispõe a ousadia de que carece traz riscos: a mosca azul do populismo ou a reação, no momento seguinte. O equilíbrio é difícil e não há sociedade organizada como dínamo de mudanças. Não só por acefalia, há inequívoca crise política, mais profunda e complicada que os escândalos produtores de “patos mancos” que se lê por aí. Lula não está só – tem a massa disforme ao seu lado –, mas, é um sobrecarregado arrimo de família. Gente humilde sem ter com quem contar.

A estocada de Delfim obriga a pensar mais profundamente: a crise está em Lula, ou, no final das contas, reside no desacerto geral da sociedade? Certamente, envolve mais atores, presentes dentro e fora do Estado e do sistema político. “Cientistas sociais”, críticos e austeros, cumprem seu papel. Mas, talvez com exagero em exigir apenas de Lula respostas que o processo histórico ainda não viabilizou. Faltam externalidades capazes de parir consensos.

O sistema político arcaico e disfuncional é também resultado dos valores da sociedade. Não apenas porque não há mandato sem votos, como também porque se deixou de dar importância à política. Gradativamente, os melhores quadros da sociedade se afastaram. Sofre-se agora a ausência de elaboração e da massa crítica pouca. O homem público declinou; não apenas no Brasil.

Ao Estado sobraram “raspas” e “restos”, misturados ao oportunismo, demagogia e farisaísmo de todo tipo. As poucas esperanças e espíritos públicos desmancham-se no ar. As instituições não se consolidaram ou se consolidam muito lentamente. Somos novos, mas o mundo é velho.

O déficit de qualidade parlamentar atinge níveis gritantes; políticos com o quê dizer são raros. Os “de opinião”, por falta de curral, poucos se elegeram; Delfim, aliás, ficou de fora. Há um vácuo nas Elites do Congresso e a Vanguarda é incapaz de dirigir e superar crises. Alvejados, os mais experientes foram reduzidos a “patos mancos”; os novos, por enquanto, sequer são promessas. Basicamente, hoje tudo é transição e baixo clero.

O ciclo é vicioso e cruel. Além do sistema depauperado, órgãos de Estado autônomos e autômatos: não raro, Polícia Federal e Ministério Público agindo de si e para si. Não se trata de “mordaça”, mas, não se pode arbitrar na marra o processo político por via da continuada desqualificação dos atores, do desrespeito aos sigilos e do atropelo à lei. Em Brasília, há um medo atroz do telefone; a síndrome do grampo. Não há privacidade. Bom e ruim, mas sabe-se lá o que os Arapongas vão vazar!

A primeira vítima é a qualidade do debate. O “furo”, em prejuízo da reflexão. Na “lógica difusa”, a concorrência reafirma o “jornalismo investigativo e independente”, dependente de novos escândalos. Fiscalizar é importante, mas a forma desabrida leva à deformação do instrumento e à vulgarização do extraordinário. Fica faltando explicar o porquê das coisas. Ninguém entende; todos se afastam. Restam escombros.

Na boca da classe média, o gosto de sangue: a voracidade pelo próximo Judas – e judas há aos montes. Justificadamente enraivecida, falta-lhe clareza do processo e do momento. Diferente das rosas, os fatos falam por si e exalam outros perfumes. Na lama, inocentes e culpados não se diferenciam; todos afundam, sem escala, na direção de infernos públicos e particulares. Por fim, restará jogar a criança pela janela com a água do banho que lhe contaminou. O cinismo vitorioso dirá: nada presta, nada vale uma pataca do meu imposto ou um pão velho da minha caridade!

No quadro da conjuntura, os horrores de um Guernica ou o Inferno de Dante: sistema político viciado, sociedade apática, conceitos e preconceitos, guerra internas, disputas de espaço; Estado pouco eficiente; corrupção ancestral, sensacionalismo e superficialidade analítica; juízos de valor para dar e vender. A estupidez como espetáculo; a besta-fera mordendo o próprio rabo; a falta atávica de ponderação e a desorganização crescente de quase tudo.

Ao redor vemos Lula, paradoxalmente cúmplice e vítima, assim como nós. Um deus hipotético e impotente que, ao fim e ao cabo, também escreve por linhas tortas, como demonstra Delfim. Fecha os olhos, toca em frente, faz o possível não o necessário. Muita sorte, pouca liderança; o governo da história é, ao fim, a história deste governo. No pior dos mundos, amaldiçoa-se a escuridão sem que se pergunte pelos fósforos.

Carlos Melo, Cientista Político, doutor pela PUC SP, professor de Sociologia e Política do Ibmec São Paulo. Autor de Collor: o ator e suas circunstâncias (Editora Novo Conceito).

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Good Morning!

Oração de brasileiro
Pelo projeto político do deputado Clodovil
Pelo espetáculo do crescimento que até hoje ninguém viu
Pelas explicações sucintas do ministro Gilberto Gil
Senhor, tende piedade de nós!
Pelo jeitinho brejeiro da nossa juíza
Pelo perigo constante quando Lula improvisa
Pelas toneladas de botox da Dona Marisa
Senhor, tende piedade de nós!
Pelo Marcos Valério e o Banco Rural
Pela casa de praia do Sérgio Cabral
Pelo dia em que Lula usará o plural
Senhor, tende piedade de nós!
Pelo nosso Delúbio e Valdomiro Diniz
Pelo "nunca antes nesse país"
Pelo povo brasileiro que acabou pedindo bis
Senhor, tende piedade de nós!
Pela Cicarelli na praia namorando sem vergonha
Pela Dilma Rousseff sempre tão risonha
Pelo Gabeira que jurou que não fuma mais maconha
Senhor, tende piedade de nós!
Pela importante missão do astronauta brasileiro
Pelos tempos que Lorenzetti era só marca de chuveiro
Pelo Freud que "não explica" a origem do dinheiro
Senhor, tende piedade de nós!
Pelo casal Garotinho e sua cria
Pelos pijamas de seda do "nosso guia"
Pela desculpa de que "o presidente não sabia"
Senhor, tende piedade de nós!
Pela jogada milionária do Lulinha com a Telemar
Pelo espírito pacato e conciliador do Itamar
Pelo dia em que finalmente Dona Marisa vai falar
Senhor, tende piedade de nós!
Pela "queima do arquivo" Celso Daniel
Pela compra do dossiê no quarto de hotel
Pelos "hermanos compañeros" Evo, Chaves e Fidel
Senhor, tende piedade de nós!
Pelas opiniões do prefeito Cesar Maia
Pela turma de Ribeirão que caía na gandaia
Pela primeira-dama catando conchinha na praia
Senhor, tende piedade de nós!
Pelo escândalo na compra de ambulâncias da Planam
Pelos aplausos "roubados" do Kofi Annan
Pelo lindo amor do "sapo barbudo" por sua "rã"
Senhor, tende piedade de nós!
Pela Heloisa Helena nua em pêlo
Pela Jandira Feghali e seu cabelo
Pelo charme irresistível do Aldo Rebelo
Senhor, tende piedade de nós!
Pela greve de fome que engordou o Garotinho
Pela Denise Frossard de colar e terninho
Pelas aulas de subtração do professor Luizinho
Senhor, tende piedade de nós!
Pela volta triunfal do "caçador de marajás"
Pelo Duda Mendonça e os paraísos fiscais
Pelo Galvão Bueno que ninguém agüenta mais
Senhor, tende piedade de nós!
Pela eterna farra dos nossos banqueiros
Pela quebra do sigilo do pobre caseiro
Pelo Jader Barbalho que virou "conselheiro"
Senhor, tende piedade de nós!
Pela máfia dos "vampiros" e "sanguessugas"
Pelas malas de dinheiro do Suassuna
Pelo Lula na praia com sua sunga
Senhor, tende piedade de nós!
Pelos "meninos aloprados" envolvidos na lambança
Pelo plenário do Congresso que virou pista de dança
Pelo compadre Okamotto que empresta sem cobrança
Senhor, tende piedade de nós!
Pela família Maluf e suas contas secretas
Pelo dólar na cueca e pela máfia da Loteca
Pela mãe do presidente que nasceu analfabeta
Senhor, tende piedade de nós!
Pela invejável cultura da Adriane Galisteu
Pelo "picolé de xuxu" que esquentou e derreteu
Pela infinita bondade do comandante Zé Dirceu
Senhor, tende piedade de nós!
Pela eterna desculpa da "herança maldita"
Pelo "chefe" abusar da birita
Pelo novo penteado da companheira Benedita
Senhor, tende piedade de nós!
Pela refinaria brasileira que hoje é boliviana
Pelo "compañero" Evo Morales que nos deu uma banana
Pela mulher do presidente que virou italiana
Senhor, tende piedade de nós!
Pelo MST e pela volta da Sudene
Pelo filho do prefeito e pelo neto do ACM
Pelo político brasileiro que coloca a mão na "m"
Senhor, tende piedade de nós!
Pelo Ali Babá e sua quadrilha
Pelo Gushiken e sua cartilha
Pelo Zé Sarney e sua filha
Senhor, tende piedade de nós!
Pelas balas perdidas na Linha Amarela
Pela conta bancária do bispo Crivella
Pela cafetina de Brasília e sua clientela
Senhor, tende piedade de nós!
Pelo crescimento do PIB igual ao do Haiti
Pelo Doutor Enéas e pela senhorita Suely
Pela décima plástica da Marta Suplicy
Senhor, tende piedade de nós!
Para que possamos ter muita paciência
Senhor, dai-nos a paz!